Emmy precisa de conserto rápido

Robert Bianco

Bastam 15 segundos para ver como o Emmy vai mal.

Esse é o tempo, mais ou menos, do monólogo de Ellen Burstyn em "Mrs. Harris" da HBO, pelo qual foi indicada ao Emmy. Sua participação não foi tanto uma atuação, mas mais uma piada/saudação a Burstyn, que fez o papel de Jean Harris em um filme de televisão de 1981 (e colheu um Emmy muito mais merecido pelo trabalho). Independentemente disso, a questão é como alguém que assistiu à fita da HBO poderia ter pensado que as três linhas de Burstyn mereciam menção?

A resposta evidente é que não viram o filme. Os votantes da academia viram apenas um nome que conheciam e respeitavam e marcaram um x -um ato descuidado e, por fim, um insulto a Burstyn tanto quanto aos atores coadjuvantes em minisséries e filmes que tinham maior direito à nomeação.

Mesmo assim, por mais embaraçoso que sejam, os 15 segundos de Burstyn no Emmy poderiam ter sido irrelevantes se não fossem a ventania final em uma tempestade perfeita:

- Um novo sistema de nomeação foi criado, permitindo que conselhos de jurados escolhessem as principais nomeações (que não incluía a categoria de Burstyn). O resultado foi uma listagem bizarra, amplamente ridicularizada por várias e gritantes omissões.

- A academia foi forçada a aceitar uma nova data para a premiação, no final de agosto, pela NBC, que sacrificou o Emmy para servir seus novos mestres da Liga Nacional de Futebol. O resultado quase certo será baixa audiência de uma apresentação que já fica atrás de grandes premiações.

Em suma, depois de anos de esforço, a indústria de televisão conseguiu criar um prêmio no qual ninguém acredita e a maior parte das pessoas não assiste. Dê-lhes mais alguns anos e de fato conseguirão deixar o prêmio radioativo.

Então por que os telespectadores devem se preocupar? Afinal, como todo prêmio do entretenimento, o Emmy é uma criatura tão comercial quanto artística. As redes de televisão os apóiam porque geram publicidade gratuita e promoções.

Com todas suas falhas, o Emmy ainda é o mais importante reconhecimento público do bom trabalho -e isso deve importar para qualquer telespectador que queira que o bom trabalho seja estimulado. O Emmy simboliza o compromisso da indústria com a qualidade, e se o símbolo deteriorar-se, então o compromisso também talvez o faça.

A mensagem enviada pelo atual sistema é que a televisão não leva a qualidade a sério. Mesmo que seja verdade, não é uma mensagem desejável.

Como consertar a situação? Aqui vão cinco passos para um Emmy melhor.

1. Mudar o processo de indicação

Acabar com os conselhos de jurados é um bom começo, mas não pode ser o final. Sim, os conselhos voluntários que escolhem as indicações nas principais categorias deixaram de fora Hugh Laurie, de "House", Jason Lee, de "Earl" e "Lost", entre outros pecados. Mas foram os próprios associados, sem interferência dos conselhos, que optaram pelo desastre de Mrs. Harris.

O que nos trás ao quê da questão: o problema não é o método, são os membros -e nenhuma solução vai funcionar se não se basear nisso.

A falha dos procedimentos do Emmy sempre foi que as pessoas que dão os prêmios pela excelência na televisão não assistem televisão, ao menos não enquanto trabalham na televisão. Simplesmente não têm tempo.

O tempo, é claro, não era tanto um problema quando havia apenas três canais, no início do Emmy.

Mas o simples volume de material atualmente, com canais de televisão aberta e a cabo, simplesmente superou o sistema. Assim, freqüentemente os membros votantes recaem nos programas que tiveram os maiores índices ou a maior publicidade ou fizeram a melhor campanha pré-Emmy.

A resposta da academia tem sido contar com os vídeos selecionados pelos produtores e atores. Infelizmente, os vídeos podem criar tantos problemas quanto resolvem.

Como provaram os conselhos de jurados, é difícil julgar uma série complexa como "Lost" em um único episódio -e difícil justificar um sistema que confiaria uma decisão de "melhor série" a qualquer um que viu apenas um episódio de um concorrente tão óbvio ao Emmy.

Você pode culpar os produtores de "Lost" por não terem selecionado um episódio mais acessível, como alguns fizeram, mas isso parece tornar o principal objetivo dominar o sistema do Emmy. Você quer dar o Emmy ao produtor que fez o melhor programa, ou ao produtor que fez a melhor escolha quando chegou a hora de enviar uma gravação?

A verdade é que os membros não precisam de vídeos para as nomeações.
Precisam de ajuda. Eles nunca terão tempo para assistir vídeos suficientes para fazer uma decisão informada.

