Um em cada cinco adultos diz que um membro da família é viciado

Rita Rubin

Se não fosse por sua mulher e quatro filhos, ele estaria morto, diz Tim Ryan com honestidade.

Ryan, 37, estima que esteve sóbrio por oito dos 16 últimos anos. Ele diz que seu esforço mais recente começou há seis meses, quando parou de beber e usar heroína. Desta vez, diz ele, a sobriedade permanecerá.

"Passo a maior parte do tempo com meus filhos", diz Ryan, sócio de uma empresa de tecnologia da informação que trabalha em casa, no subúrbio. "Olho para os olhos deles e vejo seus rostos. Se não puder deixar (o vício) por eles, é que tenho um problema."

O vício é endêmico nas famílias americanas. Em uma pesquisa do USA Today/HBO no país, entre 27 de abril e 31 de maio, um em cada cinco adultos disseram que um parente direto em algum ponto de sua vida foi viciado em álcool ou drogas. Isso se traduz em aproximadamente 40 milhões de americanos adultos com um cônjuge, parente, irmão ou filho lutando contra o vício. Isso sem contar milhões de crianças que moram com um pai viciado.

Talvez muitos americanos considerem esses números chocantes. Mas não o diretor do centro para Tratamento de Abuso de Substâncias e Setor de Serviços de Saúde Mental, ou Samhsa, H. Westley Clark. Ele não se surpreende com o fato de 20% dos entrevistados terem dito que têm um parente que foi viciado em álcool ou drogas.

"Não acho particularmente alto", diz Clark, psiquiatra e advogado.
"Aproximadamente metade dos adultos americanos bebem. Isso é um número grande."

O vício é uma doença que afeta a família. Mesmo que apenas um membro seja viciado em álcool ou drogas, todos são afetados. E a não ser que o vício seja encarado como problema da família, casamentos serão destruídos e os filhos estarão em risco de repetir o ciclo.

"Para cada alcoólatra ou dependente de drogas, há ao menos quatro ou cinco pessoas prejudicadas", diz Sis Wenger, diretora executiva da Associação Nacional para Filhos de Alcoólatras.

Se o tratamento der atenção também a essas quatro ou cinco pessoas, aumentará a probabilidade de recuperação, diz Charles Curie, administrador da Samhsa, que faz parte do Departamento de Serviços de Saúde e Humano.

"Cada vez mais, é difícil gerar um verdadeiro impacto no vício de uma pessoa a não ser quer a família como um todo seja considerada", diz ele.

Quando se pediu aos entrevistados que dessem palavras ou frases que descrevessem o efeito do vício na família, disseram "devastador", "abusivo"
e "amargo", entre outras. Na pesquisa, os entrevistados descreveram a vida com um membro da família viciado.

Um ex-marido diz que ligou para todas as farmácias, em um raio de 75 km de sua casa, para pedir que os farmacêuticos parassem de vender analgésicos para sua mulher, porque ela estava pegando receitas com vários médicos.
Outro contou que sua ex-mulher abria uma cerveja assim que chegava em casa do trabalho e de manhã nos finais de semana, praticamente assim que saia da cama.

Nada surpreendentemente, quando um cônjuge bebe muito e o outro não, as chances de divórcio são altas, diz Kenneth Leonard, pesquisador do Instituto de Pesquisa de Vícios da Universidade de Buffalo.

Mas quando os dois bebem, tendem a ser razoavelmente satisfeitos com o casamento, diz Leonard, cuja pesquisa sobre os efeitos do alcoolismo nos casamentos e nos filhos é financiada pelo Instituto Nacional de Abuso de Álcool e Alcoolismo.

"É uma atividade compartilhada, e é tempo passado junto", explica Leonard.

Maridos caem mais freqüentemente

Em geral, quando apenas um cônjuge bebe muito ou usa drogas, é o marido. Na pesquisa do USA Today/HBO, que foi conduzida pela Gallup e teve margem de erro de mais ou menos quatro pontos percentuais, 31% das mulheres que tinham parente viciado mencionaram seus maridos, comparados com 12% dos homens.

Tim Ryan diz que sua mulher, Shannon Ryan, 35, "quase não bebe". Peça a ela para descrever a vida ao lado do marido e a palavra "caos" parece resumir tudo. Quando ele usava drogas e bebia, diz ela, "ele não era pai, não era marido, não era amigo. Era apenas alguém que existia e trazia para casa um salário".

