Preparativos para furacões aquecem as vendas

Paul Davidson

A temporada de furacões mal começou, mas já está gerando uma tempestade de vendas.

A trepidação em massa após o temporal recorde do ano passado vem levando às alturas as vendas de telefones via satélite, geradores, serviços de back-up de dados e refeições prontas. Os meses de compras frenéticas estão até gerando uma falta localizada de itens específicos, como protetores de janelas.

A tempestade tropical Alberto, que atingiu o Norte da Flórida na terça-feira (13/6) serviu para alimentar o frenesi. Consumidores aflitos estocaram baterias e água, apesar da previsão nunca ter sido do Alberto tornar-se uma grande tempestade.

"Historicamente, as pessoas compram quando estão em pânico, mas neste ano a compra está sendo mais preventiva", antes da temporada de furacões começar, disse Craig Van Wagner, presidente da Gmpcs, fornecedora de telefones via satélite.

A movimentação vem sendo gerada por empresas e alguns consumidores, especialmente nas costa do Leste e do Golfo, que estão fazendo preparativos de furacão com mais sobriedade depois de duas temporadas impiedosas.

Por exemplo, a S&H Solutions em Delray Beach, Flórida, que fornece serviços a mercearias e outras lojas, está contratando pontos para armazenar dados redundantes em Miami e Atlanta, onde também abriu um segundo escritório para permanecer funcionando em caso de outro desastre na costa. Ela comprou um sistema de telefone que usa a Internet, da TelCove, imune a panes em redes locais e está alugando dois telefones via satélite. Custo total: cerca de US$ 20.000 (em torno de R$ 46.000) por mês -o que não é trocado para uma empresa de 80 funcionários.

Mas a S&H não está hesitando. Depois que o furacão Wilma arrancou partes do telhado no ano passado, seu prédio foi inundado e condenado. Durante dias a empresa não pôde acessar seus dados de folha de pagamentos, e-mail e marketing. Durante semanas não teve escritório nem serviço telefônico.

"Não quero nunca mais ter que lidar com uma situação como a do ano passado novamente", diz Steve Ritacco, diretor de tecnologia da S&H. O gasto extra de US$ 240.000 (aproximadamente R$ 550.000) por ano, diz ele, é pequeno se comparado com milhares de dólares que o Wilma custou à empresa em perda de produtividade.

Quem fica na linha de frente está mais vigilante. As empresas fornecedoras de serviços públicos estão reforçando suas redes. Mercearias e postos de gasolina estão comprando geradores. Companhias de petróleo estão elevando equipamentos críticos para ficarem fora do alcance das águas de enchentes.

Milhares de empresas, desde firmas de advocacia até corretoras, estão tomando medidas nervosas. Uma grande corretora de Nova York, preocupada com a possibilidade de uma tsunami atingir a Costa Leste, achou que seu centro de dados a 55 km da costa não estava longe o suficiente. Está movendo sua operação mais 65 km para o interior, diz Bob Bauer, vice-presidente da Emerson, fornecedora de rede da firma.

Em Nova Orleans, a fabricante de esteiras rolantes Laitram alugou um escritório de 4.000 metros quadrados no subúrbio de Dallas e reservou quartos de hotel para funcionários em caso de necessidade.

Consumidores, enquanto isso, aproveitaram as liquidações de 12 dias na Flórida de itens como lanternas, isopores e lonas.

"Estamos vendo um nível de preparativos que nunca houve", disse Jonathan Bernstein, presidente da firma de consultoria Bernstein Crisis Management.

O ano passado teve um recorde de 27 tempestades tropicais e furacões, depois de um duro 2004. A previsão deste ano é de até 16 tempestades tropicais, sendo oito furacões.

A maior parte das empresas, segundo os especialistas, continua totalmente despreparada para desastres naturais. Muitas grandes empresas têm planos de contingência para furacões que incluem detalhes de segurança dos imóveis, cópias de dados e números de contato de emergência de funcionários. Mas freqüentemente essas iniciativas não têm grande serventia porque poucas firmas atualizam os dados ou fazem treinamentos, diz Jim Green, da Business Risk Solutions.

Diretores executivos são avessos a investir muito em preparativos para desastres, diz Bernstein, porque vêem pouco retorno. "Eles assumem uma estratégia de avestruz", diz ele. "É a mesma razão porque as pessoas não fazem mamografias e colonoscopias."

