Christina Aguilera... com confiança

Edna Gundersen
em Beverly Hills

Christina Aguilera, com seus 1m57 aconchegados no sofá da suíte do hotel, está explicando sua opinião sobre o poder da mulher quando se assusta com um inseto que entra pela janela.

"Aiiii", grita levantando-se. "Acho que é um mosquito! Fico empolada com mosquitos!" Ela pega uma revista, sobe no sofá com seu salto alto preto e esmaga-o na parede.

"Eca, nojento", diz ela, voltando a sua pose anterior e olhando a carnificina. "Espero que essas pernas não caiam em mim."

Não é o primeiro chupador de sangue que cruza sua carreira. Aos 25 anos, Aguilera é veterana do ramo; encontrou os holofotes pela primeira vez como concorrente do "Star Search", aos oito anos.

"Estou neste ramo desde muito cedo, e tinha sujeitos 20 anos mais velhos dando em cima de mim quando eu ainda era menor. Isso aguça seus instintos sobre as pessoas", diz ela. "Aprendi rápido. Fui magoada por muitas pessoas em quem achei que poderia confiar, pessoas que tentam chegar em você pelas razões erradas. Coloquei uma armadura. E nunca deixo os obstáculos me destruírem."

Confiança, desafios, cicatrizes, vulnerabilidade e o amor recente que dissolveu suas defesas aparecem em "Back to Basics", um álbum duplo mergulhado em jazz antigo, blues e soul, que ela descobriu na infância.
Enquanto "Basics" evita a vulgaridade de "Stripped" de 2002, ela continua provocadora em "Still Dirrty" e "Nasty Naughty Boy". E assim como "Stripped" liberou-a dos limites do pop adolescente de sua estréia de 1999 e do sucesso de "Genie in a Bottle", "Basics" busca o próximo degrau: de garota pop para artista respeitável.

Seu terceiro álbum de estúdio em inglês, que será lançado nesta semana, é dividido entre visões modernas e antiquadas de músicas que amava desde o colégio. Ela lista Aretha Franklin, Billie Holiday, Etta James e Ella Fitzgerald entre suas principais musas.

Em vez de usar uma coleção costumeira de standards, Aguilera canta músicas antigas com uma levada moderna para que seu público mais jovem possa se identificar e apreciar, diz ela. "Não queria excluir ninguém. Sempre fui atraída pelo blues antigo, jazz e soul, e sabia que eventualmente faria minha própria interpretação disso em um sentido moderno."

Inicialmente, os executivos da RCA expressaram alarme quando Aguilera indicou o desejo de lançar um álbum duplo, um risco no atual ambiente de vendas em queda.

"Neste mercado, todo mundo se preocupa com o preço e com a capacidade de vender um álbum único, ainda mais duplo", diz Caron Veazey, vice-presidente de marketing da RCA. "Houve trepidação, mas essas questões foram superadas logo, quando nós nos sentamos e Christina tocou as 22 faixas do disco. Ficamos impressionados. Todo mundo entendeu que esse é um trabalho artístico compreensivo."

'Gênio' que saiu da garrafa

Fãs não parecem chateados com a mudança de estilo da cantora. "Ain't No Other Man" é um dos 10 sucessos de rádio. O vídeo ficou entre os três melhores da MTV desde o lançamento, em junho. O disco deve chegar a No. 1 da Billboard na próxima semana.

"O comércio diz que está brilhante", diz Veazey. "As opiniões on-line dizem que o trabalho é genial. E o público não é apenas de adolescentes. Christina se orgulha de ampliar os limites, não seguir a tendência e não criar música pasteurizada. Ela está redefinindo o que é a música pop no mercado."

No Disco 1, o mestre do ritmo DJ Premier mistura uma vibração da velha escola com ritmos hip-hop e tecnologia. Apesar de não ter as credenciais de mega sucesso, Aguilera admirava seu trabalho com Gang Starr e Biggie Smalls e seu uso de frases obscuras de jazz no rap. Aguilera reúne-se com a produtora Linda Perry para o segundo disco, com um quarteto de cordas, sopro, orquestra e coro. As duas excomungaram baterias eletrônicas, samples e covers em favor de instrumentos ao vivo.

