Se você quisesse assistir "Super-Homem", qual você escolheria hoje?

Kevin Maney

A indústria de cinema está presa a um debate sobre como tirar as pessoas de casa e levá-las aos cinemas nesta era de som surround, tela plana, e home theaters de alta definição.

O diretor de "Titanic", James Cameron, está promovendo fortemente os filmes de 3 dimensões. As cadeias de cinema estão fazendo experimentos com cadeiras mais confortáveis, drinques e telas gigantescas.

No entanto, há uma tendência mais profunda que move decisões e investimentos da indústria da mídia. Sugere que DVDs de alta definição, como o Blu-ray e o HD DVD não vão pegar fogo entre os consumidores em breve; que concertos ao vivo em teatros de bandas como U2 vão ficar mais populares; e que esportes ao vivo em telefones celulares podem se tornar um grande sucesso.

A tendência é a fidelidade. É uma chave para a estratégia do diretor da Netflix Reed Hastings, do investidor de tecnologia Roger McNamee, do diretor da Cisco John Chambers e de outros líderes da indústria. "É incrivelmente importante ao que estamos fazendo", diz McNamee, da Elevation Partners.

Os especialistas em tecnologia descrevem a fidelidade como a experiência total de algo. Ver um filme em um cinema lotado com tela ampla e o aspecto social de uma multidão é uma experiência de maior fidelidade do que assisti-lo em casa. Por sua vez, a experiência no home theater é de maior fidelidade do que ver o filme em um telefone celular.

Na música, os shows têm maior fidelidade do que um CD tocando em casa, que tem maior fidelidade que um toca-MP3.

No jogo da fidelidade, duas leis juntas levam todos os tipos de mudança na mídia -desde a explosão das músicas baixadas pela Internet até o desejo de Hollywood de fazer uma versão em 3D de "O Retorno do Super-Homem".

- Engenharia. A tecnologia digital pode promover constantemente maior fidelidade em pacotes mais baratos e menores.

Há trinta anos, música de bolso significava um rádio com som mínimo em mono. Há 15 anos, tínhamos o Walkman com fita cassete e chiado. Hoje, milhares de músicas digitais claras cabem em um iPod Nano do tamanho de um cartão de crédito.

Toda forma de mídia passa pela mesma transição: a fidelidade começa cara e grande e fica mais barata e menor. Essas transições estão acontecendo cada vez mais rapidamente.

- Comportamento do consumidor. Como diz Hastings, da Netflix: "As pessoas trocam conveniência por fidelidade."

Adoramos experiências de alta fidelidade: enormes shows de rock, filmes em telas largas, jogos da liga de futebol ao vivo. Mas esses tendem a ser caros e inconvenientes. Então fazemos trocas.

Se não podemos ir ao jogo da NFL, assistimos a partida em casa.
Eventualmente optamos por uma experiência mais conveniente, mas de menor
fidelidade: assisti-la por um telefone celular. Hoje é possível assistir vídeos em telefones, mas os grandes esportes de liga ainda não oferecem transmissões ao vivo para essa mídia.

"Os consumidores começaram a votar em favor de maior controle e customização da mídia, e consistentemente provaram que estão dispostos a sacrificarem a fidelidade para conseguir isso", diz Trip Hawkins, que fundou o Digital chocolate, que produz jogos baseando-se nessa premissa. A empresa faz jogos de baixa fidelidade que aproveitam as vantagens dos telefones celulares.

O custo é parte da conveniência. Quanto menor o custo, mais pessoas consideram-no conveniente. Um sistema de home theater por US$ 10.000 (em torno de R$ 22.000) não é uma ameaça aos cinemas. Um sistema doméstico de US$ 1.000 (aproximadamente R$ 2.200) sim.

Os dois conceitos juntos -fidelidade em pacotes menores e consumidores em busca de conveniência- tornam-se uma força poderosa.

Na medida em que a fidelidade fica mais conveniente, os consumidores repensam suas escolhas. Em certos momentos, a tendência cruza um limite. A fidelidade torna-se boa o suficiente em um pacote que é significativamente mais conveniente, e os consumidores são conquistados. Isso freqüentemente deixa os formatos antigos lutando para segurar consumidores.

O iPod atingiu tal limite. Os tocadores de MP3 existiam antes de a Apple criar o iPod e o iTunes, mas os sistemas anteriores não eram convenientes ou baratos o suficiente para compensar a menor fidelidade dos MP3s, que dão menos de um décimo do som dos CDs.

Depois do iPod, a música digital -legítima ou pirateada- decolou, enquanto os CDs caíram. Em 2005, a indústria informou que as vendas de CD caíram 8% para 667 milhões, enquanto os downloads de músicas cresceram em mais de 150%, para 353 milhões. A tendência está seguindo o mesmo curso em 2006.

A indústria da música, que obtém 90% de sua renda com CDs, está tentando salvar o disco aumentando sua fidelidade. É por isso que cada vez mais CDs vêm com videoclipes e músicas extra.

Repensando o multiplex

Os home theaters de alta fidelidade alcançaram preços acessíveis. A fidelidade é boa o suficiente em relação aos cinemas tradicionais e a conveniência é tão maior que as pessoas estão cada vez mais escolhendo ficar em casa.

Como resultado, Hollywood está lamentando uma queda nas bilheterias de 5% para US$ 8,8 bilhões (cerca de R$ 19 bilhões) em 2005, de acordo com o Exibitors Relations, que acompanha números do cinema.

