Será essa mulher o "Código" vivo?

Carol Memmott

O mundo estará pronto para um livro e um autor mais controverso que Dan Brown e "O Código Da Vinci?"

Conheça Kathleen McGowan, romancista que se diz descendente da união entre Jesus e Maria Madalena. McGowan diz ser da "linhagem sagrada" que Brown tornou famosa em seu romance de sucesso e está preparada para lidar com pessoas que acham que é louca ou herege.

No entanto, entre aqueles que acreditam nela está seu agente literário poderoso e os editores da Simon & Schuster de Nova York, que estão colocando seu peso por trás de seu romance religioso autobiográfico "The Expected One" (A aguardada), a ser lançado no dia 25 de julho com uma ambiciosa primeira edição de 250.000 cópias.

"Certamente acho que haverá uma reação", diz McGowan, 43, que com seu marido Peter tem três filhos em Los Angeles: Patrick, 16, Conor, 12, e Shane, 4. "Mas tenho o apoio da minha família e amigos, e é daí que tiro minha força."

Pense em McGowan como uma Sophie Neveu americanizada. Em "O Código Da Vinci", Sophie (interpretada por Audrey Tautou na adaptação para o cinema) é uma francesa que descobre que é descendente de Jesus e Maria -conceito que muitos cristãos rejeitam.

"The Expected One" (Touchstone, US$ 25,95) chegará às livrarias em uma época em que mistérios religiosos estão em grande demanda por editoras e fãs de Brown, com sede de romances de suspense que misturem religião, história e conspiração.

McGowan diz que seu livro não é uma imitação de "O Código Da Vinci".

"Todo mundo está pensando que estou aproveitando a onda de 'O Código Da Vinci', mas não estou", diz McGowan, que começou a trabalhar em seu livro em 1989. "O Código Da Vinci" foi publicado em 2003.

McGowan publicou seu romance de forma independente no ano passado e vendeu apenas 2.500 cópias. Agora está tendo uma segunda chance. Se o livro for um sucesso, ela vai entrar para o grupo exclusivo de autores que publicaram de forma independente e depois foram incorporados por grandes editoras. Eles incluem John Grisham ("Tempo de Matar"), Richard Paul Evans ("Caixa de Natal") e James Redfield ("A Visão Celestina").

A Simon & Schuster está investindo US$ 275.000 (em torno de R$ 600.000) para promover "The Expected One" e está enviando a autora para uma turnê pelo país a partir do dia 3 de agosto. A editora não dá ênfase às alegações de McGowan sobre sua linhagem (que ela menciona no epílogo de seu romance), pois não tem planos de promover a história pessoal da autora.

"É um pano de fundo interessante, mas o que estamos vendendo é esse romance fabuloso", diz Trish Todd, editora da Touchstone, uma divisão da Simon & Schuster.

Todd diz que não tem problema em acreditar nas alegações de McGowan de que descende de um casamento entre Jesus e Maria Madalena. "Sim, acredito. Sua paixão e sua missão são tão fortes, como não seria?"
O romance de McGowan, como "O Código Da Vinci", é cheio de conspirações, documentos escondidos e uma hierarquia do Vaticano que observa de perto os indivíduos que buscam segredos escondidos por 2.000 anos.

Mas aí terminam as similaridades. "The Expected One" é a história de Maureen Paschal, que começa a ter visões de Maria Madalena, descobre que é descendente de Maria e Jesus e inicia uma busca dramática de um evangelho escrito por Maria escondido no sudoeste da França. Em trama paralela, McGowan conta a verdadeira história do casamento e dos filhos de Jesus e Maria Madalena, segundo ela.

O título do livro é tirado de uma antiga profecia, que fala de uma mulher escolhida pela divina providência para trazer a verdadeira história da vida de Maria Madalena ao mundo.

McGowan chama seu livro de romance, mas diz que espelha sua própria vida. As visões de Maureen, diz ela, são relatos verbatim de suas próprias visões de Maria Madalena. "Maureen é uma personagem de ficção", diz ela, "mas há muito de mim em Maureen. Sei que será difícil para as pessoas aceitarem isso, mas é verdade".

Apesar de McGowan dizer que descende de Jesus e Maria Madalena, ela não diz se é "A Aguardada", como Maureen.

"Não sou grandiosa sobre isso, e me preocupa muito que não seja retratada assim", disse McGowan. "Não quero parecer que estou me proclamando como a esperada. Isso é um tipo de coisa perigosa, movida pelo ego."

McGowan diz que mergulhou na história de Maria Madalena quando fazia pesquisa para um livro de não ficção sobre mulheres notáveis que foram "malditas e incompreendidas" nos relatos tradicionais escritos pelo "patriarcado que preserva a história".

McGowan, jornalista e terceira geração em Hollywood que trabalhou para vários estúdios de cinema, inclusive The Walt Disney Co. , diz que sua primeira visão de Maria Madalena ocorreu durante uma visita a Jerusalém, em 1997. Ela sentiu uma vertigem e viu uma luz muito forte. Então, viu Maria Madalena cercada por uma multidão irada, andando na direção do monte onde Jesus foi crucificado.

Foi essa visão que mudou sua vida para sempre, diz ela.

"Era tão real e poderosa. Foi neste momento que soube que nunca ia poder voltar para trás, quando soube que o que eu via era real e verdadeiro e estava sendo mostrado por uma razão, e que tinha que prosseguir."

A razão, acredita, é dizer ao mundo a verdade sobre Maria Madalena, há muito retratada pela igreja como prostituta.

