Nesta guerra mundial, a morte de um terrorista não é decisiva

Chuck Raasch
Em Washington

No filme "O Resgate do Soldado Ryan", sobre o dia D da Segunda Guerra Mundial, o soldado Jackson, atirador que cita as Escrituras, acredita que pode terminar a guerra na Europa sozinho.

"Se você me colocasse com esse rifle em qualquer ponto em um raio de até 1,6 km de Adolf Hitler... com uma linha de visão livre --bem, vocês poderiam empacotar suas malas. A guerra acabava", Jackson diz com o jeito orgulhoso associado aos soldados comuns da "Grande Geração".

Derrube a cabeça, e a besta --o nazismo-- morrerá.

No caso da Alemanha nazista, isso talvez fosse verdade.

Matar Hitler, que aterrorizou o continente e provocou uma guerra mundial, talvez não colocasse fim à guerra na Europa tão rapidamente quanto Jackson gostaria. Mas é quase certo que aceleraria o que começou a parecer inevitável em 1944, quando os nazistas bateram em retirada da França, Bélgica e Holanda. O fato de um único soldado acreditar que poderia ter tal impacto distingue a guerra mundial daquela geração da atual.

Havia vitórias claras na Segunda Guerra. Havia um caminho claro de volta para casa.

Não há tal clareza na sombra da guerra contra o terrorismo. A besta tem cabeça de hidra. A Al Qaeda é, nas palavras do secretário de defesa Donald Rumsfeld, uma "rede de redes". Tem cabeças e alguns agentes especialmente adeptos em matar inocentes, mas não ditadores. Há células de insurgentes a serem extirpadas, mas não exércitos a serem destruídos. Há uma ideologia --construída, como o nazismo, em torno de uma estirpe violenta de fundamentalismo e intolerância-- mas não há Estado para patrociná-la.

Mas não se engane --esta é uma guerra mundial tão conseqüente quanto a derrota da Alemanha nazista e do Japão imperial. Se você não acreditava nisso antes da última semana, os eventos em torno do mundo devem ter acabado com suas dúvidas.

Esses dois eventos aconteceram em torno da notícia da morte do terrorista Abu Musab Al Zarqawi:

- O rompimento de um plano terrorista no Canadá, onde pessoas sem laços diretos com a Al Qaeda estavam planejando explodir prédios do governo e capturar e decapitar o primeiro-ministro.

- O crescimento de milícias islâmicas fundamentalistas na Somália, que pode ser um novo campo de exportação de terroristas. A Somália é a fronteira africana sem lei, tornada infame pelo livro "Falcão Negro em Perigo", relato da emboscada brutal de soldados americanos em Mogadício.

Não se engane, a notícia de que Al Zarqawi foi morto por duas bombas de 260 kg foi importante e é o primeiro grande anúncio militar desde a captura de Saddam Hussein. Tirar este homem da raça humana foi uma vitória para a humanidade. Seus feitos terrenos incluíram a morte de inocentes que celebravam um casamento na Jordânia e a decapitação de reféns impotentes. Ele anunciou essas decapitações na Internet para aumentar o desejo de sangue de outros fiéis.

Críticos gostam de ridicularizar o presidente Bush por chamar essas pessoas de "malfeitores", mas o rótulo parece especialmente adequado a Al Zarqawi.

Ainda assim, diferentemente da Segunda Guerra, quando membros das forças aéreas aliadas escreviam mensagens pessoais a Hitler em suas bombas, é tolice personalizar a vitória e a derrota em uma guerra de ideologias. Bush aprendeu isso pouco após os ataques terroristas de 11 de setembro, quando disse que queria Osama Bin Laden "morto ou vivo".

Matar pessoas como Zarqawi --e até matar ou capturar Osama Bin Laden-- provavelmente não vai por fim ao choque entre a civilização e um sistema de crença que Rumsfeld descreveu como "sombrio, sádico e medieval". Desde pouco depois de 11 de setembro que Bush minimiza a importância de Bin Laden ou outras figuras da Al Qaeda. Então, quando são capturadas ou mortas, o impacto político em casa é diminuído.

Esta é uma guerra de informações, propaganda, doutrina e ações em campo e fora dele. Não pode ser decidida por duas bombas ou um tiro. Esta é uma guerra mundial tão conseqüente quanto a derrota da Alemanha nazista e do Japão imperial. Se você não acreditava nisso antes da última semana, os eventos em torno do mundo devem ter acabado com suas dúvidas Deborah Weinberg

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