O cinema em sua forma existente está no lado errado da equação fidelidade/conveniência. Por enquanto, a indústria está escolhendo competir melhorando a fidelidade da experiência do cinema para algo além do que as pessoas podem ter em casa.

Isso explica o movimento que defende filmes de 3D e experiências como o Malco Theatres, uma cadeia de Memphis que mostra filmes em telas de 20 metros usando projetores digitais NEC. O número de enormes telas Imax está crescendo.

Esses esforços "podem fazer as pessoas se levantarem e saírem de perto de seus aparelhos portáteis e de volta aos cinemas, onde deveriam estar", disse Cameron em um discurso em abril.

Exemplos da equação fidelidade/conveniência abundam. A telefonia celular decolou quando a qualidade e a conveniência (inclusive custo) ficaram boas o suficiente para vencer a maior fidelidade do serviço fixo.

Foi essa equação que operou quando os CDs superaram os LPs, o correio eletrônico venceu o correio comum e a fotografia digital venceu o filme.
Está em curso um boom de vídeo da Web, agora que um programa de televisão baixado para uma tela plana de computador pode parecer tão bom ou melhor que o mesmo programa enviado via cabo para uma televisão.

Um ponto importante: a maior parte das pessoas continua consumindo com base na equação fidelidade/conveniência. Geralmente gostamos de maior fidelidade quando podemos ter. Então fazemos escolhas constantemente.

Enquanto as linhas de telefone fixo tiverem melhor som que as chamadas por celular, as pessoas usarão linhas fixas quando estiverem em seus escritórios. A não ser que as transmissões de jogos da NFL possam algum dia transmitir a excitação da multidão em êxtase, as pessoas ainda agüentarão o inconveniente de ver os jogos ao vivo.

Se você olhar eventos na indústria com a lente da fidelidade, surgem tendências interessantes:

- DVDs de alta definição. Dois formatos estão tentando conquistar mercado, Blu-ray e HD DVD. Os patrocinadores dos formatos, como Sony e Toshiba, "estão apostando que as pessoas vão atualizar suas bibliotecas de vídeo, mas duvido um pouco disso", disse o investidor McNamee. Até agora, os consumidores estão recebendo os novos DVDs com bocejos.

Uma explicação pode ser que os novos DVDs não melhoram a fidelidade o suficiente em relação aos DVDs comuns, enquanto os DVDs de alta definição são menos convenientes -custam mais, não tocam em tantos aparelhos e são mais difíceis de encontrar.

Na Netflix, que envia DVDs aos assinantes, o diretor Hastings diz que usa a lente de fidelidade/conveniência para ajudar a guiar sua empresa em relação às novas tecnologias como Blu-ray ou vídeos on-line. Até agora, a Netlix está se atendo primariamente aos DVDs.

- Entretenimento ao vivo. Grandes turnês, como a do U2, Green Day e Cirque du Soleil, estão vendendo melhor e com preços mais altos que nunca. As vendas para os shows aumentaram 20% neste ano, dizem os promotores, e a revista "Pollstar" diz que a média de preço dos eventos subiu 16%.

Uma razão: a fidelidade de um mega-show ou uma atuação aprimorada não podem ser superada por nada.

"Essas são experiências de cair o queixo. É uma definição de experiência que você não pode tirar de um material pré-gravado", disse McNamee, que está buscando oportunidades de investimento no entretenimento ao vivo, junto com um de seus parceiros na Elevation, Bono o U2.

E não é só o show no palco, mas também o que acontece em torno.

"Com um show, os músicos podem responder à energia do público e há a possibilidade de um evento inesperado", diz Larry Downes, autor de "The Strategy Machine". "Então os altos custos de ir a um show são compensados não só pela fidelidade, mas também pela experiência social."

- Videoconferência. Apesar dos esforços em mais de 30 anos, a videoconferência ainda não se tornou um sucesso de mercado. Chamadas com vídeo decentes podem ser feitas por Skype, Yahoo e outros serviços -e essa conveniência está atraindo alguns usuários. Mas a videoconferência ainda não está substituindo as viagens de trabalho que permitem reuniões cara a cara.

É um problema de fidelidade. A fidelidade de ver alguém ao vivo ainda não é copiada pela tecnologia. "A videoconferência nos dá visão e som limitados e deixa todos os outros sentidos para trás", disse Downes.

Para pegar, a videoconferência terá que melhorar 10 vezes, ou chegar a uma reunião terá que ser muito menos conveniente.

No próximo outono...

Um dos dois, ou os dois podem acontecer. A Cisco está revelando neste outono tecnologia para prover algo chamado telepresença. Necessita de banda de transmissão muito larga para enviar imagens de alta definição para uma tela ampla. O diretor Chambers promete que será uma experiência de grande fidelidade. "Poderei fazer uma reunião daqui a um ano usando a telepresença e obter 95% da eficácia de estar lá", disse.

Ao mesmo tempo, ameaças terroristas e restrições de bagagens de mão nos vôos podem tornar as viagens para reuniões muito mais inconvenientes. Então a equação de fidelidade/conveniência sugere que as pessoas podem começar a escolher fazer reuniões por teleconferência.

Enquanto isso, quando o cinema de seu bairro entrar para era de 3D e começar a servir martinis, você saberá porque. Deborah Weinberg

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