A "chick lit" amadurece: o gênero confronta suas rugas

Carol Memmott

Querido diário: lembra-se de mim? Bidget Jones? Um bom tempo se passou, amor. Faz quase 10 anos, para ser exata, desde que me sentei para escrever nestas páginas. Quem imaginaria que meus devaneios íntimos iam gerar uma década de "chick lit" -contos leves sobre garotas de vinte ou trinta anos procurando perder peso, além do homem de seus sonhos e o trabalho perfeito?

"O Diário de Bridget Jones" de Helen Fielding, publicado no Reino Unido no outono de 1996, gerou um batalhão de Bridgets, em uma das maiores ondas na história editorial.

As mulheres pediram mais livros divertidos, romances leves sobre "solteironas", como Bridget, que estavam buscando o amor, satisfação e o par de sapatos perfeito.

Dez anos depois, a "chick lit" está aqui para ficar. Alguns dos livros estão indelevelmente registrados na cultura popular.

"O Diabo Veste Prada", romance de 2003 da veterana da Vogue Lauren Weisberger, descreve como é trabalhar para o chefão do inferno. O filme estréia no dia 30 de junho, com Anne Hathaway como assistente e Meryl Streep como a editora de moda estilo Anna Wintour.

O título mais bem vendido do gênero, "The Nanny Diaries" por Emma McLaughlin e Nicola Kraus, está sendo filmado com Scarlett Johansson no papel da babá contratada por uma esposa mimada em Park Avenue. E, é claro, "O Diário de Bridget Jones" e "Bridget Jones: No Limite da Razão" viraram filmes de sucesso com Renee Zellweger.

Apesar da aproximação de Hollywood, a "chick lit" foi criticada ultimamente, graças aos escândalos de plágio em torno de "How Opal Mehta Got Kissed, Got Wild, and Got a Life", da estudante de Harvard Kaavya Viswanathan. O romance da menina indo-americana e seus esforços cômicos para chegar a Harvard foi removido das prateleiras em maio, quando se descobriu que Viswanathan tinha tirado o material de outras autoras, inclusive Sophie Kinsella e Megan McCafferty.

Como qualquer gênero que gera uma enchente de imitadores, há literatura feminina boa e ruim, livros que vendem bem e os que desaparecem sem deixar marcas. Até o termo "chick lit" gerou uma reação, e alguns o consideram desrespeitoso e limitante.

Gostando ou não, a "chick lit" ainda tem público. Três títulos estão na lista dos mais vendidos do USA Today: "O Diabo Veste Prada" (número 3), "Goodnight Nobody", por Jennifer Weiner (número 35) e "The Undomestic Goddess" de Kinsella (número 46). E como os personagens cujos sonhos e esperanças são desmontados pelos livros, a "chick lit" está passando pelas dores de crescimento diante das cópias e desdobramentos, como a literatura de noivas, de mães e multicultural.

"A 'chick lit' está se provando surpreendentemente adaptável", diz Mallory Young que, com Suzanne Ferriss, editou "'Chick Lit': The New Woman's Fiction" ("Chick lit": a nova ficção da mulher). Em vez de receber clones de "Bridget Jones", estamos recebendo muitas versões diferentes."

Ao mesmo tempo, os editores concordam que o mercado está afogado em títulos sem qualidade ou originalidade. Alguns críticos e consumidores ainda fazem pouco do gênero, chamando-o de bobagem. E o mercado está saturado - algo que alguns editores chamam de "a maldição da capa rosa".

Observadores da indústria dizem que a fartura do gênero fez com que novos fãs procurassem romances provados, que se tornaram clássicos como "Nanny Diaries" (2002), "Bergdorf Blondes" de Plum Sykes (2004) e "O Diabo Veste Prada".

Alguns autores, inclusive Weiner, Kinsella e Marian Keyes, fizeram adaptações, substituindo personagens de 20 e poucos anos por mulheres de 30 ou 40 anos. Essas personagens mais velhas se casaram com o Sr. Ideal e estão tendo filhos ou pensando no assunto. (Veja a "Baby Proof" de Emily Giffin).

"Escrevi meus primeiros livros quando era solteira. Depois me casei e tive um filho, e coisas diferentes aconteceram na minha vida", disse Weiner, que também escreveu "Good in Bed", "Little Earthquakes" e "In Her Shoes", cujo filme no ano passado desapontou nas bilheterias, arrecadando US$ 32,9 milhões (em torno de R$ 75 milhões).

Títulos de "chick lit" tiveram que mudar junto com o público, diz Zan Farr, comprador da Borders. "Os títulos acompanharam (os leitores), mas também acho que os fãs da chick lit se mudaram para a ficção feminina regular."

Giffin e outros autores que escrevem sobre a maternidade talvez ganhem força com as celebridades de Hollywood, diz Sessalee Hensely, compradora da Barnes & Noble. "Muitos desdobramentos da chick lit não funcionaram particularmente bem", diz ela, referindo-se a subgêneros especializados como a literatura de noivas. "Mas agora, uma em cada três mulheres que vejo está grávida e tem menos de 25 anos, e todos os jovens em Hollywood estão tendo filhos."

