Quatro viúvas do 11 de Setembro expõem seu pesar em livro

Bob Minzesheimer
Em Nova York

O almoço com "as meninas", como chamam a si mesmas, começa com seu brinde tradicional, sincero: "Aos rapazes!"

Os rapazes eram seus maridos, três corretores e um banqueiro de investimento, todos mortos no World Trade Center há quase cinco anos.

Dez meses depois, em julho de 2002, suas viúvas, nenhuma com mais de 40 anos, se encontraram pela primeira vez para alguns drinques. Elas permaneceram para o jantar e no final formaram um clube do qual, como dizem, ninguém queria ser membro.

Elas o chamam de WC, as iniciais de "Widows Club" (Clube das Viúvas).

Elas choraram juntas, riram juntas, comemoraram os aniversários umas das outras e saíram juntas em férias. Elas até mesmo aprenderam a surfar juntas. No final, escreveram um livro juntas.

Tais memórias conjuntas, "Love You, Mean It" ("Te Amo, de Verdade", Hyperion, US$ 23,95), é o que traz as quatro mulheres ao almoço em sua mesa regular em um restaurante de Manhattan, The Grill, no Smith and Wollensky's.

Elas se sentam próximas de uma placa na parede em memória de um de seus maridos, Bart Ruggiere, que adorava comer ali.

O livro delas não é político, não é amargo. É quase todo sobre emoções, sobre o pior do pesar e o melhor da amizade. Ele lida com as perguntas das viúvas: Quando você remove a aliança de casamento? Quando você apaga a voz de seu marido da secretária eletrônica? Como encontrar uma nova vida sem esquecer da antiga?

O livro celebra as vidas e maridos que tinham antes do 11 de Setembro. Ele descreve a dor e os sentimentos de culpa, compartilha o desconforto de sair com alguém novamente e termina com uma crença compartilhada de que há esperança após a dor.

No almoço, elas completam os pensamentos umas das outras. É uma conversa semelhante a uma prova de revezamento:

"Nossos maridos eram muito parecidos. As pessoas queriam estar ao redor deles", disse Julia Collins.

"Eles eram simpáticos, generosos e divertidos", disse Claudia Gerbasi.

"Eles apreciavam a vida", disse Pattie Carrington.

"Eles viveram bem, cada dia", disse Ann Haynes.

"Nós freqüentemente dizemos que deveríamos ter nos conhecido antes", disse Collins.

"Mas assim é que estava destinado a ser", acrescentou Carrington.

Collins, 44 anos, que trabalha em marketing para a Liga Nacional de Futebol Americano (NFL), disse que "nossa mestre do picadeiro" é Gerbasi, 37 anos, uma diretora de vendas da Cole Haan, uma empresa de calçados. Gerbasi conheceu cada uma das outras separadamente e as convidou para um drinque após o trabalho 10 meses depois do 11 de Setembro.

O marido dela, Ruggiere, se sentava ao lado de Ward Haynes na Cantor Fitzgerald, uma firma que perdeu 658 funcionários no 11 de Setembro. Ele também conhecia Tommy Collins e Jeremy "Caz" Carrington, que trabalhavam em outras firmas. "Este foi meu consolo", ela pensou. "Bart reuniu o Clube das Viúvas."

Quando se reuniram pela primeira vez, elas conversaram e beberam por quase duas horas, então decidiram que era melhor comer.

Como lembrou Carrington, 39 anos, uma vice-presidente de banco: "Naquela época, eu mal conseguia fazer as coisas mecanicamente, permanecendo funcional; eu não me permitia operar além das exigências imediatas de levantar, me vestir, ir trabalhar, voltar para casa".

Naquela primeira noite, ela ficou aliviada em "não ter que responder a pergunta 'Como você está?' que nunca soube como responder". As outras viúvas não perguntaram.

