Nos EUA, doenças mentais não são mais ignoradas nos locais de trabalho

Stephanie Armour

A princípio, parecia que algumas coisas sem importâncias não estavam correndo bem. Bonnie Harris se esquecia dos encontros marcados para vendas; ela era incapaz de se lembrar dos nomes dos colegas de trabalho. Mas, à medida que o seu emprego como vendedora foi ficando mais estressante, Harris passou a sofrer de intensas variações de humor e de momentos de terror. Ela foi a psiquiatras, que lhe prescreveram várias medicações, mas as drogas só pioraram a situação.

Em determinado momento, ela tentou se jogar pela janela.

Mas Harris - que quando mais nova foi vítima de um crime violento - só foi capaz de se recuperar com o auxílio de terapia e meditação após ter sido diagnosticada como portadora da desordem de estresse pós-traumático (PTSD, na sigla em inglês). Mas durante todo o episódio, em 1991, ela continuou trabalhando, tentando ocultar o que estava ocorrendo.

"Eu ia trabalhar todos os dias. Era uma das principais vendedoras, trabalhando 60 horas por semana", conta Harris, 44. "Os colegas de trabalho sabiam que eu era irritadiça, mas ninguém conhecia a gravidade do meu problema. Ninguém diz às pessoas no trabalho que sofre dessa doença mental. É muito vergonhoso".

Atualmente, Harris é dona da sua própria firma, a Wax Marketing, em Saint Paul, e sabe como lidar com a PSTD quando os sintomas surgem. Apesar do estigma, cada vez mais patrões e empregados estão falando sobre um tópico que há muito é um tabu: doenças mentais no ambiente de trabalho. A saúde emocional dos funcionários, um assunto que no passado parecia incompatível com a arena corporativa na qual impera a ideologia da sobrevivência do mais forte, está chamando atenção como algo muito importante. Os patrões estão expandindo os seus serviços de saúde mental à medida que novas pesquisas revelam os prejuízos enormes que as desordens de humor - depressão, ansiedade e desordem do pânico, desordem bipolar, esquizofrenia e desordem obsessiva-compulsiva - podem representar para os negócios.

Por exemplo:

- Altos custos. As doenças mentais não tratadas custam aos Estados
Unidos US$ 105 bilhões em produtividade perdida por ano, sendo que os empregadores norte-americanos arcam com US$ 44 bilhões desse montante, de acordo com a Associação Nacional de Saúde Mental, uma organização sem fins lucrativos com sede em Alexandria, Virginia.

- Ameaça de ações na justiça. Diretrizes federais baixadas em 1997
explicam como os patrões podem fazer ajustes nos casos de funcionários que sofrem de desordens graves de humor. Aqueles que não fazem ajustes, como a modificação dos horários de trabalho dos funcionários, podem ser processados. As diretrizes consistem em interpretações mais detalhadas da Lei dos Americanos Portadores de Deficiências, aprovada pela Comissão de Oportunidades Iguais no Emprego (EEOC, na sigla em inglês). No ano fiscal de 2004, a EEOC reservou US$ 469 mil em indenizações para funcionários que alegaram ter sido alvos de discriminação por sofrerem de depressão: 889 processos foram abertos na justiça. Em 2005, tal quantia ultrapassou os US$ 3 milhões, e 1.005 processos foram abertos na justiça naquele ano fiscal.

"Os empregadores estão compreendendo melhor esse tipo de problema", explica Chris Kuczynski, conselheiro legal da EEOC. "Essas são doenças que não são vistas. Elas não são óbvias, de forma que representam desafios únicos para os patrões".

As ações movidas com base na Lei dos Americanos Portadores de Deficiências ficaram mais fáceis de serem ganhas à medida que a população passou a ter mais consciência das questões relativas à saúde mental.

- Maior ênfase no auxílio por parte do empregador. Alguns empregadores estão aumentando os programas de saúde mental. A proporção de firmas com programas de assistência ao empregado, que muitas vezes fornecem conselheiros e orientadores, aumentou de 68% em 2001 para 71% neste ano, segundo a Sociedade de Gerenciamento de Recursos Humanos. Sete em cada dez empresas fornecem seguro para doença mental. E atualmente 18% contam com programas para a recuperação de funcionários que perderam entes queridos, contra 12% em 2002.

O programa da General Motors fornece aos funcionários da empresa nos Estados Unidos o acesso ilimitado a aconselhamento por telefone com um profissional da área de saúde mental e até três sessões gratuitas de aconselhamento pessoal. A GM também ajuda os gerentes a decidir o que fazer quando um funcionário enfrenta problemas pessoais.

Lacunas na cobertura

Mas a cobertura dos problemas de saúde mental por parte das companhias é com freqüência menos ampla do que a cobertura dos problemas de ordem física. Os planos de saúde costumam restringir o número de vezes que um funcionário pode se consultar com um profissional de saúde mental, o que limita a cobertura. Os norte-americanos que sofrem de depressão e que contam com acesso limitado aos planos de cobertura de problemas mentais podem gastar US$ 18 mil anualmente para cobrir as despesas relativas à sua doença, segundo a Aliança Nacional de Doença Mental. E aqueles que contam com acesso limitado a tais tratamentos têm uma probabilidade quatro vezes maior de deixar o emprego.

Nos últimos anos, líderes famosos empresariais e do setor de entretenimento conferiram uma face mais humana às questões de saúde mental. Mike Wallace, do programa "60 Minutes", e o humorista Art Buchwald revelaram já ter lutado contra a depressão. A atriz Brooke Shields documentou a sua depressão pós-parto. A atriz Ashley Judd revelou ter procurado um centro de tratamento de depressão e outros problemas emocionais.

