Bolsões de intolerância aumentam preocupação na Copa

Kelly Whiteside

O Estádio Olímpico de Berlim, onde o corredor afro-americano Jesse Owens conquistou quatro medalhas de ouro nas Olimpíadas de 1936 diante de Adolf Hitler, receberá seis partidas da Copa do Mundo, incluindo a final, em 9 de julho. O estádio foi reformado com um teto estonteante de aço e vidro, camarotes de luxo e com uma sala VIP que leva o nome de Owens.

Apesar da nova aparência, o estádio poderá ter dificuldade para escapar de sua história de símbolo da intolerância racial. Setenta anos depois daquela que ficou conhecida como a Olimpíada Nazista, o racismo cada vez mais ameaçador dentro da Europa tem destaque nesta edição da vitrine quadrienal do futebol.

Na Alemanha e em vários outros países europeus, as torcidas às vezes disparam insultos raciais contra jogadores de minorias. Vários dos jogadores afro-americanos da seleção dos Estados Unidos que jogam profissionalmente na Europa dizem que já foram alvo de discriminação, agressão verbal e até mesmo física devido à sua raça -dentro e fora de campo. Há preocupações sobre como incidentes raciais poderão afetar a Copa do Mundo da Alemanha, onde o torneio com 32 equipes terá início em 9 de junho e será realizado em 12 cidades.

Um grupo anti-racismo na Alemanha está tão preocupado que chegou a alertar turistas não-brancos para que evitem as cidades e vilas rurais fora de Berlim, na antiga região comunista do leste do país.

O comportamento rude dos hooligans há muito tempo é um problema no futebol europeu, mas os ativistas antidiscriminação dizem que ataques verbais e incidentes raciais estão aumentando devido a uma confluência de fatores.

Entre elas: a crescente diversidade racial em clubes que antes eram exclusivamente brancos, uma crescente resistência à imigração de países africanos e árabes para vários países europeus, a tendência de conflitos raciais ganharem as manchetes e uma maior investigação de tais incidentes.

Em algumas áreas, incluindo a região rural do leste alemão, a tensão racial também parece alimentada pela falta de oportunidades econômicas para os brancos.

"Costumava ser violento e a violência ainda faz parte do quadro, ao menos em partes do Leste Europeu. Mas agora se trata de raça", disse Piara Powar, o diretor da Kick It Out, uma organização com sede em Londres dedicada a combater o racismo no futebol. Powar disse que os torcedores sabem que podem causar tumulto -e talvez incomodar um jogador adversário- com insultos raciais.

O zagueiro Oguchi Onyewu, um afro-americano que joga pelo clube belga Standard Liège, deverá ser um dos destaques dos Estados Unidos nesta Copa. Com 1,92 metro e 95 quilos, ele também é o jogador mais alto da seleção americana, que estreará em 12 de junho contra a República Tcheca. Mas recentemente, o tamanho de Onyewu não impediu os torcedores rivais de lançarem ataques racistas contra ele.

"Eu fui importunado enquanto estava no carro, levei um soco no rosto, ouvi fazerem barulho de macaco", disse Onyewu. Ele jogou na França e na Bélgica nos últimos quatro anos mas disse que esta é a primeira temporada que experimentou tal racismo aberto.

Onyewu, que é de Olney, Maryland, disse em março que ao sair da partida de um time rival com alguns amigos, foi avistado por alguns torcedores do Club Brugge, um adversário no campeonato.

"Eles balançaram o carro, cuspiram no carro, atiraram comida, chutaram o carro, bateram no carro, todas estas coisas", disse Onyewu, que acredita que o incidente teve motivação racial. Parte do pára-choque de seu Chrysler 300 foi arrancado, ele disse. "Eu fiquei furioso demais para ficar assustado. Meus amigos não me deixaram sair porque acharam que os torcedores me machucariam."

Onyewu disse que quando seu time jogou em um estádio rival, em abril, onde os torcedores ficavam sentados perto do campo, ele recebeu um soco no rosto durante o jogo. "Eu ia cobrar o lateral e alguns torcedores começaram a fazer som de macaco, então fiz um gesto do tipo 'que se dane'. E um sujeito se aproximou e me deu um soco na boca." Onyewu disse que o torcedor foi suspenso e multado.

