O perigo da obesidade infantil: especialistas pedem que pais incentivem a alimentação saudável

Nanci Hellmich

A obesidade começa em casa. Essa é a conclusão de especialistas em nutrição que estão examinando uma série de estudos divulgados neste verão que mostram que as crianças de todas as faixas etárias nos EUA estão ganhando peso demais, até os bebês. E esses especialistas estão atribuindo a maior parte da responsabilidade aos pais, muitos dos quais também são pesados.

Tara Todd, uma dieteticista do Hospital Infantil St. Louis, diz que a maioria de seus jovens pacientes tem mães ou pais acima do peso. Ela está trabalhando com meninos gêmeos de 10 anos, cada um com cerca de 100 quilos.

Todd tentou fazê-los parar de beber cinco copos de refrigerante por dia, e eles se recusam. Sua mãe, que também está acima do peso recomendável, começou a fazer modificações em casa, mas os meninos não fazem nada por conta própria.

"As crianças estão aprendendo esses comportamentos insalubres desde tenra idade", diz Todd. "Eu tento me concentrar nos pais e fazê-los mudar o que estão estocando na despensa."

Keith Ayoob, um dieteticista do Colégio de Medicina Albert Einstein em Nova York, diz que nunca encontra crianças que tenham melhores hábitos alimentares que seus pais. "Os pais são a maior influência sobre os filhos.

Eles precisam ser bons modelos. Ouvi uma citação que dizia: 'O que você diz, fala para seus filhos. O que você faz, grita para eles'."

Mães e pais podem querer que seus filhos comam mais frutas e legumes, mas eles mesmos não comem o suficiente, diz o médico. Dados do governo mostram que dois terços dos adultos americanos estão acima do peso ou são obesos.

Um terço das crianças e adolescentes - cerca de 25 milhões de jovens - estão acima do peso ou quase. Todos apresentam um risco maior de desenvolver diabetes, colesterol alto e outros problemas de saúde.

O prestigioso Instituto de Medicina está divulgando hoje um relatório que avalia as tentativas feitas para abordar o que especialistas do governo e particulares consideram uma crise de saúde nacional. A indústria de alimentos foi criticada por comercializar agressivamente produtos com alto teor de gordura e de açúcar para as crianças, e as escolas foram criticadas por vendê-los.

"Todo mundo precisa ter consciência de que o ambiente não ajuda as crianças a terem um peso saudável", diz Elizabeth Ward, uma dieteticista de Boston e mãe de três filhas em idade escolar. "Nossa sociedade é montada para que nossas crianças cresçam acima do peso, e é por isso que precisamos ser vigilantes. Os números continuam aí, ressaltando o fato de que nossos filhos estão com excesso de peso. Todos precisamos fazer alguma coisa. Quando se trata dessa questão, não podemos mais colocar um simples curativo."

Armadilha dos pais

As crianças dizem que dependem de seus pais para o ABC da boa saúde: 71% dizem que recebem informações sobre como ser saudáveis de suas mães, segundo uma pesquisa com 1.487 crianças e jovens de 8 a 18 anos, realizada para a Fundação America on the Move. E o pai é o recurso para 43% das crianças.

Mas algumas famílias parecem não saber como planejar e preparar refeições saudáveis, diz Ayoob. "Esta é uma geração de pais jovens que podem ter crescido com um alto consumo de alimentos calóricos, salgadinhos e poucas frutas e vegetais. Se eles cresceram dessa maneira, são esses os hábitos alimentares que vão ensinar para seus filhos."

Os pais ocupados muitas vezes não têm tempo para alimentar seus filhos de maneira saudável, diz Ayoob, lembrando de uma mãe que levou seu filho em idade pré-escolar para uma consulta e o menino trouxe seu café da manhã: um saco de salgadinhos e refrigerante com açúcar. A mãe explicou que estava atrasada e eles não tiveram tempo para fazer uma refeição.

"Precisamos reorganizar as prioridades. Você não pode não ter tempo para alimentar os filhos", diz Ayoob. O sentimento é compartilhado por outros nutricionistas que incentivam o planejamento de refeições e a limitação de alimentos industrializados, fast food e assistir à TV.

"Minha filosofia é que encorajar um peso saudável nas crianças é um assunto de família", diz Ward. "O ambiente doméstico tem uma tremenda influência nas opções alimentares das crianças, incluindo o que elas comem quando estão longe de casa."

Alguns pais reeducaram a si mesmos e a suas famílias. Há cerca de dois anos, Myrna Lisboa, de Orlando (Flórida), percebeu que sua filha Mia, de 5 anos, estava um pouco gordinha demais e considerada "acima do peso" nas tabelas de crescimento. Lisboa e seu marido lutam com o próprio peso, e seu marido e muitos de seus parentes têm diabetes tipo 2. Ela não queria que sua filha acabasse tendo os mesmos problemas.

Então participou de um programa piloto chamado Família Vigilantes do Peso para reformular seus hábitos alimentares. Parou de comprar refrigerantes, sorvetes e biscoitos e fez um estoque de produtos agrícolas. Começou a preparar receitas mais saudáveis para o almoço e insistiu que seus três filhos, mais dois sobrinhos que vivem com ela, saíssem para brincar depois da escola.

