Na fronteira, um jogo diário de gato e rato

William M. Welch
em Tecate, Califórnia

Na luminosidade suave do amanhecer, Nick Coates se agacha atrás da moita seca na boca do Desfiladeiro 56 e espera.

Quatro silhuetas andam em sua direção descendo uma trilha íngreme cercada de arbustos. Coates pula de seu esconderijo e, sem tocar em sua pistola, joga os quatro homens de cara para o chão.

Virando-os ele exclama: "Você de novo!"

É mais um dia de serviço da Patrulha da Fronteira dos EUA, ou "La Migra", para os que tentam cruzar os picos da fronteira com o México ali perto.

Enquanto a nação debate o que fazer com dezenas de milhares de pessoas que tentam entrar nos EUA ilegalmente a cada ano, é aqui ao longo da fronteira poeirenta que se vê a enorme dificuldade de cortar esse fluxo.

Apesar das câmeras de visão noturna, helicópteros e detectores sísmicos de moção, o sucesso das políticas de fiscalização da fronteira sudoeste freqüentemente depende da capacidade de um agente correr mais rápido do que aquele que está caçando.

Nesta noite, os agentes conseguiram fazer emboscadas para não precisar correr.

Com um espanhol básico, Coates pediu aos homens os documentos de imigração.
Todos sacudiram a cabeça dizendo que não.

"Este aqui", diz ele, "peguei três vezes nos últimos 10 dias".

A última vez foi há três dias, no mesmo local desolado.

900.000 pessoas apreendidas neste ano.

Aproximadamente 10.000 agentes trabalham em turnos para vigiar a fronteira de 3.140 km com o México, que vai da praia a oeste de Tijuana pelo Arizona e Texas até o Golfo do México. Para lhes dar assistência, o presidente Bush enviou à fronteira 6.000 membros da Guarda Nacional.

Neste ano, a Patrulha da Fronteira pegou mais de 900.000 pessoas tentando entrar nos EUA. É impossível dizer quantas pessoas escapam, diz a Patrulha da Fronteira.

Esta seção de 34 km entre o México e os EUA ao longo da estrada estadual 94 é uma das seções mais movimentadas da fronteira da Califórnia. Em meados da década de 90, o trecho escarpado que vai até San Diego era o local de maior fluxo de imigrantes ilegais do país, com mais de meio milhão de imigrantes ilegais apreendidos anualmente.

Um reforço de fiscalização durante uma década, chamado Operação Gatekeeper, concentrou equipamentos e agentes neste trecho. A Patrulha da Fronteira prendeu 129.655 imigrantes ilegais entrando no setor de San Diego no ano fiscal de 2006. Isso representa uma queda significativa em relação aos anos 90, mas um aumento de 16% sobre o mesmo período do ano anterior.

A presença da Guarda parece ter tido um efeito. O número de imigrantes ilegais presos caiu onde a presença da Guarda é mais intensa, na fronteira oriental com o Arizona, de acordo com o chefe David Aguilar, da Patrulha de Fronteira.

Mas o aumento do policiamento parece ter desviado o tráfego, em vez de diminuí-lo.

Grande número de imigrantes ilegais foi para leste e agora cruza a fronteira perto de Tucson, diz Todd Fraser, porta-voz da Patrulha de Fronteira em Washington. As prisões também aumentaram recentemente em outras partes do Novo México e Califórnia, diz Aquilar.

"A Patrulha de Fronteira não acredita que haverá um momento em que chegará a 100% (de apreensões), quando simplesmente selamos a fronteira. Não estamos enganando ninguém", diz Fraser. "Mas queremos que a probabilidade seja grande de detecção e apreensão" dos imigrantes ilegais.

Nesta noite em Tecate, cerca de uma dúzia de agentes estão de patrulha; outros estão cuidando do posto de controle.

Para Coates, agente supervisor, e Carlos Perez, que trabalha com ele, o dia de trabalho começa pouco depois da meia noite.

Coates faz esse trabalho há oito anos. Com 34 anos e ex-membro da infantaria do Exército, ele conta com seu condicionamento físico e força para o cargo. Ele sai no escuro em caminhadas por terreno intimidador que podem durar horas -talvez todo seu turno.

Como de costume, a maior parte dos que foram pegos nesta noite vem do interior do México. São ajudados por um guia, ou "coyote", que normalmente mora perto da fronteira ou na cidade de Tijuana.

Os capturados são levados para a sede regional da Patrulha da Fronteira em um posto de controle ao longo da estrada 94 perto de Jamul, Califórnia, uma cidade minúscula no leste do condado de San Diego. Eles ficam em uma cela de vidro, são interrogados e geralmente enviados de volta ao México horas depois.