Haynes, uma planejadora financeira de 44 anos de Rye, Nova York, temia se sentir "um peixe fora d'água". Das quatro, ela era a única com filhos -um adolescente e dois pré-escolares- e a única que morava fora de Nova York. Mas naquela noite, ela se lembrou de sentir: "Elas eram minhas novas amigas e íamos tornar a vida mais suportável, de alguma forma".

Elas também compartilhavam notícias: quem ouviu o quê da polícia. Apenas o corpo de Tommy Collins foi recuperado nas ruínas. Nenhuma das viúvas sabia algo sobre os últimos momentos de seus maridos.

Apenas Gerbasi recebeu um telefonema. "Um avião atingiu meu prédio", seu marido lhe disse. "Eu estou bem. Este lugar está uma loucura. Eu vou sair daqui. Eu preciso ir." Ela disse que "desde a primeira vez que Bart me disse que me amava, nós nunca encerramos uma conversa sem dizer 'Eu te amo'. Repentinamente tive um pressentimento ruim".

Mas depois, quando o Clube das Viúvas se reuniu pela primeira vez, "um laço foi forjado". Como escrevem, "não há pausas incômodas entre nós. Ninguém mais sente pena por ninguém. Ninguém disse: 'Tudo vai ficar bem'".

Um ano depois, amigos começaram a sugerir que elas deviam escrever um livro. Cada uma manteve um diário após o 11 de Setembro. Collins disse que foi "uma forma de encontrar uma voz para todas as conversas que ainda mantínhamos com nossos maridos".

Gerbasi ingressou em um curso de redação, pensando que "seria terapêutico". Independente do exercício, ela escrevia sobre seu marido até que a professora sugeriu que escrevesse sobre outra coisa. "Eu escrevi sobre meu pai falecido", ela disse. "Eu mostrei para ela!"

A idéia de um livro parecia "um desejo irreal", como colocou Haynes, até uma festa de aniversário, em setembro de 2003, para o novo namorado de Gerbasi. As viúvas conheceram por acaso um escritor que as colocou em contato com um agente e, como disse Collins, "a coisa toda começou a rolar como uma bola de neve".

Àquela altura, disse Gerbasi, "nós não queríamos incomodar outras pessoas sempre falando sobre nossos maridos".

O editor delas as ajudou a encontrar uma escritora profissional, Eve Charles. O trabalho dela foi organizar o material para contar uma história coletiva, preservando ao mesmo tempo a voz individual de cada viúva.

As viúvas se reuniram com Charles todas as noites de segunda-feira por quase um ano. As tarefas de redação semanais eram entregues às quintas-feiras: Escrevam sobre 11 de Setembro. Escrevam sobre como conheceram seus maridos. Escrevam sobre seus sonhos.

Charles editava o que escreviam até a segunda-feira seguinte. As viúvas liam em voz alta, faziam perguntas e estimulavam mais lembranças.

"Às vezes caíamos no choro e Eve se perguntava se tinha ido longe demais", disse Collins. "Mas aquela era nossa forma de pesar. Escrever se tornou parte de nosso pesar."

Cada mulher lidou de forma diferente com sua viuvez.

Haynes deixou de usar suas alianças de noivado e casamento. "Apenas outro passo na aceitação lenta e dolorosa do completamente inaceitável", ela disse.

Collins ainda usa sua aliança de casamento e "a aliança de Tommy (que foi encontrada no Ponto Zero) na minha mão direita".

Haynes disse que ainda mantém a "voz de Ward no meu celular. Algumas pessoas adoram, algumas odeiam, algumas acham maravilhoso telefonar apenas para ouvi-lo".

Collins manteve a voz de seu marido na secretária eletrônica até ela ser apagada durante o blecaute de 2003 em Nova York: "A forma de Tommy dizer: 'Pare de assustar as pessoas mantendo minha voz na secretária'".

Outras viúvas do 11 de Setembro escreveram memórias. "Let's Roll!" (vamos nessa) por Lisa Beamer, cujo marido, Todd, estava no vôo que caiu na Pensilvânia, foi um best seller em 2002.

