Do pó da guerra, um Hizbollah mais potente?

Rich Jervis e Andréa Stone
em Beirute, Líbano

Hiyam Al Ameh analisou a pilha de pedaços de madeira e concreto que era sua casa em um subúrbio do Sul de Beirute antes dos jatos israelenses a pulverizarem.

Al Ameh, 42, diz que seus dois filhos, de 21 e 16 anos, nunca se envolveram com militantes do Hizbollah, milícia que no último mês lutou contra forças israelenses no Líbano. Agora, ela insistirá que os dois ingressem na força xiita. "Eles não querem, mas vou mandá-los", diz Al Ameh, contadora. "Há uma causa agora. E você tem que executá-la, mesmo que morra por ela."

Moradores de Beirute voltaram nesta semana, com o início de um cessar-fogo, para seus bairros arrasados e encontraram uma cidade dramaticamente transformada pelo Hizbollah, cujo ramo militar provou-se muito mais duro e melhor armado do que até mesmo seus defensores imaginavam.

Resistindo por mais de um mês contra Israel, o exército mais poderoso do Oriente Médio, o "Hizbollah mostrou que é uma potência", disse Fawas Gerges, especialista em Oriente Médio que ensina no Colégio Sarah Lawrence em Bronxville, N.Y.

Alguns vêem mais do que um triunfo militar. O Hizbollah, que já é uma força política e social temível no Líbano, onde é parte do governo do primeiro-ministro Fuad Saniora, emergiu como antagonista a Israel na região.

Michael Oren, historiador militar israelense e autor de "Six Days of War:June 1967 and the Making of the Modern Middle East" (seis dias de guerra: junho de 1967 e a criação do Oriente Médio moderno), diz: "o Hizbollah emergiu dos 34 dias de combate como defensora do mundo árabe".

Os EUA estão tirando uma lição diferente do conflito. O presidente Bush disse nesta semana que o Hizbollah perdeu. E perguntado na terça-feira se o Hizbollah fora politicamente fortalecido pelo conflito, a secretária de Estado Condoleeza Rice disse ao USA Today: "Eles conquistaram o que não tinha sido alcançado antes, a transferência do exército libanês para o Sul, para substituí-los como força militar."

Os EUA patrocinaram fortemente a campanha militar israelense para tirar o Hizbollah de uma vez por todas do Sul do Líbano. Rice disse na terça-feira (15/8) que o governo Bush via o conflito como uma oportunidade para criar "uma situação fundamentalmente diferente" na fronteira de Israel com o Líbano.

Mas o fracasso em eliminar o arsenal do Hizbollah e conseguir a liberação dos dois soldados cuja captura gerou o conflito, entretanto, deixou a liderança israelense cambaleando. O primeiro-ministro israelense, Ehud Olmert, admitiu na segunda-feira "deficiências" na forma como a guerra foi travada.

"O Hizbollah demonstrou que a total derrota árabe não é inevitável... Israel perdeu sua tremenda vantagem psicológica", disse George Friedman, analista e CEO da Stratford, firma de inteligência privada de Austin.

Isso pode encorajar antigos adversários de Israel, especialmente a Síria, que quer as Colinas de Golan capturadas por Israel em 1967. "Israel será considerado por seus inimigos como fraco, coagido e com problemas de funcionamento", disse Aaron David Miller, ex-negociador dos EUA para o Oriente Médio agora no Centro Woodrow Wilson em Washington.

Golpe na estratégia americana

O conflito também foi um golpe para a campanha de Bush que pretende levar a democracia para a região. A situação promoveu o Irã, principal patrocinador do Hizbollah, e xiitas em toda parte -inclusive no Iraque, onde "primeiro (os xiitas) viram os limites do poder americano e agora estão vendo a expansão do poder iraniano", diz Friedman.

