Do parquinho de areia ao spa: pré-adolescentes mimados embelezam-se

Maria Puente

Que lindo cabelo -tão brilhoso, macio, perfeitamente penteado. Espere um
minuto: a menina fez luzes?

Somente seu cabeleireiro sabe com certeza.

E sua manicure, esteticista e tatuador de hena. E não se deve esquecer a massagista. Afinal, ter 10 anos de idade hoje em dia requer muita manutenção.

Porque esses mimos não são mais apenas para mulheres adultas - ou mesmo adolescentes.

A idade na qual as meninas começam a se submeter a tratamentos de beleza caiu dramaticamente nos últimos anos, dizem donos de salões, enquanto as meninas tentam acompanhar suas celebridades favoritas e seus pais indulgentes.

Diferentemente de seus pais, hoje as crianças são bombardeadas com mensagens da mídia e encontram as lojas cheias de produtos destinados especificamente a elas. Atualmente, não é incomum crianças de apenas 6 anos fazerem massagem facial e unhas francesinhas; os salões para crianças evoluíram de uma raridade para um subconjunto crescente da indústria alvoroçada de spas de beleza.

O Hyatt Regency Hill Country Resort, em San Antonio, abriu seu popular spa para jovens de 17 anos ou menos há três anos.

"Mas nos dois últimos verões, a idade dos clientes caiu consideravelmente, para uma média de 8 a 10", diz Melody Campbell-Goeken, diretora de relações públicas do centro, que chama o spa jovem de Spahht. "Ainda estamos surpresos."

Mas por que uma menina precisa de limpeza de pele, muito menos de uma massagem?

"Por que somos meninas e somos femininas", ri Kailey Smith, 11, de San Antonio, que fez sua primeira massagem e limpeza de pele TuttiFrutti Therabeauty Body Scrub em uma recente visita para Hyatt Hill Country. "Foi muito bom, realmente gostei. Senti-me limpa e relaxada."

"América gosta de beleza"

A geração do "baby-boom", na maior parte, não começou a visitar spas até a idade adulta e agora que encontrou o nirvana quer dar o prazer às filhas.

"Para as mulheres, tornou-se uma questão básica ter a aparência que querem ter, e as crianças notam isso", diz Karen Grant, analista da indústria do NPD Group, firma de pesquisa de marketing.

Ainda por cima, as celebridades e a mídia obcecada com celebridades influenciam as crianças. Em sua edição de julho, a revista Glamour mostrou uma foto da atriz Kate Beckinsale e sua filha Lily, 7, saindo de um salão com as unhas das mãos e dos pés recém feitas.

A revista disse que 77% dos leitores votaram que é uma boa coisa mãe e filha irem juntas à manicure.

"(Adolescentes) têm uma fixação com celebridades, astros de cinema e figuras do esporte, que trocam de cabelo todos os dias", diz Susan Tierney, 47, ex-executiva da revista Seventeen e co-proprietária do Seventeen em Plano, Texas, um estúdio/spa/salão para adolescentes que abriu em 2002 e vai ganhar duas novas localizações em Dallas neste outono. "Mudar de estilo não é nada para eles. Enquanto isso, eu usei a mesma fórmula de cabelo por 20 anos."

"Spas de crianças deixaram de ser uma tendência e passaram a ser básicos", diz a proprietária da Sparty!, Aléxis Ufland, cuja empresa oferece festas com tratamentos de beleza em casa, para adolescentes, em Nova York e em 10 outras cidades.

Recentemente ela organizou uma festa de aniversário para um grupo de crianças de 10 anos no Upper East Side que oferecia limpeza de pele, manicure, tatuagem de hena, roupões cor de rosa com o nome de cada menina, sacolas de lembranças com maquiagem infantil, comida e bolo -tudo por US$ 5.000 (em torno de R$ 11.000).

"Elas já sabem o que é manicura francesa. Elas sabem que querem unhas quadradas, não redondas."

Mas será tudo isso diversão inofensiva?

"É só esmalte, meu Deus!" exclama Tierney.

Realmente, os salões para jovens não aplicam tratamentos adultos como abrasão da pele ou depilação com cera em rostos infantis. Os que oferecem massagens requerem em geral que os pais estejam presentes, e as massagistas são mulheres.

"Estamos na América, e a América gosta de beleza, de se cuidar, de manter a saúde, comer bem e tomar vitamina", diz Siobhain Buckley, mãe de Diandra, 11, e Ireland, 8, que adoram visitar o Hyatt Hill Country com sua mãe. As meninas dizem que pretendem continuar indo a spas quando se tornarem adolescentes e adultas.

Como muitas mulheres de sua idade, Buckley, 40, fez as unhas pela primeira vez quando era adulta. Mas suas filhas estão crescendo em um mundo diferente.

