Baton Rouge pós-Katrina busca sua identidade

Kevin Johnson
em Baton Rouge, Lousiana

As mesas estão postas com toalhas passadas brancas. Muitos dos pratos famosos que tornaram o restaurante Galatoire's uma instituição na Bourbon Street de Nova Orleans - Oysters Rockefeller, Salad Maison, Trout Amadine - estão no cardápio. Na porta do Galatoire's, entretanto, não se vê a rua agitada. Em vez disso, o Galatoire's Bistrô é a ancora pouco provável de um shopping center no subúrbio de Baton Rouge. O restaurante foi aberto apressadamente no final de 2005, após a enchente causada pelo furacão Katrina forçar o fechamento de Bourbon Street por vários meses.

É um sabor de Nova Orleans embrulhado em um crescimento suburbano, um símbolo da migração pós-Katrina que continua a redefinir a vida nesta cidade a 130 km a noroeste de Nova Orleans. Talvez nenhuma outra cidade tenha sido mais afetada pelas centenas de milhares de pessoas que fugiram de Nova Orleans após o Katrina no dia 29 de agosto de 2005. Dias depois, Baton Rouge, uma cidade de 225.000 habitantes, era uma massa sobrecarregada de 500.000 pessoas.

Muitos desabrigados estavam apenas de passagem, mas funcionários da prefeitura dizem que hoje a população de Baton Rouge continua entre 275.000 e 325.000. Do trânsito ao estilo de Los Angeles na estrada Interestadual 10 até as escolas superlotadas e os preços de imóveis em ascensão que alimentaram uma falta de moradias, Baton Rouge parece estar lutando para controlar sua direção.

E apesar da chegada de novos residentes não ter aumentado dramaticamente os índices de crimes, muitos moradores sentem que Baton Rouge perdeu sua medida de cidade pequena "pré-K", como dizem. Na última primavera, uma pesquisa da Universidade Estadual de Louisiana (LSU) examinando o impacto do Katrina revelou que 30% dos moradores de Baton Rouge acreditavam que pessoas "rudes e pouco amigáveis" eram um sério problema da cidade.

A reclamação mais comum dos moradores? O trânsito, de longe. Mais de dois terços dos entrevistados pela LSU disseram que era um sério problema.

A população de Baton Rouge alcançou um marco que as projeções pré-Katrina estimavam para o ano de 2030. Funcionários do governo dizem que o planejamento de uma série de projetos teve que ser acelerado em um quarto de século.

Desde o Katrina, os eleitores aprovaram um plano de construção de estradas de US$ 500 milhões (em torno de R$ 1,1 bilhão) que está sendo patrocinado pelo imposto sobre vendas. Enquanto isso, o departamento de polícia quer acrescentar 100 homens à sua força de 600, pois a polícia e o corpo de bombeiros estão tendo que atender mais chamadas de emergência.

A expansão das unidades de segurança pública está sendo patrocinada pelo crescimento de Baton Rouge: um superávit de US$ 25 milhões (cerca de R$ 55 milhões) de renda com vendas de 2005 e 2006.

O cenário da cidade foi alterado

A situação financeira não é tão clara nos sistemas escolares do município de Ascension e de Baton Rouge do Leste, que precisam de dezenas de novos prédios para lidar com a entrada de mais de 4.000 alunos desde o Katrina. Não está claro quando as escolas poderão ser construídas ou como serão financiadas. "Nunca seremos a Baton Rouge que éramos antes do Katrina", disse o prefeito Melvin "Kip" Holden.

Os desabrigados "mudaram o cenário desta região para sempre. Nenhum de nós sabe de fato por quanto tempo será esse impacto", disse o sargento de polícia Don Kelly.

A mensagem no cartaz eletrônico na I-10 em recente tarde advertia aos motoristas que um trecho de 5 km na direção do centro levaria 20 minutos para ser ultrapassado.