"Você apenas ignora, porque se você reagir, isto os provoca ainda mais", disse Onyewu, 24 anos. "Eu sei que não é a maioria, é uma minoria de pessoas. (...) Eu não sei dizer por que começou ou por que ainda ocorre. Só sei que existe na Itália, França, Bélgica, Holanda, Alemanha, Espanha e outros países."

Mais jogadores negros na Europa

O aumento da imigração tem incitado parte da tensão racial por toda a Europa, disse Powar, citando os tumultos nos subúrbios de Paris no ano passado, que trouxeram à tona a frustração dos imigrantes diante da falta de oportunidade econômica, especialmente para os jovens.

"Nós temos uma histeria em torno da imigração, temores que estão se acumulando, particularmente no sul da Europa no momento", disse Powar, cujo grupo faz parte de uma rede de organizações de 13 países europeus chamada Futebol Contra o Racismo na Europa (Fare).

Especialistas no assunto, assim como os jogadores americanos, dizem que o comportamento racista não parece tão tabu na Europa quanto nos Estados Unidos. "É loucura pensar que tais coisas ainda existam", disse o capitão da seleção americana, Claudio Reyna, que jogou na Alemanha, Escócia e Inglaterra nas 10 últimas temporadas. "Eu já vi e ouvi. Muitos países na Europa estão muitos anos atrasados em relação à sua tolerância ao racismo. É decepcionante."

A globalização do futebol levou a um aumento da diversidade em campo, que tem provocado dissensão de alguns torcedores na Europa.

Muitas das maiores equipes do mundo estão na Europa e são lideradas por
jogadores negros:

-Ronaldinho, o jogador da atual seleção campeã do mundo, o Brasil, e eleito jogador do ano em 2004 e 2005, joga pelo atual campeão europeu de clubes, o Barcelona da Espanha, assim como o sueco Henrik Larsson.

-Thierry Henry, da França, e Kolo Toure, da Costa do Marfim, conduziram o Arsenal da Inglaterra à final da Liga dos Campeões da Europa.

-Michael Essien, de Gana, e Didier Drogba, da Costa do Marfim, ajudaram o Chelsea a conquistar o título da Premier League inglesa.



Todos estarão na Copa do Mundo, assim como Gerald Asamoah e David Odonkor da Alemanha, ambos negros e de descendência ganense. Em 2001, Asamoah se tornou o primeiro jogador negro da seleção alemã; depois dele veio Patrick Owomoyela, um reserva da seleção nesta Copa.

Juntamente com Henry, a seleção francesa conta com mais de uma dúzia de
negros. A seleção americana tem cinco.

Para os jogadores afro-americanos da seleção dos Estados Unidos que cresceram em meio a um esporte predominantemente branco e suburbano em casa, o preconceito explícito no exterior tem servido para abrir os olhos.

"Na América, nós não temos isto. Ninguém fica dizendo coisas raciais para você", disse o meio-campista americano DaMarcus Beasley, que joga no campeonato holandês pelo PSV Eindhoven. "É bem feio na Espanha, um pouco na Itália. Isto depende do território."

Em um jogo pela Liga dos Campeões da Europa contra o Estrela Vermelha de Belgrado, na Sérvia e Montenegro, em 2004, Beasley foi recebido rudemente. Quando ele tocava na bola, ele disse, o torcedores assoviavam, vaiavam e faziam som de macaco. Em jogos na Holanda, disse Beasley, ele às vezes enfrenta tratamento semelhante, o que o deixa intrigado porque muitas das equipes adversárias também têm jogadores negros.

Cory Gibbs, um zagueiro negro que foi cortado da seleção americana na semana passada por causa de uma lesão no joelho, disse que enfrentou discriminação enquanto jogava pelo Saint Pauli na Alemanha, em 2003 e 2004. "Minhas experiências ocorreram quando jogávamos no leste alemão", ele disse. "É mais direto e rude; está lá. Nos Estados Unidos as coisas não são tão diretas."

Ele disse que quando tentava entrar em restaurantes no leste da Alemanha, às vezes lhe diziam: "Esta é uma festa particular. Você não é bem-vindo".