O livro de Kristen Breitweiser, "Wake-Up Call: The Political Education of a 9/11 Widow" (despertar: a educação política de uma viúva do 11 de Setembro, Warner, US$ 24,99), descreve como ela e três outras donas de casa suburbanas, apelidadas de "The Jersey Girls", se tornaram ativistas políticas, lutaram por uma comissão independente para investigar o 11 de Setembro e criticaram as autoridades federais por reterem informação.

O Clube das Viúvas não fez nada disso, mas admira aquelas que fizeram.

Gerbasi escreveu: "Eu fiquei tão grata por aquelas que estavam se envolvendo (...) mas eu sentia que não podia lidar com mais nada no momento. (...) Eu queria fazer o que pudesse, mas não podia fazer muito".

No almoço, lhes foi perguntado sobre Ann Coulter, a comentarista conservadora, que escreveu sobre as Jersey Girls: "Eu nunca vi pessoas desfrutarem tanto das mortes de seus maridos".

Após um silêncio embaraçoso, Haynes disse sobre Coulter: "O que ela disse, quer ela acredite ou não, foi usado como publicidade para o livro dela. Atacar outras pessoas daquela forma, é simplesmente triste".

E quanto à guerra no Iraque?

Mais silêncio, até que Collins disse: "Sem comentários, eu acho".

Gerbasi acrescentou: "Isso não faz parte de nossa história. Nós todas temos nossas opiniões políticas, mas nunca foi um ponto contencioso para nós".

O título do livro delas vem de um comentário feito sem pensar por Collins durante as primeiras férias conjuntas delas no Arizona: "Love you, mean it" (te amo, de verdade), que nos e-mails do clube é abreviado para LUMI. "A mensagem era clara", elas escrevem. "O amor é uma dádiva. Compartilhe."

O livro termina na animação do casamento de Gerbasi em 2004, no qual seu novo marido, John Donovan, brindou "aos rapazes -Bart, Ward, Tommy e Caz".

Collins disse: "Pela primeira vez, me permiti acreditar que uma viúva podia amar novamente e que seu novo marido aceitaria sua perda e a amaria mais por causa dela".

De lá para cá, Haynes deixou seu emprego e se casou.

Collins está noiva e espera adotar uma menina da China.

Carrington deixou seu emprego, passou o verão na Itália, está fazendo um curso de italiano e sobre a Bíblia neste semestre e "imaginando o que fazer a seguir".

No próximo mês, o Clube das Viúvas participará da cerimônia de quinto aniversário no local onde ficava o World Trade Center. "Será muito emotivo e desgastante", disse Gerbasi, "mas eu nunca me imaginaria estar em outro lugar naquela manhã ou com outras pessoas".

Carrington acrescentou: "Eu me sinto mais forte neste ano. Cada ano proporciona uma nova perspectiva, uma de profunda tristeza mas também de capacidade de viver nossas vidas no espírito que eles (os rapazes) escolheram viver suas vidas. Todo dia, todo ano, reserva lições valiosas para todas nós. Não considere garantida esta dádiva da vida."

"Aqueles 3 mil homens e mulheres adorariam estar vivos. É claro que a tristeza inevitavelmente dominará e haverá choros insuportáveis, mas as lágrimas são o preço do amor."

No almoço, quase cinco anos após 11 de Setembro, há mais risos que lágrimas.

As viúvas apenas choraram após um encontro casual no restaurante com um marine cuja foto no Iraque está emoldurada na parede.

O major Dave Andersen, um nova-iorquino que está prestes a se reformar nas forças armadas, disse que foi enviado ao esforço de resgate no Ponto Zero e que posteriormente serviu no Afeganistão e no Iraque. Ele disse às mulheres que nunca antes conheceu uma viúva de 11 de setembro, as agradeceu e disse: "Vocês são o motivo para fazer o que faço". O Clube das Viúvas lutou para conter as lágrimas. George El Khouri Andolfato

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