Mas, apesar da atenção, alguns funcionários que padecem de doenças mentais dizem que ainda não sabem como informar aos chefes sobre o que está se passando.

Sara Kobiela, 26, de Livonia, no Michigan, obteve um título de mestrado em serviço social, mas tem lutado para manter os seus empregos devido a uma depressão tão severa que a impossibilitou de tomar conta de si e que fez com que passasse quase que o dia inteiro dormindo. Ela já teve vários empregos, como o de secretária de arquivo em uma clínica médica e o de garçonete.

Kobiela diz que no seu emprego como garçonete o seu supervisor a apoiava bastante, permitindo que ficasse sem trabalhar por algum tempo, e que retornasse após os episódios de depressão. Mas ela acaba de começar a trabalhar em um novo emprego como conselheira em um centro atendimento a pessoas com problemas mentais, e até o momento não falou a ninguém a respeito do seu próprio problema. Ela toma antidepressivos e outros medicamentos para ajudá-la durante os episódios de depressão. Kobiela está esperando que o prazo de carência do seu plano de saúde permita que ela procure um profissional de saúde mental.

"A gente reluta em contar aos patrões, mas esse apoio é necessário no trabalho", diz Kobiela, que mora sozinha com três gatos. "Fico muito sobrecarregada e frustrada no trabalho, mas creio que posso lidar com isso. O maior problema é o estigma no emprego".

Ela diz que teme sofrer um colapso nervoso no trabalho. "Quando fico deprimida e tenho que realizar as tarefas do dia a dia, detesto a minha vida, mas o trabalho é a única coisa que posso fazer. Em tal situação, não consigo ser amigável com os colegas de trabalho. E eles não entendam porque eu fico tão hostil".

"Trabalhadores feridos"

Assim como Kobiela, muitos dos que sofrem de doenças mentais são jovens: esse tipo de enfermidade tem maior incidência na faixa etária de 15 a 44 anos, diz Joseph Calabrese, professor de psiquiatria da Universidade Case Western Reserve, e diretor do programa de desordens de humor da Universidade de Cleveland. A depressão é a doença mental mais comum. Os problemas de saúde mental podem prejudicar o rendimento no trabalho e fazer com que o funcionário falte ao serviço.

"Esses indivíduos vão trabalhar, mas eles são os 'trabalhadores feridos'", diz Calabrese.

Em muitos casos, aqueles com desordens de humor podem se candidatar a receber os benefícios trabalhistas previstos na lei federal para os norte-americanos portadores de deficiências, o que significa que os empregadores precisam implementar ajustes para ajudar os funcionários.

Para que uma desordem de humor seja considerada uma deficiência, ela precisa prejudicar uma importante atividade da vida da pessoa, tal como a capacidade do funcionário dormir ou de cuidar de si. Alguns tipos de ajustes incluem permitir que o funcionário trabalhe em casa, modificar os métodos de supervisão, encontrar uma nova função para o trabalhador ou mudar o seu horário de trabalho.

Mas os empregadores podem solicitar a apresentação de um documento que comprove a existência de doença mental, para que tenham certeza de que a desordem é legítima, e podem questionar se o problema se constitui realmente em uma deficiência segundo a Lei dos Americanos com Deficiências. Coisas como irritabilidade ou impontualidade crônica são consideradas características de comportamento, e não problemas mentais que exigem ajustes especiais. Os empregadores não precisam fazer ajustes caso isso implique em problemas exagerados, e não podem manter um funcionário no emprego, caso o indivíduo represente uma ameaça direta.

Lucinda DuToit, diretora de recursos humanos da Digineer, uma firma de consultoria tecnológica em Mineápolis, diz que os empregadores deixaram de ignorar a doenças mentais e passaram a tomar conhecimento delas quando se deram conta do vínculo existente entre a vida pessoal e a profissional.

Ela diz ainda que os empregadores costumam contar com mais lealdade por parte desses funcionários caso façam os ajustes necessários.

"Hoje em dia existe um entendimento maior das doenças mentais. No passado o empregador apenas se despedia do funcionário. Hoje ele se propõe a ajudar o empregado", afirma DuToit.

Mas alguns funcionários também entraram com ações na justiça, alegando que foi o local de trabalho que causou, ou agravou, os seus problemas de saúde mental.

O próprio local de trabalho

Os funcionários da Southwest Airlines às vezes fazem brincadeiras com os colegas de trabalho, assim que estes passam pela fase de estágio probatório. Mas a agente de serviços ao consumidor Marcie Fuerschbach diz que, no seu caso, essa brincadeira foi longe demais.

Ao final do estágio probatório no seu emprego em Albuquerque, os colegas de trabalho persuadiram policiais a algemá-la em uma falsa prisão. Segundo a ação que moveu, ela ficou apavorada e começou a chorar.

No final daquele dia, ao ser encontrada chorando no banheiro, Fuerschbach foi liberada para voltar para casa. Ela conta que teve que ser atendida por um psicólogo, e que recebeu tratamento para desordem do estresse pós-traumático. O tribunal determinou que ela fosse indenizada pela polícia, mas Fuerschbach perdeu a ação movida contra a Southwest.

O porta-voz da Southwest, Ed Stewart, diz: "Infelizmente a coisa tomou esse rumo. A intenção não era essa. Todos acabaram aprendendo com o episódio".

Mas Fuerschbach, que ainda está no mesmo emprego, diz que está tomando Lexapro, medicamento usado para o tratamento da depressão e da ansiedade.

"Eu achei que tudo fosse real. Tive certeza de que não era uma brincadeira", conta Fuerschbach, 48. "Foi uma tortura. Eu estava tremendo e chorando. Fiquei simplesmente chocada ao ser algemada com as mãos para trás. Depois daquilo, não fui mais capaz de trabalhar". Danilo Fonseca

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