Almas gêmeas de 'Lost": Como os homens por trás do mistério mantêm vivo o sucesso

Bill Keveney
Em Burbank, Califórnia

O final da segunda temporada de "Lost" - "Live Together, Die Alone" (viva junto, morra sozinho)- pode ser um bom lema para os homens que o escreveram.

Os produtores executivos e antigos amigos Carlton Cuse e Damon Lindelof estão no centro do sucesso da terceira temporada do drama da rede ABC (que estreará no dia 4 de outubro nos Estados Unidos). A forma como narram a história dos sobreviventes da queda de um avião em um mundo isolado, e como entregam a conta-gotas de pistas sobre os mistérios da ilha, encantam milhões.

A parceria criativa -formada por um telefonema para Cuse quando o co-criador da série, J.J. Abrams, teve que reduzir seu envolvimento para dirigir "Missão Impossível III"- funciona devido aos contrastes entre eles em muitos níveis.

Cuse, 47 anos, que deu a Lindelof seu primeiro trabalho como roteirista para TV em "Nash Bridges", é o mentor -alto, camisa oxford e jeans, com uma voz autoritária perfeita para locuções. Lindelof, no escritório de Cuse enquanto revisavam um roteiro, é mais jovem (33 anos) e mais baixo -o protegido trajando jeans, camiseta roxa e boné dos Yankees. Ele tem o que chama de natureza "hiperbólica", compensada pela tranqüilidade de Cuse.

Cuse, pai de três, é o pássaro matinal, determinando suas tarefas ao nascer do sol. O coruja Lindelof, privado de sono como pai estreante de recém-nascido, trabalha de madrugada. Ambos escrevem, freqüentemente juntos.

Lindelof gosta de passar três horas dividindo as cenas na sala de edição. Cuse é o solucionador de problemas, acertando detalhes com os produtores no Havaí, onde "Lost" é filmada.

"Nós temos talentos complementares", disse Cuse. Mas "vemos a série de forma semelhante. Há pouco em que não concordamos, seja a direção da série, a estética ou as histórias que queremos contar".

A perspectiva de trazer um mundo à vida antes assustou Lindelof. Agora, ambos disseram, a série se tornou uma entidade com vida própria. Cuse disse que ela os guia como A Força em "Star Wars". "Lost" é "maior do que nós", disse Lindelof. "Quando um de nós tem uma idéia, nós sentimos como se fosse o que a série deseja que façamos."

A Força obviamente está com eles:
-"Lost" conquistou status de cult, contando com vários livros e sites de fãs na Internet, com apelo abrangente o bastante para atrair uma média de 15,4 milhões de espectadores (uma queda de 4% em relação à primeira temporada) enquanto enfrentava o programa de maior sucesso nos Estados Unidos, "American Idol", durante parte do ano passado. Ela conquistou um Emmy e um Globo de Ouro de melhor série dramática; Abrams conquistou um Emmy de direção.

-É a série mais popular da ABC no iTunes, com mais de 8,5 milhões de downloads. As vendas do DVD da primeira temporada chegou a 1,6 milhão de cópias, atrás apenas da primeira temporada de "24 Horas" entre as séries dramáticas, e a segunda temporada esteve em primeiro lugar em vendas durante toda a primeira semana de setembro. Nos últimos meses, "Lost" experimentou uma caçada multimídia pela Internet chamada "The Lost Experience".

-A série gerou uma onda de séries de mistério com grandes elencos, união de estranhos ou abordando temas de outro mundo: "Invasion", "Surface" e "Threshold" no ano passado; "Jericho", "Heroes", "Vanished" e "The Nine" neste ano.

Para permanecer um sucesso, Lindelof e Cuse disseram que precisam assegurar que os personagens venham em primeiro lugar. Até o momento foram bem-sucedidos, disse o escritor Stephen King, cujo apocalíptico "A Dança da Morte" influenciou "Lost".

"Eles são grandes contadores de histórias", disse King, um fã. "Muito poucos criadores de séries de TV parecem capazes de transmitir um senso de admiração em nós e prender nossa imaginação."

Da concepção à sensação
O conceito de "Lost" -uma drama de ilha com elementos de "Náufrago" e "Survivor" (o "reality show" "No Limite" exibido no Brasil)- foi planejado no final da temporada de desenvolvimento 2004-05. J.J. "Alias" Abrams, talentoso em ação e suspense, seria o responsável. Devido às limitações de tempo, Lindelof, um roteirista novato com interesse em ficção científica e quadrinhos, ingressou na equipe.

Ele estava "completamente em sintonia" com Abrams, disse Bryan Burk, um antigo associado de Abrams que comanda a extensa pós-produção de "Lost" em um estúdio da Disney. Na primeira reunião, "ele chegou vestindo uma camiseta de fã clube de 'Star Wars'. O sentimento foi, 'Ei, como já não somos grandes amigos?'"

"Damon tem um senso incrível de narrativa", disse Abrams. "Nós nos entendemos imediatamente em termos da importância dos personagens e emoção." Presumindo que "Lost" teria muito pouca chance de sucesso, a dupla decidiu fazer o piloto que queriam, rompendo as regras tradicionais de elenco e trama.