Um ônibus com o emblema do Departamento de Segurança Interna espera para transportar o lote da noite para casa.

"Eles sabem que vamos levá-los para a estação, dar suco e biscoito e enviá-los de volta para casa -e farão o mesmo amanhã", diz Coates.

A política americana de "pegar e soltar" parece prática, já que tentar prender todos os que tentam entrar ilegalmente no país exigira a construção de muitas prisões.

Mas e os que são encontrados que cometeram crimes sérios?

Os agentes se perguntam sobre a sabedoria de retornar criminosos ao México, sabendo que provavelmente tentarão entrar nos EUA novamente e talvez consigam.

O agente T.M. Farmer, processando a deportação de um homem, diz que detesta liberar "os que têm longa ficha criminal". Preocupa-se em ter de confrontar um criminoso violento no escuro.

Coates diz: "Existem condenados violentos, membros de gangues. Você tem que ter muito, muito cuidado."

Desde 1992, 25 agentes da Patrulha de Fronteira morreram em ação e 93 desde que os agentes do governo começaram a patrulhar a fronteira. No trecho de 100 km perto de San Diego que inclui este setor, 16 foram mortos.

Processar ou não?

A decisão de deportar ou processar imigrantes ilegais pegos na fronteira fica com o escritório do promotor geral de San Diego.

Deborah Hartman, porta-voz da promotora Carol Lam, disse por e-mail que seu escritório não discute publicamente as diretrizes usadas para suas decisões de processar.

"Promovemos milhares de ações de imigração por ano", diz ela. "Nossa maior prioridade é processar os que são um perigo aos outros, porque estão arriscando a vida das pessoas ou porque estão vindo para este país para cometer crimes. Então, obviamente alguém com histórico criminal é um importante fator, mas não é o único."

Antes que alguém seja processado ou deportado, tem que ser pego. A tecnologia ajudou, mas para segurar a maré ainda é preciso perspicácia, velocidade e coragem.

Nos picos montanhosos altos e em trilhas batidas, sensores sísmicos e de outros tipos alertam os agentes quando alguém está passando. Os agentes estão tão habituados às nuances dos sinais sísmicos que conseguem distinguir entre passos humanos ou animais.

Grandes telescópios de infravermelho fixos na caçamba de caminhonetes são usados para vigiar o território. Os telescópios de visão noturna mostram imagens de clareza surpreendente em uma tela na cabine do caminhão. Os operadores que vêem pessoas alertam por rádio os agentes que patrulham o terreno de carro ou a pé.

O grupo capturado na madrugada tinha ativado os sensores. Perez anteviu o desfiladeiro que iam tomar e dirigiu-se para lá. Coates viu o grupo contra um paredão do vale. Depois, os agentes se deitaram esperando os mexicanos correrem até eles.

Além dos quatro, oito haviam sido pegos perto de 1h da manhã por Coates e outros agentes. Os homens foram encontrados cruzando fazendas em grupos de três e cinco. Os dois grupos tentaram se esconder na grama e se renderam sem lutar.

A maior parte dos homens levava mochilas leves com água, comida e roupas. Um jovem carregava livros.

Algumas pessoas escapam

Quando o turno terminou, 40 pessoas tinham sido presas.

"É um desses dias que, se você jogar um pau, acerta em um grupo", diz Coates.

Mas muitos entraram.

Perez e Coates vão atrás de um grupo que fugiu da primeira linha de sensores e agentes. Eles atravessam estradas de terra de jipe até que não podem mais prosseguir, depois sobem por trilhas mal discerníveis até uma passagem. Eles encontram pegadas frescas, mas não pessoas. Ouvem-se latidos distantes.

Depois do nascer do sol, o rádio chia. Os sensores sugerem a presença de um grupo grande, talvez 15 pessoas. Coates e o agente Jose Hernandez sobem um morro atrás do grupo. O sol está subindo e está ficando quente. O terreno é íngreme.

Os agentes chamam um helicóptero. Ele sobrevoa morro. Depois de uma hora subindo, os agentes concluem que este grupo também escapou. As pegadas sugerem que eles se dividiram e desceram para dois canais próximos, atravessaram bueiros sob a estrada e entraram nos EUA.

Coates e outros trabalharam muito além de seus turnos. Perguntamos a Coates sobre o debate em Washington sobre como fiscalizar a fronteira. Cansado e sujo, ele responde:

"O que quer que façam, ainda terei que caçar estrangeiros". Deborah Weinberg

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