Quanto às esperanças americanas e israelenses que o conflito criaria um forte governo libanês capaz de neutralizar o Hizbollah e a influência síria e iraniana no país, o oposto parece estar acontecendo. Segunda-feira, o líder do Hizbollah, Hassan Nasrallah, prometeu que seu grupo não seria desarmado por "intimidação ou pressão" -uma referência a uma resolução da ONU aprovada na semana passada que exigia que o Hizbollah depusesse suas armas.

Ao longo dos anos, o Hizbollah desafiou a pressão internacional e local para que se desarmasse, alegando que estava protegendo o país contra Israel, disse Misbah Ahdab, legislador sunita próximo ao primeiro-ministro do Líbano. O conflito recente vai reforçar essa posição, diz ele.

"A batalha nem terminou, muito menos a guerra", diz Amal Saad-Ghorayeb, especialista libanês em Hizbollah. "o Hizbollah vai ficar literalmente colada em suas armas."

O governo do Líbano agora enfrenta escolhas difíceis: se não encontrar uma forma de desarmar o Hizbollah, diz Ahdab, pode se tornar um alvo de outras ações militares israelenses e de isolamento internacional. Se confrontar o Hizbollah e tentar tirar suas armas, arrisca rachar o governo, que tem apenas um ano, e gerar nova guerra civil.

Organizada por xiitas

O Hizbollah, ou "Partido de Deus", foi formado em 1982 por militantes xiitas e membros da Guarda Revolucionária Iraniana, enviados para o Vale do Bekaa do Leste do Líbano, controlado pela Síria, para lutar contra a invasão israelense. Aproveitando a comunidade ampla e desafeiçoada de xiitas do Líbano, o Hizbollah recrutou extremistas dispostos a morrer pela causa.

Soldados suicidas do Hizbollah foram culpados pelo atentado a bomba de 1983 no alojamento de Marines que matou 241. Líderes do Hizbollah negam envolvimento no ataque.

Depois de Israel retirar suas forças do Líbano em 2000 -feito que o Hizbollah considerou como conquista sua- o grupo passou os próximos seis anos armazenando armas e treinando com especialistas militares iranianos, dizem analistas militares como Jacob Amidror, general israelense aposentado e ex-chefe interino de inteligência militar. Amidror e outros dizem que o Irã enviou armas russas, iranianas e chinesas pela Síria. Os equipamentos eram enviados para Damasco e depois contrabandeados para o Líbano em comboios de caminhões.

Quando o confronto começou, no dia 12 de julho, o arsenal da milícia incluía cerca de 13.000 foguetes, inclusive "as melhores armas" do mundo, diz Amidror. O Hizbollah lançou quase 4.000 mísseis de curto e médio alcance contra o Norte de Israel, no último mês.

Talvez o fator mais central da resistência do Hizbollah tenha sido os 3.000 membros "regulares" de seu exército altamente treinado, diz Barak Ben-Zur, ex-membro do serviço de segurança de Israel Shin Bet. Outros 10.000 ou 12.000 partidários no Sul do Líbano fornecem apoio logístico e militar.

"Eles têm sua missão, não importa o que esteja acontecendo em outros lugares", diz Ben-Zur. "Eles têm a mente de jihad, de martírio, e vão continuar a lutar até o último."

Militantes foram recrutados para proteger suas próprias vilas. Durante as batalhas, unidades especializadas treinadas em explosivos foram de aldeia em aldeia em motocicletas para lançar ataques. Muitos se esconderam em abrigos e túneis subterrâneos equipados.

A tática roubou de Israel uma vitória rápida e avassaladora. Durante sua ofensiva de 1982 contra combatentes palestinos no Líbano, as forças israelenses chegaram a Beirute em apenas nove dias. Desta vez, encontraram uma rede de guerrilheiros bem organizada, armada com mísseis antitanque russos que facilmente demoliram os principais tanques de batalha Merkava de Israel.

A milícia xiita dirigiu a guerra a partir de postos de comando sofisticados e computadorizados. A estação de televisão do Hizbollah, Al Manar, permaneceu no ar apesar dos constantes ataques aéreos contra suas instalações e travou a guerra de relações públicas.