Eles se conheceram quando ela foi contratada como gerente em sua empresa, onde ele atuava como diretor de recrutamento. "Eu pedi a ele no primeiro encontro que tivemos que me dissesse se estivesse envolvido com drogas, porque eu não ia querer continuar com ele", diz ela. "Ele mentiu para mim."

Eles se casaram em dezembro de 1996. Shannon Ryan diz: "Sabia que tinha problemas com bebida. Nem mudei meu último nome por um tempo. Uma boa forma de começar um casamento, sabendo que você se divorciará logo."

O casamento foi apenas civil. Ela estava grávida de seu primeiro filho juntos (Ryan eventualmente adotou o primeiro filho de Shannon, de um relacionamento anterior). Ele estava de ressaca, dizem os dois.

Depois que seu filho nasceu, Shannon começou a colocar um hífen entre seu nome de solteira e o de Ryan "Para ao menos ser associada com meu filho quando foi para a escola".

Nessa época, ela encontrou cocaína em uma prateleira na garagem.

"A princípio, ele negou: 'Não é minha, é de um amigo.' Mas depois de um tempo, admitiu", lembra-se ela. "Tinha sido cega por uns dois anos, mas as peças começaram a se encaixar." Ela percebia que o dinheiro sumia. Agora sabia porquê.

"Ele então ficou limpo por um tempo, quase um ano", diz ela. "Eu queria acreditar que seria para sempre, mas sabia no fundo que era uma coisa temporária. Sabia que ele eventualmente teria uma recaída. Acho que ele tinha um objetivo: 'Vou fazer isso só por um ano.'"

Depois, quando seu primeiro filho tinha 6 anos, ele foi atropelado. O menino, que hoje tem 12, sofreu uma cirurgia e passou uma semana no hospital, seguida de semanas de recuperação em casa. Shannon, que foi entrevistada separadamente do marido, acha que o acidente serviu de desculpa conveniente para ele voltar aos velhos hábitos.

Nos próximos muitos anos, durante os quais chegaram mais dois filhos, "ele teve breves momentos aqui e ali de sobriedade", lembra-se a mulher. "Em geral, ele ou bebia ou se drogava. Raramente fazia os dois."

Eventualmente, Ryan começou a usar heroína. "A heroína é tão diferente da cocaína ou álcool", diz Shannon Ryan. "Tem um poder sobre ele diferente. É incontrolável."

O fato de trabalhar em casa provavelmente ajudou seu marido a manter o emprego de recrutamento, diz ela. "Ele podia usar aqui em casa. Ele podia sair e pegar a heroína e ninguém sabia que tinha saído."

Ela diz que levava ele para a estação de trem para que fosse ao centro da cidade entrevistar os candidatos. Assim ela pensava. "Isso durou uns dois anos, antes de eu entender o que ele estava fazendo", diz ela. Além de jantar com os candidatos, ele também estava encontrando os traficantes para comprar heroína, admite o marido.

Apesar de Ryan dizer que ele fazia "bem mais" do que US$ 100.000 (cerca de R$ 220.000) por ano, seu vício o deixou quebrado. "Drogas e álcool vinham primeiro, e as contas depois", diz Shannon Ryan.

Seu carro foi retomado, depois o barco. "Vários empréstimos ficaram sem pagamento", diz ela.

"Eu tinha que pegar dinheiro emprestado para pagar a conta de luz. Era um absurdo, com a quantidade de dinheiro que ele fazia. Não conseguíamos crédito para nada."

As mulheres pagam o preço

Na pesquisa do USA Today, muito mais mulheres do que homens disseram que o vício de um membro da família danificou sua saúde mental e física e o casamento, e Shannon Ryan não é exceção. Como resultado do vício do marido, diz ela, ela desenvolveu uma úlcera e começou a tomar antidepressivos.

Ryan diz que não entende como Shannon ficou com ele. Ela admite: "Pensei muito em deixá-lo. Para dizer a verdade, me sentia presa, já que era ele quem trabalhava. Eu não tinha emprego. Tinha quatro filhos pequenos. Realmente não podia sair e trabalhar."

Então ficava em casa e cobria por seu marido. Ryan diz que freqüentemente rompeu promessas de levar os filhos ao parque ou ao zoológico.

"As crianças ficavam desapontadas, e eu tinha que segurar as pontas", diz Shannon Ryan. "Eu inventava desculpas por ele. Mentia muito para as crianças."

Eles eram pequenos, mas não eram desatentos, diz ela. "O mais velho especialmente. Ele sabia quando Tim estava bêbado, com certeza. Ele sabia quando ele estava alto com cocaína."