Mas "cada US$ 1 investido em preparativos para a crise evita US$ 7 em perdas."

Apesar das falhas, o número de empresas que estão se dedicando a planos de resposta a furacões dobrou neste ano, estimou Bernstein. Desde a tragédia do ano passado, mais de 60% das grandes empresas fizeram novas avaliações em suas necessidades de energia alternativa e 75% separaram fundos para se prepararem para desastres, disse uma pesquisa de abril da Survey.com para Emerson.

Mantendo as luzes acesas

Como resultado, a venda de geradores deixou de ser sazonal e passou a acontecer o ano todo, disse Mike Carr, gerente da Generac. A receita da distribuidora Waukesha-Pearce, representante da Generac, aumentou 500% neste ano, disse o diretor de vendas Ken Welsh.

Por trás movimento estão empresas como os supermercados Publix. Suas lojas da Flórida tiveram que jogar fora quase US$ 100 milhões (em torno de R$ 230 milhões) em alimentos perecíveis nas duas últimas temporadas, quando seus geradores de emergência não foram capazes de manter os congeladores em funcionamento. Neste ano, a Publix está gastando US$ 100 milhões em 400 geradores para suas lojas mais vulneráveis na Flórida, Geórgia e Carolina do Sul. "Os clientes não querem ver prateleiras vazias", disse Maria Brous da Publix.

A Chevron está desembolsando quase US$ 2 milhões (em torno de R$ 4,6
milhões) para preparar 52 postos de gasolina no golfo com geradores, que planeja alugar por até US$ 4.500 (aproximadamente R$ 10.350) por semana. A falta de energia elétrica em postos de gasolina da região contribuiu para a escassez de gasolina do ano passado.

Empresas também estão se concentrando mais intensamente na recuperação em caso de desastre. Grandes corporações sempre fizeram back-up de dados, mas agora o fazem com mais freqüência. Além disso, muitas pequenas firmas estão montando centros separados pela primeira vez, disse a analista do IDC Laura DuBois.

As vendas do "pacote furacão" da IBM -que hospeda dados para pequenas empresas e permite que acessem seu e-mail pela Web por cerca de US$ 1.000 por mês- aumentaram 65% neste ano, disse Michael Riegel, que administra os serviços.

A Market Street Morgage de Clearwater, Flórida, investiu US$ 15.000 (cerca de R$ 34.500) e vai gastar cerca de US$ 5.000 (em torno de R$ 11.500) por ano em um sistema Nerverfail que replica seus dados em outro site. Previamente, a firma contava com cópias em fitas que demoravam horas ou dias para restaurarem o serviço. "Cada hora que ficamos caídos são milhões em perdas", diz Charlie Pelton, diretor de informações.

Um sistema similar foi comprado pela firma de advocacia de Nova Orleans Stone Pigman Walther Wittmann, que não conseguiu recuperar documentos atualizados depois do Katrina. "Você não quer ir para a corte sem dados sólidos", disse o diretor de tecnologia de informações da firma, Janine Sylvas.

Sistemas de comunicação via satélite também se tornaram necessidades para muitas empresas,depois que os furacões do ano passado afogaram milhões de linhas de telefone e provocaram falhas no serviço de telefonia celular. As vendas relacionadas a furacões aumentaram cinco vezes na Gmpcs, disse Van Wagner.

A estação de rádio de Nova Orleans, WWL, comprou um sistema de satélite de US$ 7.000 (em torno de R$ 16.000) para seu estúdio móvel, de forma a poder transmitir e receber chamadas dos ouvintes "em qualquer condição", disse o engenheiro Joe Pullet.

O Sun-Sentinel de Fort Lauderdale recentemente comprou várias dezenas de telefones via satélite, a maior parte para seus repórteres e fotógrafos. "Sabemos que as pessoas contam conosco para obter informações depois de um desastre", disse o porta-voz do jornal Kevin Courtney.

Bens mais básicos também estão em alta. A venda de refeições prontas dobrou neste ano, segundo o presidente da HeaterMeals Tim Zimmerman. As corporações estão fazendo estoques, mas os consumidores são os maiores motores do movimento. "Muitas pessoas no ano passado dependeram de agências do governo", diz ele. "Agora estão dizendo: 'vou me preparar'".

