Futuro da Nasa está marcado por incertezas

Traci Watson

Se tudo correr bem nesta semana, o ônibus espacial Discovery e a sua população serão lançados em órbita, e do espaço os astronautas verão com clareza localidades e pontos de referência na Terra.

Já o futuro do programa espacial dos Estados Unidos não é tão claro.

Ficou para trás aquele período na década de 1960, no qual a Nasa venceu a corrida espacial com um foco obsessivo em colocar um homem na Lua. Hoje, a Nasa se esforça para dar conta de demandas que conflitantes - desde provar que é capaz de lançar os ônibus espaciais sem que ocorram acidentes e aposentar a sua frota destes veículos em 2010, até concluir o dispendioso laboratório da Estação Espacial Internacional e desenvolver novos veículos para a exploração espacial.

A capacidade da agência de administrar esses desafios com sucesso é que vai determinar o futuro do seu programa espacial tripulado, e revelar se os Estados Unidos retornarão à Lua e enviarão astronautas a Marte.

"Para mim, um cenário de pesadelo é aquele em que nós apenas anulemos gradativamente os vôos espaciais tripulados", afirma Roger Launius, diretor da divisão de história espacial do Museu Nacional de Aeronáutica e Espaço. "Temos algumas questões sérias com as quais lidar".

O apoio dos norte-americanos à Nasa continua forte. Uma pesquisa USA TODAY/Gallup realizada no último final de semana revelou que 57% da população acreditam que a agência faz um trabalho bom ou excelente. Somente um terço dos entrevistados disse que o orçamento da Nasa deveria ser reduzido ou eliminado.

À medida que o déficit federal aumenta, pode ficar difícil conseguir os US$ 104 bilhões necessários para enviar norte-americanos de volta à Lua, afirmam Launius e Marco Caceres, do Teal Group, uma firma de análise aeroespacial.

Caceres adverte que o conflito de prioridades na Nasa pode ter conseqüências, especialmente se houver cortes de verbas. "A nação está passando para a Nasa a responsabilidade por todos esses projetos difíceis e visionários, sem entretanto dar a ela os recursos para implementá-los", adverte Caceres. "Cedo ou tarde esse tipo de contradição chega a um ponto crítico, e ocorre um acidente".

Dean Acosta, porta-voz da Nasa, relata que a agência planeja seguir em frente, utilizando quaisquer recursos aprovados pelo Congresso. O orçamento anual da Nasa, de US$ 16,7 bilhões, está basicamente congelado há 15 anos. "Os funcionários da Nasa se sentem muito confortáveis com o fato de sermos capazes de implementar o programa lunar com os fundos dos quais dispomos", diz Acosta.

Eis as quatro partes que compõem o programa de vôos espaciais tripulados da Nasa:

Ônibus espacial: um projeto fracassado

Depois que o ônibus espacial Columbia se desintegrou durante a reentrada na atmosfera em 2003, matando todos os sete astronautas a bordo, o presidente Bush ordenou que a agência espacial aposentasse os três veículos remanescentes do gênero até 2010. Depois daquele ano, será praticamente impossível prolongar a vida útil da frota de ônibus espaciais, já que as linhas de montagem de peças fundamentais terão sido fechadas, afirma William Gerstenmaier, diretor da divisão de operações espaciais da Nasa.

Antes de serem retirados de serviço, os ônibus espaciais deverão efetuar 16 vôos para completar a construção da estação espacial, incluindo o lançamento previsto para este sábado.

Somente o ônibus espacial possui potência suficiente para colocar em órbita os componentes da estação. É possível que haja um 17º vôo para consertar o envelhecido Telescópio Espacial Hubble.

O chefe do programa dos ônibus espaciais, Wayne Hale, estimou recentemente que existe uma possibilidade aproximada de 1% de que um vôo do ônibus espacial termine em uma catástrofe. O administrador da Nasa, Michael Griffin, não descarta a possibilidade de que um ônibus espacial sofra um outro acidente antes que a frota seja aposentada.

"Se eu tivesse certeza que perderíamos um outro veículo, me movimentaria para encontrar uma forma de cancelar o programa do ônibus espacial", declarou Griffin recentemente.

Hale e Griffin insistem que haverá um número suficiente de lançamentos do shuttle para concluir a construção da estação espacial. Isso exigiria quatro vôos por ano.

Outros não têm tanta certeza quanto a isso. "Para que isso aconteça, será necessário que tudo corra extremamente bem", opina Moshe Farjoun, professor da Universidade York, em Toronto, que foi co-editor de um livro sobre o desastre com o Columbia. "Cada vôo é um momento da verdade para a Nasa".

Questões relativas à estação espacial

A estação espacial, um laboratório orbital que dá uma volta em torno da
Terra a cada 90 minutos, ainda necessita de painéis solares, vigas
estruturais e vários laboratórios.

Segundo Gerstenmaier, cada peça a ser instalada precisa funcionar
perfeitamente antes que a próxima seja acrescentada, e a complexidade
envolvida no projeto significa que a metade ainda não terminada será mais difícil de ser construída.

"Colocar todas essas partes juntas será um desafio enorme", reconhece
Gerstenmaier, acrescentando que o cronograma de construção apresenta
flexibilidade suficiente para que os problemas que surjam sejam contornados.

