A ascensão da Nicarágua: imagem de país arrasado pela guerra é modificada

Laura Bly
em San Juan del Sur, Nicarágua

Há muito tida como a ovelha negra da América Central, a Nicarágua está se esforçando para apagar a sua reputação da década de oitenta de posto avançado da guerra, onde os gringos tinham mais probabilidade de encontrar camponeses portando fuzis Kalashnikov do que um hotel confortável. E um elemento central desta campanha de reabilitação é esta ex-aldeia suja de pescadores que se transformou em paraíso do surfe e no Próximo Paraíso para os viajantes intrépidos.

Um sol de meado de inverno paira sobre o horizonte do Oceano Pacífico, lançando um brilho agradável sobre a baía em forma de meia-lua da qual milhares de caçadores de fortuna partiram de barco rumo à Califórnia durante a Corrida do Ouro. Atualmente o local está repleto de restaurantes sombreados por coqueiros, nos quais os turistas saboreiam cervejas por um dólar e bebidas à base do rum nicaragüense Flor de Cana.

A dois quarteirões, na La Pousada Azul, recém-inaugurada por nativos de Santa Fé, os hóspedes se encontram à beira da piscina e aguardam o jantar em um novo restaurante nas colinas vizinhas que um visitante norte-americano anterior, Mark Twain, elogiou, classificando-as de "convidativas, encantadoras e totalmente adoráveis".

Mas em uma garagem em frente a La Pousada Azul, o humor muda.

Uma multidão local se aglomera em volta de um homem com um megafone e uma reclamação: moradores cujas famílias estão aqui há gerações, incluindo alguns que venderam propriedades a investidores estrangeiros por cerca de US$ 10 mil, alguns anos atrás, apenas para vê-las serem revendidas por um preço 40 vezes maior. Agora esses moradores têm acesso negado à praia, invadida pelos condomínios fechados ao longo da costa. Recentemente um grupo de pescadores alegou ter sido ameaçado por seguranças armados quando o seu barco chegou muito perto da praia de um condomínio ao norte da vila.

Embora o atrito entre estrangeiros ricos e nativos pobres possa se constituir em uma história familiar em outras localidades turísticas do Terceiro Mundo, isso é novidade na Nicarágua, país que está novamente nas manchetes dos jornais, depois da posse, no mês passado, do presidente Daniel Ortega, ex-guerrilheiro marxista e inimigo dos Estados Unidos.

O líder sandinista de 61 anos que certa vez combateu o "imperialismo ianque" prometeu proteger o livre comércio e a propriedade privada, além de acelerar os investimentos internacionais na incipiente indústria turística do seu país. O maior país da América Central - e, segundo diversos estudos, o mais seguro - ganhou o título de "o sabor do mês" por parte de árbitros influentes como Arthur Frommer, Lonely Planet e Yahoo Travel. Cerca de 773 mil estrangeiros foram atraídos para cá no ano passado, o que representa um aumento de 8% em relação ao ano anterior.

Assim como diversos visitantes, Rob e Carol Wilson, de Seattle, foram seduzidos pelas histórias a respeito do amigável povo nicaraguense, do belíssimo litoral, das paisagens vulcânicas e da arquitetura colonial - e pela satisfação de explorar um local que os turistas norte-americanos típicos não chegaram sequer a pensar em visitar.

"Cozumel é como Miami, exceto pelo fato de lá eles não falarem espanhol", afirma Rob, um professor universitário. "Estamos sempre ampliando os nossos horizontes". A sua recente viagem de dez dias incluiu a participação em uma tradicional festa na região cafeeira ao sul de Manágua, uma visita à cratera fumegante do vulcão Masaya e um passeio de caiaque pelo Lago Nicarágua, o oitavo maior do mundo.

Além de visitantes aventureiros de férias como os Wilson, cerca de 7.000 norte-americanos vivem pelo menos durante parte do ano na Nicarágua. Muitos se concentram nas proximidades de San Juan del Sur e outras vilas da costa do Pacífico, onde o número de condomínios aumentou de cerca de 25 para quase cem em um período de três anos, e de Granada, cidade situada na costa noroeste do Lago Nicarágua e candidata a ser promovida a patrimônio cultural pela Unesco.

Fundada por conquistadores espanhóis em 1524 e reconstruída depois que o mercenário norte-americano (e auto-declarado presidente da Nicarágua) William Walken destruiu-a completamente por meio de um incêndio em 1857, Granada lembra as mais conhecidas Antigua e Guatemala - antes que esta última ficasse saturada de mochileiros e ciber-cafés.

