Imigrantes fazem de Utah um cadinho fervente de raças

Haya El Nasser
em Salt Lake City

À sombra da majestosa sede da religião mórmon, a fonte no centro do shopping ao ar livre Gateway Plaza é um cenário popular para casamentos. Em um dia de forte calor, crianças anglos e latinas correm lado a lado entre os pulsantes sprays de água.

Casamento e crianças: eles são os pilares da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, que domina muitas facetas da vida em Utah. Mas diversidade?

A imigração está mudando a face de comunidades por todos os Estados Unidos. Ao se espalhar por Utah, tradicionalmente um dos Estados com menos diversidade e mais conservadores do país, seu impacto é particularmente dramático. Com cerca de 98% de brancos até 1970, Utah está se tornando um cadinho feevente de raças.

Apesar dos republicanos conservadores na Câmara dos Deputados estarem pressionando por um maior controle nas fronteiras e por tornar a imigração ilegal um crime, fatores únicos em Utah estão atraindo latinos ao mais vermelho dos Estados vermelhos (republicanos). Entre eles: a filosofia da Igreja Mórmon de estender seu alcance e sua aprovação de famílias grandes.

Estas influências ajudaram a dar ao Estado a reputação de ser receptivo aos imigrantes. Utah permite que pessoas sem documentos dirijam legalmente com uma carteira especial. Elas podem freqüentar faculdades e universidades públicas e pagar "in-state tuition" (anuidade para quem é morador do Estado). Minorias -a maioria latinos- correspondem a 16,5% da população, um aumento em comparação a 8,8% em 1990. Elas poderão chegar a 20% até 2010. Os latinos estão impulsionando o crescimento entre as minorias daqui. As populações de negros e asiáticos também estão crescendo, só que mais lentamente.

As mudanças são visíveis -e audíveis. Os sons de até 70 línguas ecoam em alguns corredores de escolas, cantinas estão despontando nos subúrbios e as congregações religiosas de língua espanhola estão se multiplicando -cenas que lembram mais Los Angeles e Miami do que Salt Lake City.

"A notícia se espalhou de que é um local onde imigrantes são bem-vindos", disse o deputado Chris Cannon, republicano de Utah.

A população de Utah deu ao presidente Bush, em 2004, a maior margem sobre o democrata John Kerry em qualquer Estado -72% contra 26%. Como um dos locais mais conservadores dos Estados Unidos pode ser tão receptivo aos imigrantes?

"A religião mórmon acredita que você pode ser conservador mas também
compassivo", disse Marco Diaz, ex-presidente da Assembléia Latina
Republicana de Utah, que tenta atrair mais latinos para o partido. "Ajude teu vizinho e ame teu vizinho e busque ser conservador fiscal."

Ainda não se sabe por quanto tempo Utah manterá esta filosofia. A frustração está crescendo com o aumento da evasão escolar e com as salas de aula lotadas de alunos que não falam inglês. A pressão para corte de benefícios para moradores ilegais e repressão aos empregadores que os contratam está crescendo. Cerca de 100 mil dos nascidos no exterior que moram no Estado -quase metade- estão aqui ilegalmente, disse Pamela Perlich, economista, pesquisadora sênior da Universidade de Utah.

Diaz disse que o tempo pode estar acabando para o tapete de boas-vindas do Estado.

"Nós nunca vimos tanta gritaria em torno da imigração", disse Diaz. "Muitos cidadãos querem mudanças. (...) Há um sentimento entre os eleitores de que algo precisa ser feito. Os legisladores locais estão sendo cobrados."

Missão mundial

Utah é predominantemente mórmon desde que Brigham Young e milhares de
seguidores se estabeleceram no Great Salt Lake Valley, em meados dos anos 1800, após fugir da perseguição em Illinois, a mais de 2 mil quilômetros de distância. A maioria da população continua sendo mórmon -cerca de 62%- mas tal parcela da população está diminuindo.

O Estado é o 34º em população, com 2,5 milhões de habitantes - aproximadamente o tamanho da área metropolitana de Pittsburgh. Ele é insular, mas cosmopolita.

Utah se gaba de ter um dos maiores percentuais de moradores adultos que
possuem passaporte e falam mais de uma língua. A Universidade Brigham Young dá mais cursos avançados de língua estrangeira do que qualquer outra universidade americana. Cerca de 85% de seus alunos no último ano falam uma segunda língua.