"As crianças estão muito avançadas, se comparadas conosco. Mas é diversão e, se ensina higiene e cuidado com a pele, como pode ser ruim?"
Produtos para crianças

De fato, Jean Kilbourne diz que pode ser ruim. Ela é professora visitante dos Centros Wellesley para Mulheres do Wellesley College, autora (seu próximo livro será: "So Sexy So Soon: Sexualization of Childhood", ou "tão sexy tão cedo: a sexualização da infância) e diretora de documentário ("Killing Us Softly", sobre a imagem das mulheres na propaganda).

Ela se preocupa que a ênfase na aparência possa levar as meninas a acharem que seu valor depende de sua aparência externa, em vez de como são feitas por dentro.

"Uma menina fazendo as unhas não é um grande problema", diz Kilbourne. "É a idéia disso se tornar rotina e começar tão cedo -isso é o que é danoso. Há uma graduação para maquiagem e festas de fio-dental. As meninas vão parecer ter 13 anos quando têm 7 e 20 quando têm 13. É importante as pessoas levarem a sério."

"Ao menos", suspira Kilbourne, "elas ainda não podem fazer depilação brasileira".

Kim Fred, da Plano, leva a questão a sério. Ela deixa a filha Sydney, 12, ir ao Seventeen fazer o cabelo e as unhas, mas até agora foi contra limpeza de pele, luzes e tatuagens de hena.

"Tentei realmente fazer meus filhos entenderem que são coisas de ocasiões especiais, não parte da vida normal", diz Fred.

Mas a resistência ao fenômeno pode ser fútil. O mercado consumidor infantil foi estimado em 61 milhões, de acordo com o censo americano, e deve crescer para 81 milhões até 2050. Então, não surpreende que as indústrias de spa e beleza entendam que o mercado ainda não foi totalmente explorado e poderá sustentar seus negócios por décadas.

Em 2004, havia cerca de 14.300 spas nos EUA e Canadá, de acordo com a International Spa Association. Um estudo encomendado revelou que dois de cada cinco visitantes de spas com filhos entre 13 e 15 anos levaram os filhos.

A tendência, no entanto, não envolve apenas salões, mas vai fundo nas vendas. A cada ano, aparecem mais cosméticos e produtos para cabelo e unhas para adolescentes. A Bath & Body Works tem uma linha, American Girl, de xampu, brilho para os lábios e perfume para meninas. A Little Fing'rs lançou sua linha de esmalte Girlie Nails neste ano, para meninas entre 6 e 11 anos.

Cozy Friedman, uma das primeiras a abrir um cabeleireiro para crianças, Cozy 's Cuts for Kids, tem três salões em Nova York, e tem linhas de produtos de cabelos, maquiagem e esmalte para meninas.

E não são só as meninas. Grant, do NPD Group, diz que um dos recentes sucessos do mercado são os sprays de desodorante para o corpo, como o Axe e o Tag, originalmente para homens, mas que rapidamente foram adotados por adolescentes e meninos. Quase de um dia para outro, nasceu um mercado de milhões de dólares, diz ela.

"Chamo de fenômeno mini-metrossexual", diz Friedman, cujos dois filhos pré-adolescentes que já têm preferências muito específicas de produtos para dar estilo ao cabelo.

"Tudo com moderação..."

O que mudou nos últimos anos, diz Friedman, é a aceitação dos pais da idéia de cosméticos para crianças, desde que haja produtos apropriados -brilho para o lábios, digamos, em vez de batons vermelho sangue- que não deixem seus filhos parecendo adultos assustadoramente pequenos.

"Tudo bem ter orgulho da aparência, criar bons hábitos e construir auto-estima, desde que isso não ocupe toda sua vida", diz Friedman.
"Qualquer coisa com moderação pode ser boa."

Meninas e suas mães já estão convencidas.

Na Eclips Kids Salon & Spa em Ashburn, Virgínia, seis meninas recentemente celebraram o aniversário de Allie Ragan com uma festa que incluía manicure, pedicure, penteados e sacolas de lembranças.

Sua mãe, Deborah Ragan 36, professora notou que sua turma de primeira série já anda com brilho nos lábios.

As meninas "estão mais envolvidas com a beleza do que Allie quando tinha essa idade", diz Ragan.

No campo de golfe Pinehurst, na Carolina do Norte, que abriu seu spa para juventude em 2004, Danielle Cormier, 10, recentemente celebrou seu aniversário com cinco outras meninas.

"As crianças deveriam experimentar, mesmo se não gostarem, só para ter a experiência", diz Danielle.

Sua mãe, Tracy Cormier, 45, co-proprietária do Pinehurst Track Restaurant, também adora ir ao spa, especialmente para nutrir o laço mãe-filha.

"Quando minha mãe vem nos visitar, vamos todas juntas fazer as unhas -três gerações sentadas, bebendo vitamina de morango." Deborah Weinberg

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