Adolescentes toxicômanos usam mais remédios controlados para se drogarem

Donna Leinwand

Quando um adolescente no escritório de Jan Sigerson mencionou uma "pharm party", em fevereiro último, Sigerson pensou que o jovem estava se referindo a uma festa rural (em inglês, a pronúncia da palavra "farm", que quer dizer fazenda, é semelhante a "pharm", que é a abreviatura de produtos farmacêuticos ou de farmácia).

Mas ele descobriu que "pharm" era a abreviatura de produtos farmacêuticos como os poderosos analgésicos Vicodin e OxyContin. Sigerson, diretora do Journeys, um programa de tratamento de adolescentes dependentes de droga em Omaha, logo descobriu que os jovens da área estavam organizando festas nas quais se fazia uso em grande quantidade de remédios vendidos com receita médica. De acordo com Sigerson, desde fevereiro, vários outros jovens que participam do Journeys mencionaram ter freqüentado as "pharm parties" (algo como "festas movidas a comprimidos").

"Quando começamos a identificar um padrão, sabemos que este está se tornando bastante disseminado", diz ela. "Acredito que a situação piorará, antes que haja uma melhora".

Conselheiros antidrogas de todos os Estados Unidos estão começando a ouvir falar de festas similares movidas a pílulas, que são parte de uma cultura underground que cresce rapidamente, marcada pelo aumento do uso abusivo de medicamentos vendidos com prescrição médica por parte de adolescentes e adultos jovens.

É uma cultura que possui as suas próprias terminologias: tigelas e sacolas de pílulas diversas são, com freqüência, chamadas de "mix trails", e, nos sites de bate-papo na Internet, o ato de colecionar pílulas da caixa de remédios da família é chamado de "pharming".

Carol Falkowski, diretora de pesquisas de comunicação da Fundação Hazelden, afirma que os jovens que usam abusivamente esses remédios também começaram a utilizar a Internet para compartilhar "receitas" para ficarem drogados. Segundo ela, alguns sites são tão simplistas que se referem às pílulas pela cor, e não por seus nomes, marcas, fórmula ou potência.

Segundo Falkowski, isso poderia explicar por que as salas de emergência estão relatando que adolescentes e adultos jovens têm cada vez mais dado entrada nos hospitais devido a overdoses de combinações bizarras e potencialmente letais de pílulas.

As overdoses com medicações vendidas sob prescrição médica responderam por cerca de um quarto dos cerca de 1,3 milhão de casos relacionados a drogas atendidos nas salas de emergência em 2004, segundo anunciou no mês passado o órgão federal Administração de Serviços sobre Saúde Mental e Abuso de Substâncias.

O uso abusivo de medicações, tanto as vendidas mediante apresentação de receita médica quanto aquelas que estão disponíveis nas prateleiras dos supermercados norte-americanos - um fenômeno que não chamava muita atenção nas pesquisas sobre drogas há uma década -, está aumentado segundo um ritmo que Falkowski e outros analistas definem como alarmante.

Em uma pesquisa de 2005, feita pela organização Parceria por Uma América Livre das Drogas, 19% dos adolescentes norte-americanos - aproximadamente 4,5 milhões de jovens - relataram ter tomado analgésicos vendidos mediante apresentação de receita médica, como o Vicodin e o OxyContin, ou estimulantes como o Ritalin, da Aderall, para se drogarem.

O Vicodin tem sido particularmente popular nos últimos anos. Um estudo realizado pela Universidade de Michigan em 2005 revelou que quase 10% dos alunos do último ano da escola secundária usaram o remédio no ano anterior. Cerca de 5,5% afirmaram ter usado o OxyContin. Ambas as drogas são mais populares entre os alunos do último ano do segundo grau do que o ecstasy ou a cocaína.

Mas a maconha ainda é de longe a droga mais popular. Cerca de um terço dos alunos do último ano da escola secundária entrevistados disseram ter usado esta droga no ano anterior.

Socialmente mais aceitáveis

Falkowski, cuja fundação é um centro de tratamento com sede em Center City, no Estado de Minnesota, diz que as pílulas vendidas com receita médica se tornaram populares entre os jovens porque são fáceis de obter e representam uma maneira socialmente mais aceitável de se drogar do que as drogas de rua.

Segundo ela, alguns jovens estão se automedicando para curar depressões ou ansiedades não diagnosticadas por um profissional, enquanto outros têm usado estimulantes para tentar obter uma vantagem nas provas e estudos.

Falkowski afirma que esses medicamentos são alteradores familiares do humor para uma geração que cresceu no período em que aumentaram as prescrições de receitas médicas para a aquisição de Ritalin e outros estimulantes para o tratamento de males como a desordem do déficit de atenção.

"Cinco milhões de adolescentes tomam medicamentos controlados diariamente para desordens de comportamento", diz Falkowski. "Não é incomum que estes jovens compartilhem pílulas com os amigos. Houve incidentes nos quais jovens trouxeram uma sacola Ziploc cheia de pílulas para a escola e as distribuíram a outros alunos".