O turismo também fez progressos por aqui: mais de uma dúzia de hotéis e companhias de turismo abriram as portas nos últimos doze meses, e os estrangeiros compraram tantas das várias casas coloniais coloridas ao longo da principal artéria, a Rua La Calzada, que um guia turístico local diz que o novo apelido do local é "Gringolândia". Mas a cidade continua sendo um local discreto e genuíno, no qual os moradores ficam em frente às suas casas ao fim da tarde, a fim de verem o movimento na rua, sentados em cadeiras de balanço.

Para visitantes estrangeiros que aqui vieram morar, "esses são os bons e velhos dias", afirma Terry Leary, um ex-voluntário da Corpos de Paz que se tornou co-proprietário, juntamente com a irmã, Nancy Bergman, da Casa San Francisco, um pequeno hotel situado no coração do compacto distrito histórico de Granada.

Apesar da retórica conciliatória de Ortega, a sua reeleição com 38% dos votos se constituiu "na materialização do pior medo de todos", admite Bergman. "Mas agora o esqueleto saiu do armário, e precisamos seguir em frente. Os últimos presidentes na verdade pouco fizeram para desenvolver este país, e se Ortega for capaz de manter o equilíbrio entre Chávez, à esquerda, e os Estados Unidos, creio que estaremos bem", acrescenta ela.

Essa tarefa, assim como várias outras na Nicarágua, não será fácil. Perdendo apenas para o Haiti na lista das nações mais pobres do hemisfério ocidental, este é um país no qual 80% da população vive com menos de US$ 2 por dia. Carros de bois são mais numerosos do que automóveis nas estradas esburacadas do interior, e as interrupções do fornecimento de energia elétrica são tão freqüentes que chegam a ser mencionadas nos panfletos dos hotéis. E embora o turismo seja visto como fator fundamental para o crescimento econômico, ainda prevalece aqui uma mentalidade de velho oeste.

Durante um passeio de caiaque para a observação de pássaros em Las Isletas, um arquipélago de 350 ilhas no Lago Nicarágua, formado próximo a Granada quando o vulcão Mombacho entrou em erupção milhares de anos atrás, o cenário inclui garças e de vez em quando manadas de gado - além das sacolas plásticas que, segundo uma piada, se tornaram a flor nacional da Nicarágua.

Várias das pequenas ilhas trazem placas com anúncios de venda, incluindo uma pequena ilhota deserta, que não passa de um denso emaranhado de árvores e cipós tropicais. O futuro desta ilha? "Eles provavelmente detonarão explosivos nela para construírem uma casa de férias", diz o guia turístico Jalro Robles.

De volta a San Juan del Sur, as tentativas de criar um parque marinho nas águas próximas prosseguem cuidadosamente, afirma Colin Pope, um canadense que é gerente da Scuba Shack, uma loja de mergulho e surfe que foi inaugurada aqui alguns meses atrás.

"A Nicarágua precisa demais de desenvolvimento controlado", afirma Pope. "Mas este é um país muito pobre, e eles enfrentam questões mais sérias do que o fato de alguém capturar um número excessivo de sailfish".

Mas o prefeito sandinista de San Juan del Sur, Eduardo Holmann, que falou na recente reunião municipal defendendo os esforços para o fortalecimento e o aperfeiçoamento da legislação existente que garante o acesso público às praias, está otimista. Formado pela Universidade Notre Dame, ele foi elogiado por instituir uma legislação que limita a altura dos novos prédios a três andares, e por uma campanha bem sucedida e em andamento no sentido de limpar a ampla praia da cidade, em forma de meia-lua, todas as manhãs.

Uma velha fábrica de processamento de pescado foi transformada em centro cultural, e fala-se na construção de um novo calçadão. E, instalado em um mirante do qual se pode vislumbrar a cidade, o ex-Hotel Pelican Eyes de São Francisco se tornou um dos mais populares hotéis da Nicarágua. Nele as diárias a partir de US$ 120 ajudam a financiar um programa de uniformes escolares, bolsas educacionais e treinamento profissional.

"A agenda política do país não é algo como Robin Hood roubando os ricos para alimentar os pobres", afirma Holmann. "Mas o turismo é acompanhado de responsabilidade - para com a natureza e as pessoas".

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