Esforços de conscientização aumentaram

Nos últimos meses, os jornais europeus estiveram cheios de reportagens sobre racismo no futebol. "A mancha da Europa", dizia uma manchete do "The Sunday Times" em Londres, em 5 de março, uma semana depois que um dos maiores jogadores do mundo, Samuel Eto'o, que é de Camarões e joga pelo Barcelona, ameaçou deixar um jogo após a torcida adversária entoar sons de macaco e lhe atirarem amendoim.

Em novembro passado, Marc Zoro, que é da Costa do Marfim e joga pelo clube italiano Messina, pegou a bola e ameaçou deixar o campo devido aos cantos racistas da torcida do Inter de Milão. Em dezembro passado, Paulo Di Canio, um atacante do clube italiano Lazio, foi suspenso após fazer uma saudação nazista para os torcedores. Ele disse que estava apoiando o fascismo, não o racismo.

A preocupação com o racismo tem provocado ação por parte da polícia e de líderes religiosos, incluindo o papa Bento 16. Uma mensagem anti-racismo do papa foi lida aos torcedores antes do amistoso entre Itália e Alemanha, em março.

Programas educacionais e grupos ativistas como o Fare são proeminentes na Europa. Também há um esforço de propaganda anti-racismo como a campanha "Stand Up, Speak Up" ligada à Nike e liderada por Henry da França, que foi alvo de insultos racistas pelo técnico espanhol Luis Aragonés. Aragonés foi multado em US$ 87 mil e pediu desculpas publicamente, não pessoalmente.

A Nike disse que vendeu 5 milhões de pulseiras de borracha preto-e-branco por toda a Europa; a renda será destinada a um grupo anti-racismo.

A Fifa, a entidade que rege o futebol, aprovou uma legislação anti-racismo em março que será aplicada na Copa do Mundo. Jogadores, técnicos e integrantes das seleções no torneio poderão ser penalizados por incidentes raciais. Mas os torcedores não.

"Nós precisamos ficar atentos ao que acontecerá na Copa do Mundo", disse o presidente da Fifa, Sepp Blatter, durante um recente encontro com repórteres. "Se algo acontecer em campo, no banco ou em qualquer lugar diretamente ligado à partida, nós reagiremos. Mas não podemos controlar o que acontece na arquibancada. Os torcedores estarão espalhados pelo estádio (...) nós não separamos áreas específicas. De forma que não poderemos punir as equipes por incidentes onde não poderemos atribuir culpa."

Os jogadores que se alinharem antes de cada partida segurarão faixas
condenando o racismo e, a partir das quartas-de-final, os capitães das
seleções lerão mensagens anti-racismo antes dos jogos. Também haverá dois dias antidiscriminação durante o evento. O slogan da Copa do Mundo: "Um Momento para Fazer Amigos".

As autoridades alemãs estão preocupadas que neonazistas e outros grupos
racistas possam tentar perturbar o evento, citando o que chamaram de recente aumento da violência contra pessoas de pele escura. Duas semanas atrás, Uwe-Karsten Heye, o ex-porta-voz do chanceler alemão Gerhard Schroeder e atual chefe de um grupo anti-racismo, alertou aos turistas "com cor de pele diferente", que vierem para a Copa do Mundo, para evitarem cidades e vilas fora de Berlim e outras áreas rurais da antiga Alemanha Oriental.

O goleiro americano Kasey Keller, que joga pelo clube alemão Borussia
Monchengladbach, disse que muitos dos insultos visam irritar e
desestabilizar os jogadores adversários. "Você tem que aceitar que vai
acontecer", ele disse. "A verdade é que vai acontecer comigo."

Mas, ele acrescentou, os insultos racistas são "uma questão para Onyewu e DaMarcus, que experimentaram tais situações. É difícil para mim falar com companheiros afro-americanos sobre um problema racial, mas se alguém passou por isto, eu posso dizer: 'Ei, não esquenta, cara. Jogue seu jogo e o use como sinal de orgulho. Vá lá e marque três gols. Seja como Jesse Owens. Isto funcionará melhor do que qualquer coisa'". George El Khouri Andolfato

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