Nas estradas da área de Baton Rouge onde o congestionamento era raro há menos de dois anos, viagens lentas e cansativas são a norma - independentemente da hora do dia.

Para ter certeza de que chegará a seu trabalho nos Correios em Nova Orleans para o início de seu turno das 23h, Kathleen Lucien, que teve que se mudar por causa do furacão, algumas vezes sai de casa em Baton Rouge às 20h.

Diferentemente de outras áreas urbanas, Baton Rouge não tem um anel viário para ajudar a aliviar o trânsito das ruas locais.

Holden acredita que foi eleito em novembro de 2004 por sua campanha com ênfase nos transportes. Entretanto, só após o Katrina os eleitores aprovaram o plano de US$ 500 milhões para melhorar as estradas. Três dúzias de pontos de congestionamento serão alvos de melhorias; cerca de 80% do trabalho será feito na próxima década.

Holden diz que a cidade precisa de mais US$ 1 bilhão (aproximadamente R$ 2,2 bilhões) para reconstruir 80 km de sistema de esgoto, construir e concertar calçadas e expandir a I-10. "A cidade mudou", diz Holden, acrescentando que serão necessárias a assistência federal e estadual.

"10 anos de crescimento da noite para o dia"

O superintendente das escolas do município de Ascension, Donald Songy, diz que nunca se esquecerá da cena na escola Dutchtown Middle, quando os alunos voltaram para o campus de Baton Rouge após o verão em setembro.

O primeiro dia de aula sempre envolve algum caos, diz Songy, mas aquele foi ridículo. Quase 2.000 crianças dirigiram-se ao campus que normalmente abrigava 1.100. Um ginásio foi convertido em três salas de aula para a sexta-série. "Fomos atingidos com 10 anos de crescimento em um dia", diz Songy.

Antes do Katrina, funcionários do município estimavam que o crescimento da área elevaria as matrículas nos sistema educacional para cerca de 16.000 alunos entre 2010 e 2015. No outono de 2006, um ano após o Katrina, 18.000 alunos registraram-se nas escolas do município.

Songy diz que o crescimento ocorreu tão rapidamente que a "personalidade do distrito" mudou instantaneamente de rural para "subúrbio em expansão". No ano que vem, a primeira de cinco novas escolas deve ser aberta. Songy diz que, mesmo se pudesse abri-la agora, estaria superlotada. Um pico similar de matrículas ocorreu no sistema educacional do município de Baton Rouge do Leste, em escala muito maior.

Após o Katrina, as inscrições aumentaram de 46.212 para 52.923. Desde então, declinaram, enquanto algumas famílias que fugiram de Nova Orleans para Baton Rouge seguiram adiante. As admissões no município agora são de cerca de 48.465, diz a superintendente Charlotte Placide.

Para ajudar o sistema escolar, a Agência de Administração de Emergências Federal (Fema) construiu 78 salas de aula temporárias em 39 escolas, diz Placide. Também foram reabertas duas escolas que estavam fechadas. Placide diz que, quando as escolas reabriram, menos de um mês após o Katrina, todos os alunos e professores vinham de fora.

As salas de aula da Fema ajudaram, mas Placide diz que o distrito precisa de mais prédios permanentes. Mesmo que consiga mais salas de aula, ela se preocupa com a capacidade do sistema de ajudar os alunos traumatizados pela enchente e evacuação de Nova Orleans.

"Muitas dessas crianças tiveram experiências difíceis naquele furacão", diz ela. "Como isso vai afetá-las quando ficarem mais velhas, não sei. Estou preocupada com o desconhecido."

Muitos temiam uma onda de crimes

Quando a primeira onda de desabrigados chegou a Baton Rouge, o medo tomou a cidade, diz Kelly. Houve relatos -quase todos falsos- de pilhagem, confusões e membros de gangue descontrolados, diz ele.