Até agora, McGowan dá apenas sua palavra sobre sua linhagem e sugere ter provas. Além de visões, diz ela, ela descobriu que sua família é ligada à antiga linhagem francesa que traça suas raízes a descendentes de Jesus e Maria Madalena. Segundo a lenda, Maria Madalena estabeleceu-se na França depois da crucificação e ressurreição de Jesus. "Só posso dizer isso neste momento", diz McGowan. Alguns membros de sua família, diz ela, querem que ela respeite sua privacidade e não discuta o assunto.

Apesar da falta de evidências, os defensores de McGowan incluem seu agente literário Larry Kirshbaum, que deixou seu cargo de CEO da Time Warner Books em dezembro para fundar sua própria agência literária. McGowan foi uma de suas primeiras clientes e ele a ajudou a fechar um acordo de três livros com a Simon & Schuster (seus próximos dois livros continuam a história de "The Expected One").

Kirshbaum acredita em McGowan, quando ela diz que é descendente de Maria Madalena. "Sinto que é inteiramente plausível", diz Kirshbaum, que leu "The Expected One" depois que McGowan o publicou sozinha no ano passado. "Ela passou 20 anos de sua vida pesquisando o assunto. Você tem que dar a ela o benefício da dúvida, pois é totalmente racional. Acredito plenamente nela. Ela tem total credibilidade comigo desde o início."

Mas historiadores e acadêmicos que foram cépticos diante da sugestão de Dan Brown de uma linhagem sagrada estão igualmente duvidosos das alegações de McGowan de descendentes atuais de Jesus e Maria Madalena.

"Um historiador deve simplesmente olhar as evidências", disse Bart Ehrman, diretor do Departamento de Estudos Religiosos da Universidade da Carolina do Norte - Chapel Hill, e autor de "Peter, Paul & Mary Magdalene: The Followers of Jesus in History and Legend" (Pedro, Paulo e Maria Madalena: os seguidores de Jesus na História e nas lendas, Oxford University, $25). "Você pode entrevistar qualquer acadêmico especialista do início do cristianismo e todos dirão a mesma coisa. É totalmente falso."

McGowan diz que as evidências de seus ascendentes franceses e conexões com a linhagem sagrada foram passadas por muitas gerações de sua família, mas admite que "há certas falhas". Grande parte da documentação ancestral, diz ela, foi destruída durante a Revolução Francesa.

Ehrman tem dúvidas. "As pessoas não mantinham árvores genealógicas dessa forma no mundo antigo. Não há registros. Até a Idade Média não havia nenhum relato da Maria Madalena ter ido para a França. E essa lenda nasceu porque havia um culto à Maria Madalena no Sul da França, e eles usaram a história como forma de explicar as origens do culto."

McGowan originalmente planejava escrever "The Expected One" como não ficção, mas disse que não poderia tornar públicas as fontes que desenvolveu enquanto pesquisava e escrevia o livro. Sem prova incontroversa, McGowan talvez tenha problemas de credibilidade.

"Sempre fico um pouco desconfiado quando as pessoas dizem: 'Tenho toda essa informação, mas não posso lhe contar. Se você soubesse, acreditaria também. Então aceite minha palavra.' Não é assim que a academia funciona", diz Marvin Meyer, professor de Bíblia e Estudos Cristãos da Universidade Chapman, em Orange, Califórnia. Ele é uma autoridade reconhecida dos evangelhos gnósticos e autor de "The Gospels of Mary: The Secret Tradition of Mary Magdalene, the Companion of Jesus" (Os evangelhos de Maria: a tradição secreta de Maria Madalena, a Compaixão de Jesus, HarperSanFrancisco, $12.95).

Meyer diz que considera as alegações de McGowan uma "especulação intrigante, mas não há evidências históricas que sugerem que Jesus e Maria tiveram filhos ou que um filho cresceu na França e depois andou pela Europa. É uma boa história e uma lenda maravilhosa. Não vejo História de fato."

McGowan não ouviu comentários da Igreja Católica sobre seu livro ou suas declarações sobre a linhagem sagrada desde que publicou o livro de forma independente.

"É claro que eu era independente; não era um peixe grande, nem era ameaçadora", diz ela. "Será muito interessante ver se me tratam da mesma forma agora que o livro está saindo internacionalmente em 25 países."

Madalena: ainda um mistério

Graças ao "Código Da Vinci", de Dan Brown, (e agora ao romance de Kathleen McGowan "The Expected One"), novas perguntas nasceram sobre Maria Madalena e seu papel na vida de Jesus:

Maria Madalena era prostituta?

Não há menção disso na Bíblia. O papa Gregório, o Grande, rotulou-a assim no século 6.

Jesus e Maria se casaram e tiveram filhos?

Essa é a teoria do "Código Da Vinci", de "The Expected One" e de "Holy Blood, Holy Grail", de Michael Baigent, Henry Lincoln e Richard Leigh, mas não há evidências em favor dela.

Como a Igreja Católica vê Maria Madalena?

Em 1969, o Vaticano declarou que Maria não mais seria considerada prostituta; em 1988, Maria foi citada em um documento da igreja como "apóstola dos apóstolos", e honrada por ficar com Jesus durante a crucificação e até quando os apóstolos homens se esconderam.

Madalena está sentada ao lado de Jesus na Última Ceia de Leonardo da Vinci?

Essa idéia foi sugerida em "O Código Da Vinci", mas historiadores acreditam que era São João.

O que a Bíblia fala sobre Maria Madalena?

Maria era seguidora de Jesus, mas não há menção de sua origem. Ela foi a primeira pessoa para quem Jesus apareceu depois da Ressurreição, no domingo de Páscoa.



Maria emerge como influente discípula de Jesus, e alguns dizem que ele a amava mais do que qualquer um de seus apóstolos. Deborah Weinberg

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