A resposta do público e da crítica confirmou que outros queriam o mesmo. Mas Abrams estava assumindo sua primeira direção de um longa metragem, supervisionando "Alias" e mais pilotos. E Lindelof estava assustado diante do grande desafio. "Eu abandonei a série três vezes", ele disse.

Cuse o convenceu a continuar e no final se juntou à série.

Lindelof "estava repentinamente, na minha ausência, sitiado por todas estas coisas. Carlton deu o apoio que ele necessitava desesperadamente", disse Abrams, que escreveu o primeiro episódio desta temporada com Lindelof e espera poder dirigir um episódio. "Eles assumiram a série que criamos e a continuaram de uma forma que realmente admiro."

"Inicialmente eu pensei que Damon seria um puro escritor-artista-autor, e Carlton traria a experiência de ter comandado tantas séries com sucesso", disse Steve McPherson, o chefe de entretenimento da ABC. "Mas é como se tivessem se tornado uma só pessoa. Eles parecem fazer tudo juntos."

Elaborando a trama
Na sala dos roteiristas, decorada com fotos do Havaí e do elenco da série -com um quadro exibindo fotos dos personagens que partiram, anotados com "R" (descanse em paz)- Lindelof gosta de conversar, dando aos demais roteiristas uma atualização sobre seu filho de um mês, Van, e o quanto ele interfere em seu sono: "Eu só reajo cinco minutos após as coisas acontecerem".

Após alguns poucos minutos de papo, Cuse tenta fazer com que a equipe se concentre no oitavo episódio da temporada.

"Crianças não são ótimas?", disse o roteirista Adam Horowitz, provocando risadas ao zombar gentilmente da transição de Cuse para o trabalho.

Enquanto Edward Kitsis expõe o episódio, dividido em cinco atos em uma lousa, são praticamente Lindelof e Cuse que falam. Lindelof faz mais associações livres enquanto Cuse cristaliza os pontos de discussão. O episódio faz parte de uma temporada que os produtores dizem que oferecerá mais romance e aventura, examinará a dinâmica de Nós contra Eles e -em uma de suas muitas referências enigmáticas- brincará com nossa concepção de tempo.

Durante a reunião de uma hora, referências literárias e de cultura pop são apresentadas. A discussão passa por "Peggy Sue -Seu Passado a Espera", "Um Incidente na Ponte de Owl Creek", "Jornada nas Estrelas -A Nova Geração", "Um Conto de Natal", "De Olhos Bem Fechados" e barras de chocolate Wonka.

Lindelof é uma fonte de detalhes da cultura pop; Cuse conhece fatos científicos. "Carlton é o sujeito com o qual você gostaria de estar em uma ilha", disse Lindelof. "Eu forneceria entretenimento ao redor da fogueira."

Em uma cena, um problema difícil é repentinamente resolvido por uma mudança de personagem que tanto provoca um novo romance quanto provoca ciúme. Cuse disse posteriormente, voltando à metáfora da Força: "Enquanto buscávamos uma solução, a série nos disse o que precisava acontecer".

Como as abundantes referências religiosas de "Lost" podem sugerir, ambos buscam um significado espiritual. Lindelof tem formação judia, Cuse tem formação católica.

Naquele dia, Lindelof e Cuse estavam tratando de elementos de sete episódios, incluindo revisões de um roteiro que estão escrevendo juntos. Enquanto seguiam para a sala de edição para avaliar uma cena do segundo episódio, um coordenador de efeitos especiais entrou com um laptop para mostrar uma seqüência do primeiro episódio da temporada. Abrams saiu de uma sala onde estava revendo cenas de sua nova série, "Six Degrees", e os três assistiram atentos. "Que legal. É uma loucura", disse Abrams.

Posteriormente no escritório de Cuse -que conta com dois antigos assentos do Dodger Stadium, com números 15 e 16 (da famosa seqüência 4, 8, 15, 16, 23, 42)- eles revisaram seu roteiro, então discutiram outro com o produtor Jeff Pinkner.

Na maioria dos dias eles ficam juntos apenas metade do tempo, dividindo as tarefas. "Ele confia no que faço, eu confio nele", disse Lindelof, cujo escritório próximo é um minimuseu "Lost", com o "cajado de Jesus" de Mr. Eko, um poster de concerto da banda de Charlie, a Driveshaft, e um modelo do Vôo 815 da Oceanic -em ângulo de mergulho.

A confiança se estende aos colegas experientes. "Da mesma forma que Damon, Carlton e Bryan confiam em mim para supervisão da selva e execução da série, eu confio neles para a edição final", disse Jack Bender, que supervisiona as operações no Havaí.

Mas a organização tem limitações, como elaborar a trama de uma série sem data para acabar. Cuse e Lindelof, contratados até o final desta temporada, dizem que conseguem ver a série chegar ao fim após cinco temporadas, mas sabem que poderia ir além considerando o interesse financeiro da TV.

Independente disto, eles têm "uma superestrutura" estabelecida, que acreditam que manterá a história nos trilhos, assim como um final definitivo. Mas isto não significa que esta entidade da TV deixará de evoluir. "Nós estamos montando este quebra-cabeça, mas não há imagem dele na tampa da caixa. E as pessoas continuam adicionando novas peças, mas elas ainda assim precisam se encaixar", disse Lindelof. George El Khouri Andolfato

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