Esta é a influência mórmon.

"Esta é uma Igreja missionária", disse Jan Shipps, uma estudiosa do
mormonismo da Indiana University-Purdue University Indianapolis. Aos 18 ou 19 anos, os mórmons "são chamados a partir em uma missão e passar dois anos por conta própria convertendo pessoas". Se aceitam o chamado, eles aprendem uma língua estrangeira e vão para o exterior por dois anos.

"Eles experimentam outra cultura", ela disse. "Isto tende a tornar Utah, lá no meio do Oeste, um local bastante cosmopolita."

Duas forças em ação estão causando certa tensão em Utah e dentro da Igreja, disse Kathryn Daynes, uma professor de história da Universidade Brigham Young. "Os Santos dos Últimos Dias (...) querem expandir em um nível individual, mas politicamente são muito conservadores."

Os valores familiares e o proselitismo mundial da Igreja e seu trabalho
missionário na América Latina atraíram imigrantes e potenciais convertidos a Utah. A Igreja oferece cursos de inglês por todo o Estado. Ela promove jantares para os líderes latinos e tem 114 congregações de língua espanhola em Utah.

Os líderes da Igreja geralmente evitam comentar sobre o debate da imigração e se recusaram a ser entrevistados para este artigo.

Mas, em maio, eles reagiram aos comentários de Lou Dobbs, um comentarista da "CNN" e forte defensor de leis rígidas de imigração, às vésperas da visita do presidente do México, Vicente Fox, a Utah e outros Estados. Dobbs disse que a Igreja Mórmon "tem um entusiasmo vigoroso pelo máximo de cidadãos mexicanos que puder atrair ao Estado de Utah, sem levar em consideração o custo para os contribuintes".

O site da Igreja chamou a declaração de Dobbs de infundada. Ele disse que a Igreja tem mais de 1 milhão de fiéis no México e possui quase 1.000 prédios lá, mas "não os encoraja a se mudarem para Utah ou qualquer outro lugar".

Mas a imigração atingiu um nervo neste ano em Utah. Quando até 25 mil
pessoas marcharam em uma manifestação pró-imigração, realizada aqui em
abril, "eu acho que assustou as pessoas", disse Maria Garciaz,
diretora-executiva da Salt Lake Neighborhood Housing Services, um grupo sem fins lucrativos que financia e constrói moradias de baixo custo na cada vez mais diversificada zona oeste de Salt Lake City.

O deputado Cannon, que venceu por margem estreita a primária republicana em junho, em busca da reeleição, disse que "toda a disputa girou em torno da imigração". Seu adversário era o novato na política e empreendedor imobiliário milionário John Jacob, que defendia o envio dos imigrantes ilegais de volta para casa antes de lhes dar uma chance de cidadania, assim como punição para os empregadores que os contratam.

Cannon está longe de ser liberal no assunto. Ele votou a favor do projeto da Câmara que poderá tornar crime ajudar imigrantes ilegais assim como a residência ilegal. Mas ele apóia o programa de trabalhadores convidados proposto pelo presidente Bush. Cannon e Jacob são mórmons. "É melhor para a América se orgulhar da América e não ter visões muito severas do mundo", disse Cannon. "Eu espero que Utah seja um destes lugares onde podemos refrear esta severidade."

Mas a frustração está crescendo. O Utah Minuteman Project, cuja missão é "proteger nossa pátria" dos imigrantes ilegais, está buscando eliminar privilégios como as carteiras especiais de motorista e a "in-state tuition" para imigrantes ilegais.

"As escolas são um problema, a trânsito nas estradas é um problema e a
criminalidade está em alta", disse Alexander Segura, o presidente do
conselho do Utah Minuteman. "São destes problemas que as pessoas estão
cheias."

Um novo "baby boom"

Os imigrantes só começaram a chegar no final dos anos 90, quando o Estado começou a se preparar para receber as Olimpíadas de Inverno de 2002. Durante grande parte dos anos 90, o emprego no setor não-rural em Utah cresceu duas vezes mais rápido do que no país como um todo. Os empregos no setor de construção se multiplicaram. Um boom na habitação criou outro aumento. Os empregos no setor de construção cresceram 12,4% em 2005 e devem saltar 15,3% neste ano.

