Mais difícil encontrar cantoras sérias nas paradas de sucesso

Elysa Gardner

Faz 10 anos que uma jovem cantora/compositora chamada Sarah McLachlan organizou o Lilith Fair, festival que passou a simbolizar o aumento da visibilidade de artistas mulheres em meados dos anos 90.

Lançado em 1997, o Lilith foi rotulado por uns como mostra de menestréis de folk-pop doces e genuínos. Mas em três temporadas, a turnê também apresentou uma variedade de bandas de rock, hip-hop e alternativa, velhos e novos. As mais tocadas pelas rádios refletiram um interesse crescente por uma variedade de musicistas autônomas criativamente, além de inúmeros artigos sobre "mulheres no rock".

Ouça as 40 músicas mais ouvidas atualmente, porém, e provavelmente não encontrará tantas dessas artistas -ou suas sucessoras. Alguns sugerem que o sucesso comercial tornou-se um objetivo mais elusivo para mulheres com vozes fortes ou únicas.

Nas últimas semanas, poucas mulheres apareceram na lista de álbuns pop Billboard 200, em que Nelly Furtado, que funde hip-hop/folk/world music, e a cantora neo-soul India Arie são respectivamente número 2 e número 3.

Furtado, cujo álbum "Loose" chegou a primeiro lugar da lista anteriormente, também tem o single número 1 com "Promiscuous". Mas no total, a atual tabela Hot 100 traz menos mulheres entre os 10 primeiros lugares do que a do dia 20 de julho de 1996, encabeçada por Alanis Morissette e Tracy Chapman e que incluiu outras músicas de Morissette, Jewel e Mariah Carey.

Na parada do dia 22 de julho de 2006, Furtado, Beyonce e Shakira serão as únicas mulheres solo que também são compositoras entre os 10 primeiros lugares, e suas músicas têm ao menos três co-autores.

Certamente, super-estrelas como Beyonce e Gwen Stefani têm presença forte e singular. Mas sua forma de cantar e suas composições -que costumam envolver colaboradores- dependem mais de uma produção atraente, executada com o mesmo alto estilo de suas coreografias de dança e seus modismos do que de sua expressão idiossincrática. Kelly Clarkson, elogiada como a artista de "American Idol" de mente mais independente, também depende de co-compositores experientes.

Outros jovens ícones femininos incluem Jessica Simpson e Lindsay Lohan, aludidas no recente vídeo da Pink "Stupid Girls", que faz paródias de mulheres que sempre aparecem nos tablóides.

"Neste momento, a ênfase cultural é mais em nossos corpos do que em nossas mentes ou talentos", diz Pink. "A mídia absolutamente promoveu isso. Artistas respeitadas, como Sheryl Crow e Melissa Etheridge, são mais velhas."

Mulheres "deparam-se com uma espécie de muro"

Linda Ronstadt, que conquistou reconhecimento décadas atrás por seus poderes vocais e sua beleza, concorda. "O movimento feminino deparou-se com uma espécie de muro", diz ela, que se juntou à Ann Savoy para "Adieu False Heart", que será lançado no dia 25. "É quase impossível fazer sucesso hoje se você não for atraente."

"Um rosto bonito sempre vende, mas agora é mais importante para todos", diz Fiona Apple

Como ela, que chegou à cena adolescente e fez sucesso tanto por sua sexualidade Lolita tanto quanto por seu talento prodigioso, muitas das novas intérpretes/compositoras sendo anunciadas são notáveis não só por sua aparência, mas por sua juventude.

Aos 18 anos, a garganta de prata Kelly Sweet, que estréia com "We Are One" no dia 12 de setembro, já tem três anos sobre a estrela da MTV Cheyenne Kimball, cujo novo CD "The Day Has Come" chegou nas lojas na terça-feira (11/7).

Os últimos meses trouxeram álbuns de intérpretes/compositoras mais maduras, vozes admiradas e estrelas em ascensão como Allison Moorer, Jen Chapin, KT Tunstall, Anna Nalick e Corinne Bailey Rae.

Algumas egressas do Lilith, como Apple, hoje com 28, e McLachlan, 38, conseguiram sustentar o interesse de fãs e da mídia que as descobriram nos anos 90.

Mas Moorer, cujo novo CD "Getting Somewhere" recebeu boas críticas mas pouca exposição comercial nas rádios, acha que o compromisso com as mulheres foi curto. "Depois do Lilith, houve um grande retrocesso na indústria musical. Todos esses caras entenderam pela primeira vez o poder que as mulheres têm de falar às outras mulheres; depois, tivemos todas essas bandas de meninos raivosos como Limp Bizkit. Foi uma virada de 180 graus."

Essa tendência ao rock e rap movidos a testosterona foi seguida por uma onda de pop chiclete, liderada por Britney Spears. Mas com a entrada do novo milênio, pareceu que uma nova leva de músicos independentes e criativos estava emergindo.

Artistas como Arie, Furtado, Pink, Michelle Branch, Alicia Keys, Norah Jones, Shakira e Dido tiveram vendas significativas e tempo no ar, mas confrontaram alguns dos obstáculos enfrentados pelas gerações anteriores.

"Muitos produtores ou executivos freqüentemente me desdenhavam, ou ficavam mais interessados na possibilidade de um relacionamento pessoal do que de trabalho", lembra-se Keys. "Foi assim que tive que compor, produzir e arranjar sozinha para chegar em algum lugar."

O primeiro single "Video", diz Arie, "realmente foi uma afirmação que escrevi para mim mesma, para me apresentar e fazer um caminho para mim na indústria. Eu sabia que aparentemente não era do gosto popular, mas tinha algo muito bonito a oferecer." Em "Testimony Vol. 1: Life and Relationship", "fui mais fundo em me expressar exatamente da forma que queria".

