Super-Homem é um herói de sua época

Anthony Breznican

Quanto mais velho fica, mais jovem parece. Com uma nova encarnação esbelta do Homem de Aço chegando aos cinemas na terça-feira em "Superman - O Retorno", o novato Brandon Routh testará a teoria da "sobrevivência dos mais aptos".

Routh tem uma semelhança impressionante com o falecido astro do "Super-Homem" Christopher Reeve - eles têm quase a mesma altura (Reeve 1m92 e Routh 1m90) e tinham a mesma idade (26) quando começaram a encarnar o personagem. Mas a versão de Routh é mais solitária, menos confiante e fisicamente mais magra, parecendo mais um mestre de ioga do que um aficionado da musculação. Além disso, no filme ele tem outra fraqueza que transcende a kriptonita -seu romance perdido com Lois Lane.

Ele é um forte contraste às imagens antigas do Super-Homem parrudo e entusiasmado. Mas será que o público aceitará o herói invencível com um coração partido?

As perspectivas são boas. O filme teve boas críticas. Além disso, heróis complexos estão na moda, evidenciados pelo sucesso de "X-Men", "Homem Aranha" e "Batman Begins".

Especialistas em Super-Homem dizem que o personagem freqüentemente é um reflexo dos tempos. A evolução das histórias em quadrinho, programas de rádio, televisão e filmes acompanhou as mudanças culturais nos EUA.

"Assim como os deuses gregos representavam a sociedade, o Super-Homem é como o avatar dos EUA. É como queremos nos ver. É por isso que ele fica mais poderoso e por isso que fica mais belo. Ele se torna nosso próprio desejo de realização", diz Brad Meltzer, que escreveu a série "Identitiy Crisis" de histórias em quadrinho do Super-Homem, além do mais recente capítulo de "Justice League of America".

O Super-Homem de seu pai

Kirk Alyn, que encarnou o herói no cinema pela primeira vez nos anos 40, e George Reeves, que fez o Super-Homem na série de televisão dos anos 50, eram muito mais corpulentos e pareciam mais velhos.

Eles tinham 30 e muitos anos, o que os tornava menos parecidos com seus fãs adolescentes e mais como os pais dos fãs. "Os anos 50 reverenciaram o 'pai'.

Era a geração de 'papai sabe tudo'", diz Steven T. Seagle, que escreveu o romance gráfico de 2004 "It's a Bird..." sobre a dificuldade melancólica de um escriba em relacionar-se com o herói invulnerável. "Mas quando os EUA e Hollywood se tornaram mais obcecados com a juventude e passaram a desconfiar mais da autoridade, o Super-Homem refletiu a tendência."

Parte do apelo do Super-Homem era que possuía poderes incríveis apesar de parecer relativamente normal, disse Gary Grossman, autor de "Superman: Serial to Cereal", sobre as primeiras interpretações do personagem no cinema.

"Na contracapa de todas as histórias em quadrinho tinha anúncios que diziam 'Pareça-se com Charles Atlas!' e ele parecia um Hércules, de corpo saudável. Por comparação, George Reeves parecia normal", diz ele.

Os desenhos de "Super-Homem" dos anos 40 produzidos por Max Fleischer davam ao herói uma aparência de operário ou lenhador, diferentemente dos atuais, que o fazem parecer uma pirâmide de músculos invertida.

Musculoso, Christopher Reeve refletiu a loucura por musculação no "Super-Homem" de 1978, mas a idéia de masculinidade mudou. "Não vivemos mais em um mundo de Schwarzenegger, vivemos em um mundo Matt Damon", diz Meltzer, romancista cujos livros incluem "Dead Even" e "The Book of Fate", a ser lançado.

O ilustrador de "It's a Bird...", Teddy Kristiansen, ficou feliz que o herói de "Superman - O Retorno" não fosse um gigante. "Se encaixa melhor com o lado humano do personagem de Clark Kent. Ele sempre parece careta e desajeitado. Magro do jeito que é, Routh serve ao personagem", diz ele.

As mudanças no personagem são freqüentemente ditadas subconscientemente pelos eventos do dia. "Você não consegue os heróis que quer, você consegue aqueles dos quais precisa", diz Meltzer.

O herói chamado pelos pais de Kal-El sofre em "Superman - O Retorno", talvez por causa dos tempos duros que fazem parte de nosso mundo real: guerra, divisão política, disparidade econômica e relacionamentos emocionais tensos.