Cerca de dois terços dos novos imigrantes de Utah vieram do exterior e o restante de outros Estados, principalmente da Califórnia. A população latina do Estado aumentou para cerca de 270 mil em 2005, um aumento de 33,1% desde 2000. Os latinos contribuíram com cerca de um quarto do crescimento do Estado nos anos 90.

Utah há muito tinha uma demografia singular. Ele possui o percentual mais alto de lares com casais unidos por matrimônio de qualquer Estado, a idade média mais jovem de casamento, a mais alta taxa de natalidade, a média mais alta de tamanho do lar e a idade média mais baixa. O Estado está em seu terceiro "baby boom" pós-Segunda Guerra Mundial e está se preparando para outro por causa dos imigrantes.

A taxa de natalidade entre os latinos em Utah não apenas ultrapassa a dos brancos não-latinos daqui, mas também a de outros latinos em todo o país e mesmo a das mulheres no México, disse Perlich, a demógrafa da Universidade de Utah.

Muitos imigrantes de Utah chegaram recentemente e vieram de áreas rurais da América Latinas, onde ensino de controle da natalidade é inexistente. Eles agora estão em um Estado onde grandes famílias são a norma e controle da natalidade não faz parte da discussão pública.

Os imigrantes chegam primeiro à procura de emprego. Muitos são atraídos pelo estilo de vida.

Rosalia Gutierrez, 32 anos, veio do México há 15 anos. Ela não é mórmon mas gosta da serenidade que a Igreja voltada à família instila em todo o Estado.

"É um ótimo lugar", disse Gutierrez, mãe de três e que trabalha em uma
fábrica de contêineres. "É calmo e pacífico."

Adaptação à mudança

O boom da imigração criou novos desafios para o Estado, desde salas de aula com muitas línguas até um maior número de mães solteiras adolescentes.

A matrícula nas escolas públicas aumentou em 30 mil alunos nos anos 90 e mais 30 mil nos últimos dois anos, disse o demógrafo estadual Robert
Spendlove. "Nós estamos projetando aumentos de 150 mil na população em idade escolar nos próximos 10 anos."

As minorias são responsáveis por cerca de 75% do crescimento nas matrículas escolares desde 2000 e os latinos por 58%.

O Escritório de Educação do Estado de Utah formou uma força-tarefa de ensino de língua inglesa. A primeira "escola para recém-chegados" será inaugurada em Ogden neste ano, para ajudar as crianças a se adaptarem enquanto aprendem inglês.

"Ela dá à criança uma chance de lutar para se sair bem", disse Patti
Harrington, a superintendente estadual de ensino público. Ela disse que não há apoio político para financiar programas para ajudar os imigrantes, como ensino para pessoas que não falam inglês.

O Centro de la Familia, uma agência de 30 anos daqui, mudou seu foco de
saúde mental e jovens fugitivos para ensino, para ajudar a combater a alta evasão escolar entre os latinos. Ele fornece uma espécie de curso básico sobre as escolas americanas para mães imigrantes.

A imigração também está dando um novo aspecto a Midvale, uma antiga cidade de mineração e um subúrbio operário de Salt Lake City. O centro está tomado por placas em espanhol, da barraca de "Tortas and Tacos" à "Comunidades Unidas", um centro comunitário.

Dentro, homens, mulheres e crianças circulam em salas vivamente decoradas. Elas estão aqui para exame pré-natal, orientação sobre diabete e outros serviços de saúde e sociais. Os voluntários são amigos e vizinhos. O ensino por pares funciona melhor quando até 80% das pessoas que o centro atende são ilegais, disse Sabrina Morales, diretora executiva e natural da Guatemala.

Claudia Gonzalez, uma mãe de dois, se mudou de San Diego para Utah em 1999. Ela limpava casas, o centro lhe dava referências e no final acabou se tornando voluntária. Agora ela é diretora do programa. O marido dela planeja abrir uma empresa de paisagismo.

A prefeita de Midvale, JoAnn Seghini, criou o programa Comunidade
Construindo a Comunidade, que reúne voluntários e agências locais para
ajudar os imigrantes. "A imigração sempre será uma parte da América", disse Seghini. "Assim que chegam aqui, eles se tornam um de nós. E assim que se tornam um de nós, nós estamos nisto juntos."

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