Celebridades ativistas usam a força do estrelato para bons fins

Donna Freydkin
em Nova York

Aonde vai Bono, as câmeras o seguem.

O mesmo se aplica à Angelina Jolie e Oprah Winfrey. E os três astros estabeleceram um exemplo no que toca o ativismo de celebridade. Bono foi uma figura crucial na conscientização mundial para a pobreza e epidemia de Aids, com sua campanha ONE, que atraiu estrelas como George Clooney, Matt Damon e Brad Pitt.

Depois do cepticismo inicial, os políticos -desde a líder da minoria na Câmara Nancy Pelosi, da Califórnia, até o senador Rick Santorum, republicano de Pensilvânia- agora falam poeticamente sobre o cantor do U2, elogiando sua profunda compreensão das questões. Seu trabalho humanitário levou-o a ser reconhecido pela Time como uma das pessoas do ano de 2005.

Graças a seu trabalho como embaixadora da boa-vontade do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados, Jolie conseguiu se livrar dos tablóides em seu romance com Pitt. A atriz doa um terço de sua renda a obras de caridade e arca com os custos de suas viagens em missões da ONU. Ela selou o acordo anunciando que o casal doaria milhões obtidos com a venda das fotos globalmente divulgadas de sua filha recém nascida, Shiloh, a várias obras de caridade ainda não especificadas.

Quanto à Winfrey, ela doou para a caridade US$ 51,8 milhões (em torno de R$ 120 milhões) no ano passado, de acordo com The Chronicle of Philantropy, e é a única celebridade na lista de principais doadores.

Cada vez mais, celebridades de todos os tipos vêem-se sob pressão para colocarem sua fama em benefício de um propósito mais elevado. Com os exemplos de alto perfil estabelecidos por Jolie e Bono, um dia talvez pegue mal um astro não abraçar alguma causa. A noção, afinal, é que as celebridades devem canalizar parte de sua prosperidade e proeminência para tornarem o mundo melhor.

"É quase esperado que uma celebridade tenha uma causa. Cada vez mais celebridades estão fazendo isso, então se torna uma expectativa, da mesma forma que se espera das corporações que tenham consciência social. Ainda não chegamos ao ponto de menosprezar quem não faz isso, mas estamos caminhando nessa direção", diz Alan Abramson, diretor de estudos sem fins lucrativos e filantropia do Instituto Aspen, de pesquisa e advocacia.

Os astros, até certo ponto, realmente são como nós. Alguns se envolvem por razões pessoais, como Michael J. Fox, que abriu uma fundação de pesquisa de Parkinson depois de anunciar, há oito anos, que sofria da doença. Em outros casos, é a organização humanitária que procura um VIP para ser seu porta-voz (e algumas vezes paga para que apareçam em jantares). Algumas celebridades dão dinheiro. E outras não fazem nada.

Uma situação em que todos os lados ganham

As causas das celebridades são variadas (Aids, África e meio-ambiente são as mais quentes atualmente) assim como o nível de compromisso de cada uma.

Clooney e a atriz Ashley Judd estão entre os que dedicam grandes quantidades de tempo e dinheiro a suas causas -a erradicação da pobreza e a educação em Aids, respectivamente. O meio-ambiente atraiu pessoas como Woody Harrelson, Josh Lucas e Leonardo DiCaprio. Outros conhecidos por seu trabalho de caridade são Sarah Jessica Parker (Unicef), Scarlett Johansson (USA Harvest, que dá alimentos para os necessitados) e Robin Williams (Médicos sem Fronteiras).

Eles seguem o exemplo estabelecido décadas atrás pela falecida Audrey Hepburn, que fez campanha pela Unicef; o falecido Bob Hope, que entreteve incansavelmente as tropas com a USO; Jerry Lewis, cuja maratona televisiva para angariar fundos para a Associação da Distrofia Muscular está em seu 40º ano; e Elizabeth Taylor, uma das primeiras estrelas a falar sobre a Aids.

Um pouco de caridade pode ir longe

"É uma situação em que tanto as celebridades quanto as obras de caridade saem ganhando", diz Abramson. "As organizações obviamente recebem atenção e ajuda, com a publicidade de sua causa". E os famosos "parecem ter mais substância e passam a impressão de serem boas pessoas, que estão doando seu tempo e dinheiro para causas nobres."

Para Winfrey, o caminho é evidente: "Muito se espera de quem recebe muito", diz a senhora da mídia, 235º lugar na lista da Forbes dos 400 americanos mais ricos. "Você não pode viver no mundo, ter todos os benefícios do mundo e não dar de volta. Vai contra a lei da física. Se você não der de volta, então o que você tem será diminuído."

Ser ativista tem seus privilégios. Dá à pessoa uma verniz de classe.
Discursar para empresários em Davos, Suíça, no Fórum Econômico Mundial, como Jolie faz, "Dá as pessoas uma nova forma de ver você. É uma forma de se levantar e chamar a atenção de outros tipos de pessoas que não lêem revistas de entretenimento", diz Stacy Palmer, editora do Chronicle of Philantropy.

Alguns cépticos questionam os motivos dos astros quando sobem no trem da benevolência.

"Será que colocam dinheiro no que dizem?" pergunta Daniel Borochoff, presidente do Instituto Americano de Filantropia. "Algumas vezes não fazem isso. Apenas querem os benefícios do reconhecimento. As pessoas vão ver filmes estrelados por atores que apreciam, e o fato de acharem que têm fortes convicções pode ajudar."

Nem sempre é como parece

E, diz Abramson, o dinheiro algumas vezes muda de mãos.