A Cingular Wireless comprou 12.000 refeições prontas para o caso de trabalhadores serem convocados para restaurar redes prejudicadas.

Dificuldade de encontrar proteções para janelas

A onda de compras está causando a falta de alguns itens. Enquanto os proprietários tentam proteger suas janelas, há atrasos de até 50 semanas para receber os instaladores de proteções de alumínio. A Home Depot "está fazendo encomendas a cada meia hora, todos os dias", disse Dave Zajac, presidente da Weather Guard Building Products, produtora de protetores de janelas. Algumas lojas ficaram sem, disse ele.

Algumas empresas estão reagindo à fila de serviços depois das tempestades do ano passado. A Simon Roofing está oferecendo serviço prioritário de atendimento após tempestades por um preço anual básico de US$ 550 (aproximadamente R$ 1.265).

Em Nova Orleans, o construtor Drew Herrington recentemente iniciou o programa Hurricane Guy, que fornece uma série de serviços aos moradores da cidade. Ele coloca protetores nas janelas, copia documentos importantes, faz reservas de hotel, planeja rotas de evacuação, tranca tudo antes da tempestade e até faz consultas a empresas de seguro. Tudo por US$ 5.000 (cerca de R$ 11.500) por ano antes da temporada. Herrington tem 25 clientes e recebe dois novos por semana.

"Ninguém até agora disse que é caro demais", disse Herrington. "É tranqüilidade."

Para as empresas que estão se entrincheirando para a temporada de furacões, os preparativos não são impulsos consumistas. Elas procuram reforçar sua infra-estrutura e preparar seus sistemas cruciais. Alguns exemplos:

- Empresas petrolíferas. O Katrina fechou as instalações que produziam 70% do petróleo do Golfo do México, e algumas continuam fechadas. A indústria está construindo plataformas de perfuração offshore 45% mais fortes, diz o Serviço de Administração de Minérios do governo. A Chevron está elevando a fiação em seus terminais de gasodutos para evitar enchentes e acrescentando proteções nas plataformas. As refinarias da Valero colocaram seus motores elétricos mais alto.

- Revendedoras. A Home Depot e a Lowe's estão estocando itens relacionados a furacões -como madeira, lanternas e janelas. A Home Depot adquiriu um sistema computadorizado para supervisionar entregas para áreas danificadas por furacões e um sistema que prevê a velocidade dos ventos de uma tempestade para que os materiais necessários sejam enviados para as áreas mais atingidas. "Somos os primeiros a fornecer produtos de emergência", diz Paul Raines, presidente da divisão. "Temos que ter uma resposta rápida."

- Serviços públicos. A Bellsouth, no ano passado, teve dificuldades para entrar em áreas restritas e consertar linhas telefônicas, especialmente em Nova Orleans, onde foi forçada a pedir autorização de dezenas de autoridades. Neste ano, a empresa está trabalhando com o governo federal para obter uma licença e conseguir maior acesso a diferentes áreas e restaurar serviços mais rapidamente, disse o vice-presidente Bill Smith.

Empresas de telefone sem fio estão reforçando suas redes. A Verizon Wireless está montando centros de conexão de telefones celulares e enviando caminhões de combustível para áreas propensas a furacões e construindo ligações de microondas que possam completar chamadas se as redes estiverem caídas.

Talvez a luz mais dura esteja voltada para a Florida Power & Light. A empresa foi maltratada por sete furacões em 15 meses, que derrubaram 25.000, ou 2% de seus postes. O Wilma interrompeu o fornecimento de energia para 3,2 milhões de clientes. A empresa foi criticada por comprar postes baratos e falhar nas inspeções.

Neste ano, a FP&L está avaliando todos seus 750.000 postes em áreas prejudicadas pelos furacões, acrescentando reforços e novos fios, onde necessário. Em áreas vitais, como hospitais, está reforçando os postes para que agüentem ventos de 240 km/h -o maior padrão usado até hoje- e podando árvores. Ela está estimulando as prefeituras a passarem os fios por debaixo da terra, oferecendo 25% dos custos.

"Nunca poderemos tornar nosso sistema à prova de furacões. Mas certamente esperamos menos casos de falta de energia", disse Mike Spoor, diretor de desempenho do sistema de distribuição da FP&L. Deborah Weinberg

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