"Nós nos estimulamos a sair de nossas zonas de conforto", diz Aguilera.
"Como em 'Save Me from Myself', uma canção que não tem grandes notas, e sou muito suave. Isso ajudou a contar história sobre como eu me sinto em meu estado mais vulnerável com este homem na minha vida."

"Basics" destranca o diário de Aguilera e conta uma série de eventos pessoais, desde uma briga com o produtor Scott Storch ("F.") ao ambiente doméstico violento que finalmente levou sua mãe a deixar seu pai ("Oh Mother"). O motivo central é sua afeição vertiginosa por Jordan Bratman, com quem ela se casou em novembro último, depois de quatro anos de namoro.

"Ele é meu melhor amigo", diz Aguilera, alegrando-se. "Ele trouxe muito amor para minha vida. Ele me ajudou a fazer as pazes com meu passado, e é a pessoa que consegue me tirar dos meus dias piores. Ele tem seus próprios sonhos e objetivos, mas me apóia no que eu quero criativamente. Ele está disposto a agüentar meu estilo de vida e tudo que acarreta. Ele é muito ambicioso, mas não quer o holofote."

Como sua casa era violenta, Aguilera teve dificuldade em confiar nos homens e desenvolver ligações sérias. Ela nunca sonhou com o casamento, e até na escola era mais focada na carreira do que louca por meninos. A música era um refúgio constante, começando aos 3, quando viu pela primeira vez Julie Andrews em "A Noviça Rebelde".

"Vendo-a dançar pelas montanhas -ela parecia tão livre", diz ela. "Eu tocava a trilha no meu quarto, abria a janela e cantava para o mundo. Queria o mesmo sentimento."

Aos 6 ou 7 anos, sua avó apresentou-a ao jazz e a cantores apaixonados que levaram Aguilera de uma casa abusiva para um mundo adulto do coração partido.

"Esse foi um grande trauma", diz ela do período antes de seus pais divorciarem-se, quando tinha 7 anos. "Eu estava tentando escapar do caos. Toda criança merece um lugar seguro. Algo sobre como aquelas mulheres cantavam e os músicos tocavam -eles sentiam dor. Dá para ouvir uma emoção angustiada e crua em Billie Holiday ou Nina Simone. Etta James não cantava simplesmente. Ela urrava. Agora posso olhar para trás e entender que reconheci o sofrimento que transmitiam nesses discos. Parecia real para mim."

O caos doméstico também alimentou sua ambição profissional e decisão de ser auto-suficiente.

"Decidi que nunca ia me sentir impotente, especialmente com um homem", diz ela. "Eu sempre estava tentando fazer as coisas sozinha. Como nunca tive uma figura de pai, acabei achando que eu seria meu próprio protetor."

Mais paqueradora e menos sexy

A independência também significou rebelião sexual e um armário de roupas para combinar. Os trajes de stripper foram empurrados para o fundo do armário para esta fase de renovação. Hoje ela está positivamente recatada, vestindo calças capri pretas, blusa azul e casaco cinza. Cílios longos e negros e um penteado estilo Harlow substituíram as sombras exageradas e tranças.

Apesar de ainda audaciosa em certos pontos, "Back to Basics" tem menos da sexualidade agressiva de "Stripped". Naquela época de vídeos e roupas sensuais, alguns críticos e até fãs lamentavam que Xtina, que tem um piercing na genitália, cruzara o limite entre provocação divertida para exibicionista libertina. Aguilera diz que as críticas advêm de duplos padrões.

Ela não se arrepende de nenhum de seus vídeos, fotos ou roupas lascivas e vê qualquer erro como parte de seu processo de crescimento. Ela diz: "Com cada queda ou obstáculo, você aprende com a reação. Se vou fazer algo, vou fazer até o fim, não importa as críticas ou elogios."

E se não houvesse temperos picantes em sua cozinha? Será que Aguilera, que agora busca respeitabilidade, teria tido sucesso sem esses ingredientes?