"As pharm parties são simplesmente um compartilhamento generalizado de todas as pílulas disponíveis a fim de se obter diversão nas noites de sábado. Esses jovens não pensam nas conseqüências", diz ela.

Lisa Cappiello, 39, do Brooklyn, em Nova York, diz que este parecia ser o caso com o seu filho, Eddie. Ela conta que soube que o garoto experimentou maconha aos 15 anos, e que levava cervejas escondidas para a escola.

Mas foi só depois que ele se formou no curso secundário e passou um ano desocupado, antes da faculdade, que ela descobriu a dimensão do problema do filho com as drogas - e a predileção do rapaz pelos remédios vendidos com prescrição médica.

"Em um período curtíssimo, ele passou da maconha e de uma cerveja ocasional para a ingestão de tantos Xanax que, um dia, o meu marido teve que carregá-lo quando ele dormiu em uma esquina enquanto aguardava alguns amigos", conta a mãe. "Ele escondeu muito bem de mim o seu problema com as drogas".

No dia seguinte, Eddie Cappiello confessou aos pais que tomou 15 comprimidos de Xanax, um nome comercial de benzodiazepínico que atua com sedativo. Ele disse aos pais que o Xanax o ajudava a lidar com a ansiedade e a depressão.

Eddie rejeitou ajuda profissional, e prometeu parar de tomar comprimidos, conta a sua mãe. Ela diz que o rapaz não tomou nada durante dez meses, até ser hospitalizado, em julho de 2005, por uma overdose de comprimidos.

Dois meses depois, Eddie ingressou em um programa de tratamento de 28 dias de duração. Após receber alta, ele não tomou mais drogas por dois meses - e a seguir mergulhou em frenesis de final de semana, tomando entre 40 e 50 pílulas com cerca de um litro de Jack Daniels, às vezes sozinho, outras vezes com amigos.

Eddie Cappiello, 22, morreu na sua cama em 17 de fevereiro último, após tomar uma overdose de uma mistura de remédios. Ele deixou uma namorada e dois filhos pequenos.

De acordo com a sua mãe, o resultado de um exame toxicológico revelou que ele tomou 134 miligramas de Xanax - o equivalente a 67 comprimidos -, além de um derivado do ópio.

"Quatro anos antes disso, eu sequer ouvira a palavra Xanax", lamenta Lisa Cappiello. "Agora conheço adolescentes de até 12 anos que estão tomando esta droga. Depois descobri que o Vicodin é uma grande droga usada nas festas. Antes da escola, depois da escola, nas festas. Os jovens misturam esses comprimidos com álcool e ecstasy. Para mim, foi uma descoberta desnorteante".

Cappiello diz que os políticos, os professores e os pais têm tanta fixação nas drogas de rua, como a maconha, a cocaína e o ecstasy, que estão deixando de enxergar o início de uma outra epidemia.

"Eddie não foi o primeiro garoto deste bairro a morrer devido ao uso de remédios vendidos com receita médica", diz ela.

'Tendência preocupante'

Nos últimos meses, autoridades federais que combatem o uso das drogas
admitiram que não previram o crescimento rápido do uso abusivo dos remédios vendidos sob prescrição médica. A maior parte dos programas de prevenção de drogas patrocinados pelo governo se concentra na maconha, no tabaco, no álcool e nas meta-anfetaminas.

"Fomos pegos de surpresa quando começamos a nos deparar com numerosos casos de uso abusivo das drogas vendidas sob prescrição médica", diz Nora Volkow, diretora do Instituto Nacional de Abuso de Drogas (Nida, na sigla em inglês), que está coletando informações sobre como os adolescentes vêem, obtêm e usam esses medicamentos, de forma que a instituição possa tentar promover uma campanha efetiva de prevenção.

Em um boletim no ano passado, o Nida chamou o aumento dos casos de uso
abusivo de medicamentos entre adolescentes de "perturbador", e disse que as "festas de comprimidos" são uma "tendência preocupante".

A disponibilidade cada vez maior de medicações vendidas sob prescrição
médica é um grande motivo para o aumento do uso abusivo dessas substâncias, afirmam Volkow e outros especialistas em drogas.

A produção por parte das companhias farmacêuticas de duas substâncias
vendidas apenas com receita médica - o hydrocodone e o oxycodone,
ingredientes ativos de medicamentos como o Vicodin e o OxyContin - aumentou dramaticamente, à medida que a popularidade desses remédios para usos legítimos cresceu. As companhias farmacêuticas produziram 29 milhões de doses de oxycodone em 2004, contra 15 milhões quatro anos antes. As doses de hydrocodone aumentaram de 14 milhões em 2000 para 24 milhões em 2004.

A pesquisa de 2005 da Partnership revelou que mais de três entre cada cinco adolescentes conseguem receitas médicas para a venda de analgésicos nos armários de remédios dos seus pais. E, conforme diz Falkowski, o número crescente de jovens tratados com estimulantes tornou mais fácil para os adolescentes usar tais drogas de maneira ilícita. Cerca de 3% dos adolescentes são tratados com um estimulante como o Adderall e o Ritalin, contra menos de 1% em 1987.