A aposentadoria prevista dos ônibus espaciais obrigou a Nasa a cancelar dez vôos que teriam levado partes sobressalentes e equipamentos para
experimentos até a estação. Gerstenmaier diz que parte da carga será levada até a estação por outros veículos que estão sendo desenvolvidos.

"Experiências que poderiam ter ajudado a revelar como os humanos poderiam se manter saudáveis durante uma missão a Marte também foram canceladas", lamenta James Pawelczyk, um cientista da Universidade do Estado da Pensilvânia que voou no ônibus espacial em 1998.

Em março deste ano, Griffin disse que o papel de longo prazo da Nasa na
estação espacial, que custará às 16 nações envolvidas na construção cerca de US$ 100 milhões, ainda é "um assunto aberto a especulação".

"Nós não sabemos o que a estação se tornará, se será usada de forma
apropriada, ou se representará em um enorme desperdício de verbas", afirma Vicente Sabathier, membro do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais e ex-funcionário da agência espacial francesa.

Orçamento apertado para o Projeto Constelação

Na primavera passada, a Nasa revelou com grande alarde os detalhes sobre aquilo que batizou de Projeto Constelação, a espaçonave e os dois foguetes que a agência pretende construir para levar astronautas norte-americanos de volta à Lua. Griffin chama o projeto de "Apollo movido a esteróides".

Menos de um ano após a divulgação do projeto, a Nasa decidiu reduzir o
tamanho do Veículo de Exploração da Tripulação, a nave que transportaria os astronautas, devido ao custo e ao peso elevados. Ela ainda levará quatro pessoas à Lua, mas a tripulação viajará mais apertada, já que o seu interior terá apenas dois terços do tamanho originalmente imaginado pelos engenheiros.

E o projeto tampouco será implementado tão rapidamente quanto a Nasa
esperava. Quando Griffin revelou o plano, ele esperava que o veículo ficasse pronto em 2012 para transportar astronautas até à estação espacial. Scott Horowitz, diretor da divisão de explorações da Nasa, afirma que a espaçonave não estará operando regularmente antes de 2014. Os engenheiros da agência têm como meta desenvolver a tecnologia necessária até 2010. "Mas neste momento o nosso orçamento só permite planos para 2014", informa Horowitz.

Isso significa que, a menos que surja mais dinheiro, a Nasa passará quatro anos sem ter uma espaçonave própria para vôos tripulados. A agência espera, em vez disso, recorrer a veículos construídos por empresas privadas, embora Jerry Grey, diretor de política de ciência e tecnologia do Instituto Americano de Aeronáutica e Astronáutica, diga que não está claro se tais veículos serão de fato construídos. A Nasa também comprará espaço para seus astronautas nos veículos espaciais russos até 2012.

No seu orçamento proposto para 2007, a Nasa cortou gastos científicos a fim de contar com mais verbas para a sua nova missão.

"O Projeto Constelação é um pé número 42 em um sapato 38", critica Howard McCurdy, da American University, em Washington. "É realmente muito difícil promover contenção de custos e fazer o projeto funcionar".

Planos obscuros para a Lua e Marte

A proposta de Bush de enviar astronautas de volta à Lua e, mais tarde, para Marte, gerou aplausos de historiadores espaciais, ex-astronautas e membros do Congresso pelo fato de estabelecer metas situadas além da órbita terrestre baixa. O único detalhe específico no plano anunciado por Bush em 2004 é o prazo: o retorno à Lua ocorrerá até 2020, garantiu o presidente. Tal cronograma preocupa Grey, que, com a exceção deste detalhe, é um fã do plano de Bush.

"Ao trabalharmos de acordo com um cronograma apertado, há uma tendência para sobrecarregarmos os sistemas e as pessoas a fim de cumprir o prazo
estabelecido, e isso não é necessário", diz ele. "Por que a pressa?".

A Nasa não revelou em que local da Lua os astronautas pousarão, não informou por quanto tempo estes ficarão na superfície lunar e não anunciou o que eles farão. Griffin disse no ano passado que para que se divulguem tais detalhes é necessário aguardar até que outras nações decidam se juntar à Nasa na exploração da superfície lunar, já que a agência está investindo todas as suas verbas no desenvolvimento dos meios para chegar até à Lua.

"Não seremos capazes de conduzir o ambicioso programa de exploração da
superfície lunar e outras pesquisas que a Lua merece se atuarmos sozinhos", afirmou.

A agência não anunciou plano algum para a viagem de quatro a seis meses a Marte, embora a nova espaçonave esteja sendo projetada para fazer essa viagem. Griffin diz que o trabalho relativo a essa missão terá início na década de 2020.

Até mesmo os mais pessimistas especialistas em questões espaciais dizem que é improvável que os Estados Unidos abandonem um programa tão popular e prestigioso como a exploração do espaço por humanos. Mas poucos estão apostando em um futuro brilhante.

"Quere ver a Nasa ser bem-sucedida", afirma Launius, do Museu de Aeronáutica e Espaço. "Só que estou muito preocupado com a possibilidade de que ela não consiga ter tanto sucesso". Danilo Fonseca

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