Keys, Arie e outras admitem que a liberdade que apreciam foi construída em cima de precedentes. Pioneiras como Joni Mitchell e Carole King foram seguidas nos anos 70 e 80 por mulheres pós-punk, como Patti Smith, ou folk, como Chapman.

Furtado também cita estrelas do hip-hop/soul que precederam Keys. O título do novo CD de Furtado foi inspirado pelo trio TLC, que adornava suas roupas com preservativos. "Elas estavam tomando de volta sua sexualidade, mostrando que eram mulheres completas", disse Furtado. "Havia tanto frescor em artistas como elas, ou Mary J. Blige, que tem voz e imagem fortes. Sinto falta disso."

Alguns concordam que o dilema não é privilégio do gênero. Muitos aludem ao desmantelamento do desenvolvimento do artista em grandes gravadoras e ao que Rosanne Cash chama de "consciência de 'American Idol'" -uma ênfase em caçar sucessos rápidos de artistas jovens e maleáveis em vez de nutrir carreiras de longo prazo.

"Não acho que as mulheres estão sendo especificamente prejudicadas", diz Cash. "É uma época difícil do ramo. Antigamente um selo fechava contrato com o artista e ficava com ele por três ou quatro discos. Isso quase nunca mais acontece."

Jewel, cujo mais recente álbum, "Goodbye Alice in Wonderland", entrou para os 10 mais em maio, mas desde então caiu para 136, diz: "Não há muitos jovens hoje dizendo: 'Quero me tornar compositor'. Eles dizem: 'Quero ser famoso'. Os jovens venderiam seu braço direito para serem famosos, e a indústria permite isso e fica feliz em lucrar com isso."

É certo, porém, que as artistas confrontam algumas questões específicas. A maternidade pode ser um fator complicador, particularmente para as que fazem turnês, como admitiu McLachlan quando interrompeu o Lilith, citando um desejo de iniciar uma família.

Branch, que seguiu o sucesso de sua carreira solo formando a banda The Wreckers, com Jessica Harp, diz que "sentiu muita pressão" depois de ter sua filha, Owen, em agosto. "Apesar de ninguém do selo ter dito, era: 'Você vai perder esse peso, certo?'"

Como Cash, mãe de cinco, e aquela feroz trabalhadora Madonna, Branch e McLachlan conseguiram continuar gravando e se apresentando. Furtado, que diz que sua filha de 2,5 anos Nevis lhe deu mais energia para seu novo CD, repete o que muitas artistas que têm filhos dizem quando descrevem a experiência: "Estimulante. A mulher pode ter o bolo e comê-lo também."

k.d. lang usa a fertilidade como metáfora para avaliar os desafios e oportunidades para "os dois sexos. O foco mudou para comida rápida, cultura rápida. Mas a opressão cultural pode cultivar grande, grande arte. Nas ruas, em qualquer momento drástico, as coisas são incrivelmente férteis, e acho que há tremenda oportunidade hoje."

Alice Peacock, cujo CD "Who I Am" foi lançado no dia 4 de julho em seu selo Peacock Music (distribuído pela Universal Music Group) está tentando aproveitar a oportunidade. "Sendo de um selo independente, tenho mais liberdade", diz Peacock, que antes era de uma grande gravadora. "As mulheres podem ter mais impacto se tiverem tempo para crescer."

Kim Buie, vice-presidente da Lost Highway, selo menor que abriga artistas solo como Lucinda Williams e Mary Gauthier, acredita que existem mais opções para mulheres com iniciativa e paciência. "Alguém como Lucinda, cuja carreira foi construída como compositora, pode sempre fazer uma turnê de sucesso e consistentemente construir um público", diz Buie. Ela salienta que outras iconoclastas como a heroína indie Ani DiFranco e Aimee Mann, que sustentam um histórico invejável como artistas compositoras.

Mudando para Nashville

Mas muitas outras que buscam maior exposição consideram os canais disponíveis limitados, literal e figurativamente. A escassez de músicas de compositoras pop na rádio "foi uma das principais razões" para Branch decidir se mudar para Nashville e formar The Wreckers. O duo intitulou seu álbum de estréia, com óbvio sarcasmo, "Sit Still, Look Pretty" (sente quieta, pareça bonita).

A capital da música country abrigou uma série de artistas relativamente indomáveis nos últimos anos, desde Dixie Chicks até a super-estrela Gretchen Wilson.

"Nunca escrevi uma canção antes de me mudar para Nashville", diz Wilson.
"Tentei compor uma ou outra, mas vim para cá e comecei a trabalhar com a Máfia da Música e Grandes e Ricos. E há muitas compositoras talentosas aqui."

Artistas mais experientes têm esperanças que, usando a mídia e o companheirismo, as irmãs continuarão no caminho.

"Muitas artistas estão apresentando outras, uma coisa estimulante", disse Bonnie Raitt, citando o apoio de Patty Griffin a Emmylou Harris. Raitt promoveu Maia Sharp e cita uma série de musicistas novatas que admira, inclusive algumas que enviam suas gravações demo diretamente para ela.

Raitt, que agora está em turnê, pensou em começar um festival ao estilo de Lilith Fair.

"A mistura de estilos e gerações era ótima, e havia uma vibração diferente palpável nos bastidores, sem hierarquia ou disputa de poder. Era a parte legal do que as mulheres fazem umas para as outras. Espero fazer algo com esse tipo de companheirismo que possa acontecer todo verão. Algo inspirado em Lilith Fair, porque essa é uma das coisas que mais sinto orgulho de ter participado." Deborah Weinberg

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