Quase todos os 13 jovens que participam do programa de tratamento intensivo da Phoenix House da região de Upper West Side, na cidade de Nova York, utilizaram drogas vendidas mediante apresentação de receita médica, afirma a diretora Tessa Vining.

"É evidente que o acesso a essas drogas é fácil", diz ela. "Talvez um pai tenha passado por uma cirurgia e tomado um ou dois comprimidos de analgésico de um frasco de dez comprimidos, e o restante ficou simplesmente armazenado no armário de remédios".

Depois que o seu filho morreu, Cappiello diz que ficou curiosa por saber onde os jovens da sua área estavam obtendo os comprimidos. Ela disse que um traficante local obtinha Xanax com a mãe, que recebeu uma receita para adquirir a medicação. Em vez de tomar os comprimidos, ela os repassou ao filho, que vendia cada um deles por US$ 2 ou US$ 3.

Paul Michaud, 18, de Boston, diz que experimentou pela primeira vez os
comprimidos de OxyContin - ele os chama de OCs - por meio de um amigo,
durante o seu primeiro ano da escola secundária.

Michaud diz que, até então, fumava maconha diariamente, e tomava pílulas de Percocet ocasionalmente. O pai de Michaud morreu recentemente de câncer, e o jovem diz que ficou deprimido e que se sentiu um forasteiro na escola. Ele se lembra de que o analgésico o fazia sentir que nada poderia intimidá-lo.

"Na primeira vez que experimentei, fui fisgado pela droga", conta Michaud, que está há quatro anos em um programa de tratamento antidroga na Phoenix House de Springfield, no Estado de Massachusetts. Ele afirma que rapidamente se transformou em um usuário diário do OxyContin, rompendo cápsulas, triturando comprimidos e aspirando o pó de cinco comprimidos de 80 miligramas por dia.

"Esse remédio não é muito difícil de ser obtido. Eu o encontrava mais
facilmente do que a maconha", diz Michaud. "Muita gente o vendia, incluindo alguns traficantes que conseguiam os comprimidos ilicitamente por encomenda postal".

Reduzindo a oferta

A fim de tentar reduzir a oferta de remédios controlados no mercado negro, as autoridades fecharam várias "unidades de prescrição" - nas quais os médicos prescrevem quantidades não contabilizadas de narcóticos - assim como farmácias da Internet que despacham drogas com poucas consultas médicas, afirma Chatherine Harnett, chefe do departamento de redução de oferta da Agência de Combate às Drogas dos Estados Unidos (DEA, na sigla em inglês).

Em setembro do ano passado, agentes da DEA prenderam 18 pessoas que seriam responsáveis por 4.600 dessas farmácias.

Segundo Harnett, uma parte complicada do problema dos remédios vendidos com receita médica é abordar a idéia que prevalece entre os adolescentes de que os comprimidos são seguros porque são "remédios". Segundo ela, muitos adolescentes não vêem a ingestão dessas pílulas como alto tão degradante quanto o uso de drogas como a heroína ou a cocaína.

"Se alguém começa pelos comprimidos, para os jovens isso parece algo
bastante legítimo e higiênico", diz ela. "Fez-se com que os jovens
acreditassem que os bons remédios podem ser usados de forma recreativa".

Dois dentre cada cinco adolescentes ouvidos durante o estudo da Partnership disseram que os remédios, mesmo quando não são receitados por um médico, são "bem mais seguros" do que as drogas ilegais.

Muito pelo que viver

Phil Bauer, de York, no Estado da Pensilvânia, acredita que seu filho, Mark, 18, um levantador de pesos entusiasmado, começou a usar medicamentos controlados para aliviar a dor crônica na coluna, não tendo avaliado os riscos potenciais do uso dessas drogas.

Bauer conta que o seu filho nunca se comportou da forma que ele acreditava ser típica de um viciado em drogas. "Ele não ficava na rua a noite toda, porque tinha pais que não deixavam que ficasse largado desse jeito".

Mark Bauer morreu de overdose em 28 de maio de 2004. O exame toxicológico revelou que havia morfina, oxycodone e acetaminofen - o ingrediente ativo do Tylenol, mas também um componente do Vicodin - no seu organismo.

"Antes da morte do meu filho, nós não víamos nele um rapaz de olhos
vidrados. Ele não balbuciava as palavras", diz o pai. "Ele parecia ter muito pelo que viver. Eu não sabia que o uso abusivo de remédios vendidos com receita médica era um problema. Me sinto muito culpado por isso. Não sei se enfiei a cabeça na terra como uma avestruz. Não vi o problema vindo".

Michaud diz que não vê o seu vício em OxyContin como algo tão grave quanto o uso das drogas pesadas. "No lugar de onde vim, o OC é uma droga de garotos ricos", diz ele. "Eu achava que o uso de heroína era algo muito degradante. Nunca enfiei uma agulha no meu braço".

No entanto, Michaud conta que acabou migrando para a heroína. "Dei uma
cheirada e, uma semana depois, estava usando a droga para valer", conta ele. "Eu achava que não era como as outras pessoas que usavam a heroína. Eu não era tão sórdido. Mas acabei descobrindo que todos os caminhos conduzem ao mesmo lugar". Danilo Fonseca

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