Lisboa dirige uma lavanderia mas cozinha uma refeição saudável na maioria das noites e um desjejum quente todas as manhãs, com alimentos como mingau de aveia e ovos mexidos. Se sua família quiser uma guloseima, como sorvete, vai comer numa lanchonete.

O peso de Mia parece estar se equilibrando, mas Lisboa sabe que a luta não terminou. Seus filhos são expostos a alimentos engordativos em toda parte: na escola, em festas de aniversário, no shopping. Pelo menos em casa, ela disse, "estou fazendo o possível".

O que se deve fazer?

Todd, que trabalha com crianças acima do peso em St. Louis, diz que seu primeiro "ponto de ataque são as bebidas, sempre. Eles geralmente não bebem leite suficiente, e têm dietas baixas em cálcio".

A maioria bebe muito refrigerante e outras bebidas doces. "Eu calculo as calorias que eles recebem das bebidas e muitas vezes são 500 calorias ou mais por dia. Cortando apenas estas eles poderiam perder meio quilo por semana."

Outros problemas: "beliscar" demais, o excesso de alimentos empacotados e fast food, e frutas e legumes insuficientes, poucas refeições estruturadas.

E algumas crianças não passaram do leite integral para leite desnatado aos 2 anos. "Podem parecer pequenas coisas, mas têm um grande impacto."

Algumas têm mães e pais que não querem dizer "não" no que se refere a alimentos, TV ou tempo diante do computador, diz Todd. "Eu trabalhei com um menino obeso cujos pais estimavam que ele assistia dez horas de TV por dia."

Ward, autora de "The Complete Idiot's Guide to Feeding Your Baby and Toddler" [O guia do completo idiota na alimentação do bebê], diz que os pais precisam dizer "não" com maior freqüência para alimentos de alto teor de gordura e baixo teor nutritivo. Em certo ponto, ela descobriu que sua filha menor, de 5 anos, gostava de ir à biblioteca porque lá havia uma máquina de alimentos industrializados. Ward disse à filha que a máquina estava proibida.

"Eu tenho de dizer não o tempo todo", ela diz. "Como mãe, sou a guarda do portão. O assunto pára aqui."

Karen Miller-Kovach, cientista-chefe dos Vigilantes do Peso, acredita que os pais passam a seus filhos mensagens confusas sobre a alimentação. "Eles dizem não para tudo por um dia ou dois, e depois não negam nada. É melhor fazer pequenas mudanças e de maneira coerente do que mudar muitas coisas de uma vez e ser incoerente."

Muitos fatores contribuem para a obesidade, e algumas crianças são mais vulneráveis que outras. "Não é raro haver crianças magras e obesas na mesma casa", ela diz.

O bom de fazer mudanças saudáveis em casa é que pode ajudar as crianças que têm problema de peso e não prejudica as outras, ela diz. "Se você tiver comida saudável em casa, a criança magra não vai derreter. Vai comer mais e vai melhorar seu consumo de nutrientes."

Para fazer refeições melhores, os pais precisam planejar com antecedência e ir ao supermercado regularmente para comprar ingredientes saudáveis. "Quando você não planeja você fracassa", diz Ward.

Ela sabe que não é fácil. "Não estou querendo minimizar a dificuldade que é encontrar tempo para fazer refeições e planejar lanches. Mas vale a pena."

E existem muitos atalhos bons: saladas empacotadas, legumes e frutas picados, frango assado, peixe e carne prontos para comer. "Fazer um esforço para ajudar seu filho a comer direito é um investimento em sua saúde, hoje e nas próximas décadas", diz Ward.

O pediatra Marc Jacobson, membro da força-tarefa de obesidade da Academia Americana de Pediatria, acredita que a tendência das crianças obesas pode e será invertida. "Está na frente da tela do radar de todo mundo. Existe um enorme volume de compromissos de escolas, governo, órgãos de saúde pública, indústria privada, grupos médicos e pais. É uma coisa que nós causamos", diz Jacobson. "E não vejo qualquer motivo para não fazermos as mudanças necessárias para revertê-la."

Saltos de peso podem indicar futura obesidade

Alguns especialistas definem as crianças como obesas quando elas estão acima de 95 na proporção entre peso e altura, o que significa que elas pesam mais que 95% das crianças da mesma altura, e com excesso de peso se elas estiverem em 85 a 95.

Se o peso de seu filho está saltando de percentual nas tabelas de peso nos exames anuais, pode ser um alerta de que algo precisa ser feito, diz William Cochran, diretor do programa de controle de peso pediátrico na Clínica Geisinger em Danville, Pensilvânia.

Por exemplo, se uma criança estiver na faixa de peso de 25% aos 2 anos, 50% aos 3 e 75% aos 4, a família e o médico devem avaliar os hábitos alimentares e de atividade física da criança antes que ela atinja a categoria de excesso de peso, ele diz.

Às vezes uma simples intervenção pode evitar que as crianças fiquem pesadas demais, diz Cochran. Em muitos casos, crianças com um leve problema de peso estão consumindo excesso de refrigerantes e de sucos.

Um estudo divulgado este mês mostrou que 60% dos bebês e crianças pré-escolares que estavam acima do peso ou eram obesas durante os anos pré-escolares continuavam pesando demais aos 12 anos, o que as colocava no caminho para a obesidade adulta. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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