"Hmm, não sei", diz ela. "Definitivamente não teria gerado tanta controvérsia. Muitas pessoas dizem: 'Você sabe cantar. Então para que essas coisas?' Só porque tenho voz, sou só isso? É muito mais do que entrar em um estúdio e cantar um monte de músicas. Quando me expresso por meio da música, quero expressar quem sou. Algumas vezes quero sentir o poder da minha sexualidade. Tendo sentido tão confinada em meu primeiro disco, 'Dirrty' para mim era liberdade."

A vamp platinada de fato tem quatro oitavas na voz, o que dá a ela algo mais sobre as rivais Britney Spears e Jessica Simpson. Ela ainda tem que se provar como compositora, ao menos para os críticos que torcem o nariz para o nível de obsessão da artista consigo mesma em "Basics". O jornal The Guardian observou: "Aretha Franklin não montou sua reputação com músicas sobre ser Aretha Franklin."

A resposta de Aguilera? Ela escreveu "Thank You" para que pudesse retribuir a gratidão dos fãs. Mas espere. Essa música está cheia de mensagens de fãs exaltando a cantora.

"As cartas de fãs que recebo não me pedem para escrever sobre outras pessoas", atira de volta. "Vou escrever músicas sobre mim. Há um elemento terapêutico para mim, mas vou fazer para ajudar a dar voz às pessoas. Muitas das mensagens dos fãs me agradecem por ajudá-los a entenderem seus próprios problemas pessoais. Acho que é um disco muito generoso. Estou agradecendo meu marido pelo amor e pela vida. Os artistas que eu aprecio se colocam na linha de fogo. É para aí que eu gravito, para a uma coisa verdadeira."

Ao se alinhar com os gigantes do jazz e do soul, Aguilera diz que sabe que arrisca a convidar comparações. Ela está meramente se curvando à grandeza, não se insinuando nessa linhagem.

"Admiro essas pessoas. Estou meramente homenageando, expressando meu amor e dizendo: 'Vamos lembrar quem veio antes de nós.' De forma alguma estou dizendo que posso fazer melhor."

Ao reviver as canções e estilos de heróis do passado, de Otis Redding até Andrew Sisters, Aguilera está elevando o nível do universo pop, onde o ritmo supera o vocal e os estilistas de vídeo têm padrões mais altos do que as gravadoras.

"Não vou culpar os artistas", diz Aguilera. "Eu direcionaria a atenção aos selos e às pessoas que têm a habilidade de contratar enormes talentos, mas não o fazem porque tendem a escolher visual mais do que vocal. Os selos vendem qualquer coisa. Com a tecnologia de hoje, você gira dois botões e pressiona outros dois e faz qualquer um ter a voz que quiser."

Nada de voltar ao "básico"

Apesar de sua aventura pelo tempo, ela não vai repassar antigos discos de vinil tão cedo novamente.

"Eu me enjôo facilmente", diz ela. "Foi isso que me inspirou agora. É isso que sinto que deve sair de mim. O próximo disco será algo muito diferente."

Não será comportado.

"Não faço nada em silêncio', diz Aguilera. "Tento me superar e desafiar outros a pensarem fora de suas zonas de conforto. Entro sabendo que algumas pessoas vão adorar e outras vão odiar. Dou passos audaciosos, e nem todos vão entender o que estou fazendo. Tenho que fazer o que é certo para mim. Tenho que poder dizer ao menos que corri atrás."

Não há nada de Mickey Mouse no currículo de Aguilera:

8: idade em que participou do concurso "Star Search" (e perdeu)

12: entrou para o Novo Mickey Mouse Club

8,1 milhões de cópias vendidas do disco de estréia de 1999, com "Genie in a Bottle"

19: idade em que venceu o Grammy de melhor artista nova de 1999

3: total de Grammys (venceu também colaboração pop em 2001 por "Lady Marmalade" e pop feminino em 2003 por "Beautiful")

469.000 cópias vendidas de "Mi Reflejo", em espanhol, de 2000

843.000 cópias vendidas de "My Kind of Christmas", de 2000

160.000 singles vendidos do dueto de 2001 com Ricky Martin, "Nobody Wants to be Lonely"

4 milhões de cópias vendidas de "Stripped", de 2002

533.000 de downloads vendidos do atual single "Ain't No Other Man"

25 milhões: total de discos vendidos até hoje no mundo todo. Deborah Weinberg

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