A carga sobre os filhos

Uma pesquisa em todo o país em 2003 revelou que 6 milhões de crianças nos EUA tinham vivido com ao menos um pai que abusava ou era viciado em álcool ou drogas no ano anterior, diz Curie do Sahmsa. "Crianças em fase crítica de desenvolvimento, que são bem jovens, podem sofrer impacto profundo."

Em um estudo, Leonard da Universidade de Buffalo concluiu que muitos pais de filhos de um ano de idade que abusaram de álcool falavam menos com os filhos e expressavam menos envolvimento positivo. Eles também tinham mais emoções negativas em relação aos filhos. Aos 18 meses de idade, filhos de pais que abusavam de álcool tinham mais sintomas de ansiedade e depressão que outros, disse Leonard.

Sem intervenção, cerca de um em cada quatro filhos de alcoólatras se tornam alcoólatras, disse Wenger da Associação Nacional de Filhos de Alcoólatras.

"Há um número muito desproporcional de jovens nessas famílias que acabam viciados", diz ela. "Essas crianças fingem estar bem e enganam os pais e professores. Depois elas se graduam e repetem o ciclo."

Sua organização trabalha com religiosos, professores e pediatras para identificar crianças cujos pais são viciados em álcool ou drogas.

"É um número de crianças fenomenal, e todas acham que estão sozinhas", diz Wenger. "Mesmo que os pais não melhorem, essas crianças podem melhorar, se tiverem o apoio e educação corretos."

Uma das lições mais importantes para essas crianças é que o alcoolismo é uma doença, e não um segredo de família vergonhoso que têm de esconder, diz Wenger. "É quase palpável quando você trabalha com essas crianças, quando elas entendem: 'Meu Deus, não é minha culpa.'"

Alguns programas de tratamento de viciados envolvem toda a família. Um dos primeiros foi o Seabrook House, centro de tratamento e internação em Bridgeton, Nova Jersey, que dirige o programa anual MatriArk para mães solteiras viciadas.

Estabelecida em 1993 com fundos do Samhsa, a MatriArk abriu um novo complexo de US$ 8,3 milhões (em torno de R$ 18 milhões) em maio. Contém 36 apartamentos de diversos tamanhos para as mulheres com seus filhos de 12 ou menos, que em geral ficam com as mães no mês de tratamento.

As crianças vão à creche do MatriArk, que se especializa em trabalhar com crianças com problemas de desenvolvimento ligados ao uso de drogas ou álcool das mães. As mais velhas freqüentam a escola de ensino fundamental pública próxima.

Além de tratar o vício, a MatriArk ensina as mães a serem amorosas e responsáveis, diz o presidente da Seabrook House Edward Diehl. Em geral, são filhas de mães solteiras que também eram viciadas, diz Diehl. "Nosso objetivo é tentar não repetir o ciclo na próxima geração."

Ryan diz que o medo de perder sua mulher e filhos finalmente levou-o a tomar metadona para seu vício em heroína, quase um ano e meio atrás. "Se eu continuasse naquele caminho, ela teria me deixado."

Eventualmente, ele mudou para buprenorfina, outra droga usada para tratar vício em opióides. Muitos médicos vêem a buprenorfina como um tratamento de longo prazo para a doença crônica de vício, mas Ryan decidiu parar de tomar depois de um mês e meio. Ele ficou com medo de tomar muito tempo e depois ser mais difícil para parar.

Ele não freqüenta regularmente encontros dos Alcoólicos Anônimos, mas diz que freqüentemente conversa com seu apoio no AA. Ryan diz que também busca fóruns de recuperação on-line.

Na pesquisa do USA Today/HBO, três em cada quatro entrevistados com parentes próximos viciados disseram acreditar na possibilidade de recuperação. Entretanto, dois terços disseram que só seria possível com ajuda profissional.

E Tim Ryan, poderá ter sucesso?

Em favor de Ryan está o fato de ser casado e ter filhos e ter cortado laços com outros viciados, diz Clark da Samhsa. "Você sempre pensa no risco de relapso, mas isso não significa que vai acontecer", diz Clark.

Shannon Ryan está otimista, mas cautelosa sobre as chances de recuperação de longo prazo do marido.

"Parte da questão agora é que as crianças estão mais velhas, não sou mais tão dependente dele", diz ela. "Tenho esperança que tenha mais medo de cair de novo."

Ryan sabe que deu à esposa todos os motivos para duvidar.

"Acho que muitas vezes ela deve pensar: 'Quando vai cair o outro sapato?
Será de verdade?'", diz ele. "Você tem que enfrentar um dia após o outro." Deborah Weinberg

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