Bush e o Iraque: a doutrina da democracia sob ataque

Chuck Raasch
Em Washington

Uma das últimas baixas da guerra no Iraque foi a afirmação do presidente George W. Bush de que o desejo de liberdade é tão forte que promoverá a democracia e repelirá a tirania, até mesmo no Oriente Médio.

Estão sumindo de cena as alegações imodestas de Bush de que o Iraque seria um facho de democracia no estilo ocidental em uma região há muito vitimada por governos não democráticos e pelo extremismo religioso.

A força preeminente por trás da altamente polêmica política de aumento súbito e drástico das tropas norte-americanas no Iraque --e o motivo pelo qual os democratas não estão fazendo pressões mais intensas por uma retirada imediata-- é a conseqüência terrível de um eventual fracasso no país invadido. Nem Bush nem a maioria dos seus críticos estão dispostos a tolerar o caos que muitos dizem que ocorreria caso as tropas norte-americanas se retirassem do Iraque amanhã. Por ora, o preço de bater em retirada é tido como mais elevado do que o de permanecer no país. E é isso que faz com que as opções políticas à disposição de Bush e da nova maioria democrata no Congresso sejam tão escassas e assustadoras.

Dois discursos de Bush proferidos em um intervalo exato de um ano demonstram a sua mudança fundamental das aspirações de liberdade para uma política pragmática defensiva.

Em 10 de janeiro de 2006, Bush apresentou uma avaliação otimista dos objetivos dos Estados Unidos no Iraque em um discurso à organização Veteranos de Guerras Estrangeiras.

"Quando a vitória for alcançada e a democracia se firmar no Iraque, isso servirá como um modelo de liberdade em todo o Oriente Médio", disse ele à platéia da instituição. "A história demonstrou que as nações livres são nações pacíficas. E ao ajudarmos os iraquianos a construírem uma democracia duradoura, estaremos disseminando a esperança de liberdade em uma região problemática, e ganharemos novos aliados na causa da liberdade."

Em um pronunciamento nacional na televisão na última quarta-feira, 10 de janeiro, o tom de Bush foi mais defensivo, e ele se focou bem mais naquilo que chamou de "as conseqüências do fracasso".

"Caso os Estados Unidos fracassarem no Iraque, os extremistas radicais islâmicos crescerão em força e obterão novos recrutas. Eles estariam em uma posição mais confortável para derrubar governos moderados, promover o caos na região e usar as rendas derivadas do petróleo para financiar as suas ambições. O Irã ficaria fortalecido na sua busca por armas nucleares. Os nossos inimigos contariam com um refúgio a partir do qual poderiam lançar ataques contra o povo norte-americano".

A seguir, Bush declarou: "Pela segurança do nosso povo, os Estados Unidos precisam ter sucesso no Iraque".

O especialista em questões presidenciais Charles Jones diz que Bush é um prisioneiro da sua própria definição de vitória: um Iraque independente capaz de governar e defender a si próprio. Jones afirma que, ao mesmo tempo, Bush é motivado por uma crença fundamental de que um presidente não precisa se curvar à opinião pública caso decida seguir um rumo que ele acredite ser o correto. Enquanto isso, os oponentes de Bush não se mostram dispostos a herdar as conseqüências de uma retirada e o jogo de acusações que se seguiria.

"Bush é o comandante-em-chefe, ele pode tomar essa decisões (aumentar o número de soldados), e ele está procurando justificar tais decisões", disse Jones, em uma entrevista. "É politicamente arriscado para os seus oponentes --sejam eles democratas ou republicanos-- seguir em frente e dizer que daqui por diante o país só fará só aquilo que for capaz, e que eles usaram principalmente o orçamento para negar ao presidente a capacidade de concretizar os seus planos. Isso seria algo muito arriscado, tanto devido à impraticabilidade de negar às tropas o apoio do qual elas necessitam como também no que se refere ao fato de os oponentes assumirem essa política."

No seu livro de 2004 sobre a invasão do Iraque, "Plan of Attack" (Plano de Ataque), o repórter do Washington Post, Bob Woodward, citou o ex-secretário de Estado Colin Powell quando este invocou a regra das casas de cerâmica: "Quem quebrar uma peça tem que comprá-la."

Foi uma declaração polêmica quando divulgada há quase três anos, mesmo em meio ao otimismo sobre o futuro do Iraque. As casas de cerâmica chegaram até a protestar, afirmando que não adotavam tal regra. Mas, na essência, esta é a política externa dos Estados Unidos no Iraque em 2007. O Iraque está quebrado, e os Estados Unidos arcam com o ônus do que quer que seja feito para remendar os cacos.

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