A solução é criar um comitê de premiação que possa temperar os excessos dos votantes. Deixe os membros da academia selecionarem uma lista de indicações, e depois deixe o comitê corrigir os erros gritantes, substituindo um nome ou, se parecer pouco democrático, acrescentando outro. Um sistema similar parece funcionar bem para o Grammy, então por que não funcionaria para o Emmy?

E quanto a quem deve estar no comitê, os votantes da academia devem escolher pessoas da indústria em quem confiam.

Acredite-me, com raras exceções, os executivos das redes sabem tudo que é bom e está no ar e o que não é. Eles simplesmente não admitem em público.

2. Mude a associação

Vá a qualquer filmagem de qualquer programa de televisão e verá que muitos ali não são membros da academia. E quanto mais jovens, menor a probabilidade de terem se associado.

Aqui vai uma solução fácil e rápida: dê associação automática de um ano a todos que trabalham em uma das 10 séries indicadas como melhores do ano. Com sorte, alguns dos artistas trabalhando ficarão. E se não ficarem, ao menos trarão novas vozes à discussão por um ano.

3. Esclareça a missão

O que exatamente o Emmy deve estar premiando?

Por exemplo, tomemos a categoria de melhor atriz em drama. Você pode
muito bem argumentar que Allison Janney de "West Wing" teve melhor atuação no episódio enviado aos votantes do que Kyra Sedgwick no seu episódio do "The Closer". Mas no curso da temporada, Sedgwick teve muito mais a fazer do que Janney e foi muito mais importante para o sucesso da série.

Então qual é exatamente o intuito do Emmy: premiar o melhor desempenho em um único episódio ou o melhor desempenho na série como um todo? Se a premiação é para melhor episódio único, então está bem enviar um episódio aos associados -como os indicados fazem agora nas principais categorias de atores. Se é por uma série, entretanto, serão necessárias mais gravações.
Então simplesmente terão que esperar que os votantes as assistam.

4. Policie as categorias

Vamos voltar à pobre Burstyn, maravilhosa atriz que merece mais do que ser símbolo da estupidez do Emmy. Você pode culpar muitas pessoas por sua indicação -os sujeitos que inscreveram seu nome, os membros que votaram nela e a própria atriz por não retirar seu nome.

Mas no final, o erro está na academia, que deveria ter um processo para classificar os atores nas categorias às quais pertencem e os remover de onde não pertencem.

Por anos demais, o Emmy permitiu que os atores escolhessem sua categoria, um processo que geralmente envolvia um entra e sai das categorias de acordo com a vontade do candidato.

Adoro Jon Cyer e fico feliz por ter sido indicado para melhor ator coadjuvante por "Two and a Half Men" -mas se ele não é co-ator principal neste programa, eles devem mudar o "Two" (dois) do título.

5. Trate o prêmio com mais respeito

Primeiro, isso significa nunca deixar que seja jogado para agosto novamente.

O Emmy deve estar ancorado em sua data tradicional: no domingo anterior à segunda-feira que inicia a temporada, em meados de setembro. O canal de televisão que não quiser cumprir este calendário deve perder seu lugar na fila para o direito de transmissão, com ou sem futebol.

Tratar o prêmio com algum respeito também significa lembrar os apresentadores que seu papel é ser anfitrião dos prêmios, não ridicularizá-los. Um pouco de noção da ocasião, por favor.

Afinal, se há algo que os membros da academia provaram neste ano, é que conseguem fazer do Emmy uma zombaria sozinhos, sem ajuda externa.

O ABC da Academia e do Emmy

A Academia de Arte e Ciência da Televisão é aberta a qualquer um que trabalhe ou trabalhou na televisão em nível nacional. A academia é dividida em grupos por profissão (atores, diretores, etc.) e os requisitos variam, mas basicamente para entrar é preciso enviar um pedido de inscrição, cumprir os requerimentos e pagar a anuidade.

A academia não divulga sua lista de associados, mas alega ter mais de 13.000 membros, e todos podem votar na categoria de melhor série do Emmy. Nas outras, com poucas exceções, os pares votam nos pares.

Neste ano, como sempre, a academia enviou a seus membros uma cédula listando as pessoas que inscreveram seu nome ou do seu programa na competição. As mais votadas tornaram-se as indicadas na maior parte das categorias.

Mas nem todas. Nas principais, um episódio de cada uma das 10 mais (ou 15) votadas foi avaliado por conselhos de voluntários que escolheram os indicados.

Depois, há uma segunda rodada de votação e uma sessão de DVD para escolher os vencedores. As séries fornecem seis episódios para análise, os atores fornecem um e atores coadjuvantes dois. Os membros podem participar dos conselhos e assisti-los, mas também podem assistir em casa. Deborah Weinberg

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