Apesar da infra-estrutura e economia incipientes do Líbano terem sido devastadas pelos ataques israelenses e ao menos 800 libaneses morrerem, o Hizbollah conseguiu algo que nenhum outro exército árabe conseguiu: "Provou que pode se manter firme contra o exército muito mais poderoso de Israel", diz Robert Malley, diretor de Oriente Médio do Grupo de Crise Internacional, de pesquisa em resolução de conflitos.

As armas mais fortes do Hizbollah são sua organização e disciplina, diz Timor Goksel, conselheiro de longa data das forças da ONU no Líbano e hoje professor de ciências políticas da Universidade Americana em Beirute. Depois de cada ataque israelense no Sul de Beirute, por exemplo, trabalhadores do Hizbollah entraram e limparam os destroços das ruas -um nível de coordenação que não havia na guerra civil dos anos 70 e 80, diz Goksel.

Solidificando sua imagem

Agora, o Hizbollah está flexionando seu músculo político e tentando solifidicar sua imagem como organização humanitária e protetora de xiitas desafeiçoados do país, que são 20% da população, aproximadamente. Em discurso transmitido pela televisão na segunda-feira, Nasrallah prometeu pagar o aluguel por um ano de apartamentos mobiliados para as famílias que moravam nas 15.000 casas destruídas pela guerra.

Nasrallah não disse de onde viria o dinheiro. O secretário de defesa Donald Rumsfeld disse ao Senado neste mês que o Irã é "o principal patrocinador financeiro e militar" do Hizbollah.

O Hizbollah já dirige um programa social que inclui hospitais, clínicas e escolas no Sul. O trabalho de caridade criou seguidores zelosos, que, combinados com o recente confronto com o exército israelense, tornou o Hizbollah uma força política temível na região, diz Walid Jumblatt, líder da comunidade drusa do Líbano.

Líderes do Hizbollah estão usando o recente conflito contra Israel para conquistar objetivos políticos, diz Ahdab, legislador sunita. Ele diz que algumas vezes eles aludem a opositores políticos no governo libanês como "colaboradores de Israel".

Alguns libaneses, não só cristãos e muçulmanos, mas também da comunidade xiita do Hizbollah, talvez questionem se o conflito valeu a extensiva destruição e mortandade acarretadas pelas ações do Hizbollah, diz Goksel, professor da Universidade Americana em Beirute. "Eles vão ter que explicar ao povo porque valeu a pena", diz ele.

Nasrallah e outros líderes do Hizbollah, inclusive membros do gabinete, já estão usando sua nova influência política. Eles dizem que outras questões devem ser resolvidas antes de pensarem em desarmamento. A especialista libanesa Saad-Ghorayeb diz que entre esses itens estão: o destino de prisioneiros libaneses nas mãos de Israel e Sheba Farms, uma região disputada que o Líbano quer, mas a ONU declarou que era parte da Síria depois que Israel ocupou a região, em 1967. Ela diz que forçar a milícia a deixar as armas criaria rachas perigosos no governo libanês.

Segundo Jumblatt: "A sociedade libanesa não pode se dar ao luxo de ir contra um homem (Nasrallah) que representa 20% da população libanesa, talvez mais agora."

"Se Israel não conseguiu desarmá-los, quem poderá?" pergunta Saad-Ghorayeb."Domesticamente, eles têm muito apoio."

Para marcar o início do cessar-fogo, na segunda-feira, moradores de subúrbios bombardeados do Sul em Beirute acenaram com enormes bandeiras amarelas do Hizbollah ou retratos de Nasrallah.

Entre eles, estava Lubna Hamze, 23, que foi ver o apartamento destruído que dividia com a irmã. Apesar de perder sua casa -agora mora com parentes em Beirute- e da suspensão indefinida de seus estudos de sociologia na Universidade Libanesa causada pelos combates, Hamze diz que apóia a luta do Hizbollah. "Passaria por tudo de novo", diz ela sorrindo. "Um milhão de vezes." Deborah Weinberg

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