Enquanto o gênero luta com sua identidade, muitos fãs, tais como Rian Montgomery, 28, de Nashua, New Hampshire, continuam fortemente leais. Quatro anos atrás Montgomery leu "Confessions of a Shopaholic" (confissões de uma viciada em lojas) de Kinsella, sobre as aventuras cômicas de uma jovem enquanto ela afunda em dívidas.

Montgomery apaixonou-se e leu em torno de 500 títulos do gênero desde então. Ela também criou um site da Web, chicklitbooks.com, com críticas de livros e entrevistas com autores. Ele recebe entre 4.000 a 5.000 visitantes por dia, diz ela. "Os livros são engraçados e, ao mesmo tempo, são verdadeiros", diz ela. "Os personagens passam por situações realistas, e eu gosto que eles sempre acabam se encontrando no final do livro."

A lealdade de Montgomery e de outros como ela traduziram-se em grandes vendas. "O Diário de Bridget Jones" vendeu mais de 2 milhões de cópias.
"Bridget Jones: o Limite da Razão", mais de 1,5 milhão. "O Diabo Veste Prada" vendeu mais de 1 milhão de cópias, e este número deve continuar crescendo com o lançamento do filme.

Mas o gênero também está cheio livros que alguns dizem nunca deveriam ter sido publicados. Culpe os editores gananciosos.

"Os editores acertaram em cheio", diz Liate Stehlik da Avon Books. "Como em qualquer ramo, quando algo faz sucesso, explode, e surgem milhões de coisas parecidas. Algumas são realmente boas e outras não." Stehlik compara a história do gênero à abundância de programas de realidade na televisão nos últimos anos.

Mas os leitores também estão buscando novas experiências "e não só cópias do que está funcionando", diz ele.

Exemplo: "Spooning" de Darri Stephens e Megan DeSales. A capa do livro recém publicado é cor de rosa, com uma ilustração de uma morena linda, cozinhando com uma roupa de ginástica sensual. "Spooning" tem todos os ingredientes clássicos, com uma pitada diferente: as jovens do romance formam um clube de cozinha.

"Este ângulo, da cozinha, não foi feito antes", diz Ann Campbell, editora sênior da Broadway Books. "Há receitas em cada capítulo, e as metáforas da comida servem para um marketing criativo."

Ao promover a idéia de que clubes de cozinha são os novos clubes de livros, a Broadway roubou um segmento do "Today" show.

Parte do gênero está tratando de questões mais difíceis, mais sombrias. Uma nova autora que está fazendo isso é Jennifer Solow, cujo romance "The Booster" foi publicado pela Atria com críticas positivas.

A principal personagem, Jillian Siegel, tem 29 anos, trabalha com propaganda e tem um relacionamento difícil com seu namorado. O que torna a personagem de Solow única, diz Greer Hendricks, editora da Atria, é que ela é viciada em roubar lojas. Ela tenta preencher um vazio emocional, apesar de sua família rica ser proprietária de uma loja de departamentos.

"Jennifer tem uma ótima voz", diz Hendricks. "Ela fez uma pesquisa incrível com viciados". E o livro "não é embrulhado em rosa e azul. Tem uma capa impressionante, ótima, com laranja e preto", diz ela.

Com capas pretas ou cor de rosa, os autores acreditam que o gênero tem um futuro viável porque as histórias e personagens refletem a sociedade. Nina Foxx, autora de "Just Short of Crazy" e pioneira da "chick lit" afro-americana: "As mulheres estão lidando com as mesmas questões que estão nos livros e tentando dar um sentido a suas vidas."

No fundo, o que importa é a qualidade do texto. "O gênero é sobre a voz, e se você tiver uma voz realmente nova e arrebatadora, pode contar uma história sobre uma moça solteira na cidade", diz Weiner. "É uma época tão interessante na vida de uma mulher. Sempre haverá interesse naquele momento em que todas as decisões ainda estão bem na sua frente."

'Fofo' contra 'divertido'

O rótulo "chick lit" tem fãs e detratores.

Jennifer Weiner, autora dos livros campeões de venda "Good in Bed" e "In Her Shoes" considera-o desrespeitoso e machista.

"É algo que diz que é coisa de mulherzinha, inconseqüente, fofa, sem importância nem qualidade literária", diz ela. "Por outro lado, ele não incomoda os leitores, e tenho que ter consciência disso."

Mas a autora da série "Shopaholic", Sophie Kinsella, que tem mais de 7 milhões de cópias impressas, diz que não se incomoda com o rótulo.

"Para mim, significa um livro divertido e leve, com uma heroína contemporânea com a qual as mulheres podem se identificar, freqüentemente abordando uma questão atual", diz ela. "Talvez eu preferisse a expressão 'comédia romântica'. Mas não posso ficar irritada com isso. Não me prejudica de forma alguma."

Elementos essenciais da "chick lit"

- A heroína está procurando o homem certo ou se recuperando do homem errado

- Ela tem um emprego sem perspectivas ou está tentando subir na carreira

- Ela freqüentemente trabalha com relações públicas, propaganda ou em uma revista feminina

- O tom é freqüentemente leve e divertido

- A história em geral é contada na primeira pessoa

- No final, em geral a heroína resolveu todos seus problemas e aprendeu lições importantes sobre a vida. Deborah Weinberg

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