"O que preocupa é quando algumas dessas pessoas recebem por seu trabalho de caridade", diz ele. "Pode haver um honorário, ou uma quantia decente de dinheiro para fazê-los participar de algo, para cobrir seus gastos. Nem todos essas pessoas estão usando dinheiro próprio."

Mas, rebate Robin Bronk, da Coalizão Criativa, grupo sem fins lucrativos que faz as parcerias de atores com causas, a maior parte dos ativismos é verdadeira. "Isto é trabalho duro. Dá muito trabalho ser ativista. Você tem que fazer dever de casa, tem que tirar tempo de sua agenda e de sua vida pessoal para promover uma questão. Não posso imaginar ninguém fazendo isso por glória própria."

Os que fazem seu dever de casa e mantêm-se em um programa por longo prazo, diz Palmer, "podem ser contados em uma mão. A atenção de muitas celebridades é realmente curta. Mas veja George Clooney -ele participa do conselho da United Way, está muito envolvido, e é uma das obras mais sérias que há."

Escolher um assunto pelo qual você se interessa é chave, disse Harrelson, que luta pela Cannabis e o meio ambiente, dirige um carro movido a biodiesel, segue uma dieta vegetariana e usa energia solar em sua casa. "Se você está constantemente na mídia, falando disso ou daquilo, em certa altura as pessoas não dão mais importância", diz ele.

Questões políticas podem ser território perigoso

"Estranhamente, defender uma causa liberal pode minar você, sua carreira e suas idéias. As pessoas automaticamente pensam que é bobagem de Hollywood", diz Lucas, que promove a alternativa limpa de biodiesel aos combustíveis baseados no petróleo. "O biodiesel não faz ninguém se assustar, que é tão comum com certas causas"

Susan Sarandon, que foi criticada por suas declarações contra a guerra, fez o sinal da paz no Oscar de 2003, no mesmo ano em que Michael Moore recebeu aplausos e vaias por chamar o presidente Bush de "fictício", quando recebeu o prêmio. Jane Fonda nunca se recobrou verdadeiramente de sua viagem a Hanói, durante a guerra do Vietnã, em que posou com a artilharia antiaérea.

Sean Penn foi ridicularizado por sua visita de 2003 ao Iraque, sobre a qual escreveu no San Francisco Chronicle e seu esforço solitário de ajudar as vítimas do furacão Katrina no verão passado.

E algumas causas, mesmo não sendo abertamente políticas, às vezes são difíceis de defender. A violência doméstica está entre as "um pouco difíceis", diz Abramson.

Isso não deteve a atriz Salma Hayek, que vem falando sobre o abuso há anos, até testemunhando para o Congresso em julho.

"Não venho de uma família com violência doméstica. Nunca passei por isso. Mas sou muito, muito apaixonada pela questão", diz ela. "É um grande problema, e ninguém fala a respeito. É um trabalho que precisa ser feito.Sinto muita frustração. É muito difícil fazer mudanças na cultura, na consciência social."

Natalie Portman pegou um assunto ainda mais difícil: a Fundação de Assistência da Comunidade Internacional (Finca), uma organização que, diz ela "abre serviços bancários aos pobres" e permite que as mulheres "alimentem seus filhos, eduquem seus filhos, mediquem seus filhos. É uma grande forma de compartilhar oportunidades." Sua voz se enche de fervor quando fala de seu trabalho como embaixadora global do grupo.

Se uma causa é impenetrável demais, ou os resultados concretos são difíceis, diz Palmer, os astros podem perder o interesse. "Quando você lida com a pobreza, talvez não veja muitos sucessos, então o trabalho se torna frustrante depois de certo ponto. Você passa um longo tempo tentando fazer alguma coisa", diz ela.

O desastre pode ser um ímpeto

O furacão Katrina, nada surpreendentemente, foi um despertar para muitos.

Harry Connick Jr. envolveu-se nos esforços de reconstrução da Habitat for Humanity em Nova Orleans, porque é sua terra natal. "Nasci e fui criado lá. Senti-me compelido."

O mesmo aconteceu com Johansson. Depois do Katrina, ela quis ajudar, e um amigo indicou-lhe o USA Harvest. Johansson envolveu-se com a organização há nove meses e ela mesma entrega pratos de comida na área devastada do Nono Bairro. "Essas são pessoas que estão trabalhando para reconstruir suas casas", diz ela. "Elas não têm meios de ter uma refeição quente."

Hayek foi influenciada pela feminista Eve Ensler depois de atuar em sua peça "O Monólogo da Vagina". Harrelson acordou para os problemas provocados pelo homem nos oceanos e vida marinha pelo seu colega em "Cheers", Ted Danson, que há muito faz campanha em prol do grupo ambiental Oceana.

Lucas foi criado por pais ambientalistas, que fizeram protestos contra bombas nucleares e interessavam-se por soluções sustentáveis muito antes disso ser moda. "Eles sempre disseram que o verdadeiro valor da fama é ser capaz de educar alguém sobre alguma coisa usando seu nome", diz Lucas.

No mundo do ativismo de celebridades, muitas estradas levam a Bono. Desde Harrelson até Lucas citam-no como exemplo de celebridade que usa a fama para fazer progredir causas valiosas. Judd tornou-se embaixadora da YouthAids em 2002, em nome de Bono, e desde então foi ao sudeste asiático e África para educar jovens sobre a doença. Ela chama Bono de "padrinho da consciência da pobreza global extrema".

Judd diz que o trabalho voluntário levou a uma drástica reorganização de suas prioridades. "Quando vou dormir à noite, sei que fiz algo conseqüente, algo que importa."

Então, se as compensações pessoais e profissionais do altruísmo são tão grandes, porque mais astros não se envolvem?

"Falta de interesse", diz Lucas. Deborah Weinberg

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