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Em "Superman - O Retorno", o herói desapareceu da Terra e passou os últimos cinco anos em uma busca pela galáxia para localizar os restos de seu planeta natal Krypton. Ele deixou para trás sua mãe viúva (Eva Marie Saint) e abandonou seu romance com a repórter Lois Lane (Kate Bosworth). Sua ausência no julgamento de Lex Luthor (por vilania não especificada) leva à liberação de seu inimigo.

Quando o Super-Homem volta, ele descobre que Lois iniciou um relacionamento com outro homem e -CHOQUE- ela tem um filho!

É um problema que o Super-Homem não pode resolver com atos de força ou velocidade. A inquietação emocional o faz vacilar e, em meio à batalha contra Luthor (Kevin Spacey), ele procura descobrir como voltar à antiga vida, ou se deve.

Como isso se relaciona com os tempos atuais?

"Atualmente, os relacionamentos humanos são mais complicados", diz Paul Levitz, presidente da DC Comics. "A idéia de encontrar alguém para casar e viver junto para sempre, como cisnes em um lago, não é uma expectativa universal."

Os problemas de Super-Homem com Lois Lane em "Superman - O Retorno" refletem os perigos do romance adiado. "Para os fãs das gerações anteriores do Super-Homem, a vida era um processo muito linear", diz Levitz. "Mas vivemos em uma sociedade mais ziguezague hoje".

O diretor de "Superman - O Retorno", Bryan Singer, que fez "Os Suspeitos" e os primeiros dois filmes de "X-Men" concorda que ele tentou inserir no filme questões mais contemporâneas.

"Em vez de fugir de sua bondade, tentamos abraçar os aspectos nostálgicos de seu personagem e também trazê-lo para um mundo mais moderno", diz Singer. "Há as complexidades do divórcio, filhos fora do casamento e mães que trabalham fora. Mas ao mesmo tempo, a essência do amor pela família e por outra pessoa é algo que sobrevive."

Até o rostinho de bebê de Routh pode ser um trunfo com o público acostumado a ver jovens nos noticiários, servindo no Iraque e no Afeganistão.

"Esses são os verdadeiros heróis. Todos os dias eles vestem seus uniformes e arriscam suas vidas por nós", diz Meltzer. "Com Brandon Routh, você não tem um lutador; tem alguém que poderia ser um bombeiro. Poderia ser você."

Singer não tinha isso em mente, mas aceita como interpretação razoável. "É provável que haja mais heróis jovens nos campos de batalha", diz o diretor.

Ele teve uma razão mais prática para escolher um astro com aparência jovem: mantê-lo para futuros filmes da série.

Retratos de solidão

As encarnações mais recentes do Super-Homem são mais humanizadas. Na série de televisão "Smallville", transmitida pela WB desde 2001, o adolescente Clark Kent (Tom Welling) é um rapaz solitário, descobrindo seus poderes.

Até no programa de televisão dos anos 90 "Lois & Clark" (estrelando Dean Cain e Teri Hatcher, pré-"Desperate Housewives"), o herói estava em crise existencial. "Ele se perguntava: 'Haverá mais na vida?'", diz Grossman. "Ele estava se perguntando: 'Tenho toda essa força, mas será só isso?'"

O conto "Just Be Yourself", apresentado pela rádio pública "This American Life" em 2001, satirizou o coração partido do sujeito normal, de braços fracos, que começa a namorar Lois Lane depois que ela rompe com o Homem de Aço.

Na história de Jonathan Goldstein, Super-Homem está apaixonado e não consegue entender Lois ou o que ela vê em seu novo e frágil parceiro. "É isso que o torna um personagem interessante", diz Goldstein. "Apesar de ser a prova de balas e poder fazer voltar o tempo revolvendo a Terra, ainda assim é suscetível aos charmes de uma mulher, como qualquer outro."

O Super-Homem de Christopher Reeve tinha menos angústia. Levitz diz que isso é um reflexo do otimismo do final dos anos 70 e 80.

"Você via uma pessoa entretida com sua própria capacidade", diz ele. "Era uma coisa aceitável ser poderoso e ficar feliz com sua velocidade e inteligência."

O altruísmo do Super-Homem também mudou. Quando apareceu pela primeira vez em "Action Comics", em junho de 1938, ele era praticamente um vigilante, criado pelo escritor Jerry Siegel e pelo ilustrador Joe Shuster. Aquela capa famosa dele levantando um carro sobre a cabeça não é o Super-Homem resgatando alguém -é ele destruindo o carro de um cara que interrompeu sua dança com Lois Lane.

Mas o Super-Homem de hoje é mais bem ajustado, diz Levitz. "Para um sujeito que pode fazer qualquer coisa, ele nunca parece fazer nada à custa dos outros." Deborah Weinberg

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