"Houve um temor genuíno de que a cidade seria dominada", diz o prefeito Holden. Para seu alívio, o temor que os desabrigados do Katrina iam gerar uma onda de crimes em Baton Rouge não se concretizou.

No mês seguinte à tempestade, os roubos e assaltos a carros aumentaram em quase 50%, de acordo com números da polícia. Os homicídios aumentaram de 47 em 2004 para 56 no ano passado, mas, dado o aumento na população da cidade, o total de 2006 de fato representou um índice de homicídios per capita mais baixo do que a cidade teve no ano anterior ao Katrina.

A experiência foi diferente em outras cidades com números significativos de desabrigados pelo furacão - notavelmente Houston, para onde se estima que tenham ido 150.000 pessoas. O chefe de polícia de Houston, Harold Hurtt, disse que seu departamento associou 24% dos assassinatos nos primeiros cinco meses de 2006 com os novos moradores.

Em Baton Rouge, talvez alguns dos 56 mortos do ano passado envolveram os desabrigados, diz Kelly. "Há uma sensação até hoje de que os novos habitantes estão aumentando o crime", disse ele. "Mas não é necessariamente verdade."

Kelly diz haver evidências de que aqueles que se estabeleceram em Baton Rouge provavelmente têm famílias e amigos na cidade, tornando-os menos propensos a recorrerem ao crime do que aqueles que foram para outros lugares. Mesmo assim, o departamento de polícia está apressando-se para aumentar o pessoal e responder à demanda do aumento populacional. Os 100 novos policiais para o departamento serão contratados nos próximos quatro anos. A contratação "é quase diretamente associada ao aumento de população", diz Kelly. "Ainda estamos vendo crescimento até hoje."

Uma crise na habitação

Em Springbrook, uma nova subdivisão de casas a sudeste de Baton Rouge, os dias de mudança têm uma aparência pouco tradicional. Muitos compradores aparecem em sua nova casa sem vans ou caminhões carregados de móveis. Eric Dudley, vendedor da KB Homes, diz que geralmente um carro aparece com todas as posses da família em algumas malas ou sacos plásticos. "Muitas pessoas que vemos perderam tudo", diz Dudley. "Estão apenas tentando recuperar suas vidas."

Ao menos 40% das pessoas que se mudaram para o empreendimento de 22 hectares foram desabrigadas pela tempestade, diz Clint Szubinski, presidente da região. Os que se estabelecem ali são os afortunados: por causa da demanda crescente por casas na área, os preços estão escalando para além do alcance de muitos compradores potenciais, criando o que analistas imobiliários dizem ser uma crise em moradias acessíveis.

O preço médio de uma casa no município de Baton Rouge do Leste em 2006 foi US$ 15.000 mais caro do que em 2005. No município de Ascension, o preço médio foi de US$ 201.846 no ano passado e de US$ 161.673 em 2005.

Os aluguéis aumentaram após a tempestade em cerca de 12%, de acordo com D. Wesley Moore, professor adjunto do Instituto de Pesquisa Imobiliária da LSU. Antes da tempestade, um apartamento de dois quartos era alugado por US$ 627 (aproximadamente R$ 1.400) por mês. Depois, a média era de US$ 703 (em torno de R$ 1.600).

David McKey, próximo presidente do Conselho de Agentes Imobiliários de Baton Rouge, diz que a necessidade mais urgente é de casas accessíveis, entre US$ 100.000 a US$ 150.000 (entre R$ 220.000 e R$ 330.000). O objetivo da prefeitura é reforçar a oferta dessas moradias em 5.000 unidades em cinco anos.

Em Springbrook, onde as casas são vendidas por US$ 160.000 a US$ 180.000, o preço estava certo para Kathleen Lucien, sua filha, Nina e seu neto Jadon, 6, que antes moravam no bairro altamente danificado de Nova Orleans 9th Ward. Lucien diz que comprou em Baton Rouge "para nunca ter que fugir de um furacão novamente".

Ela ainda pensa em reconstruir sua casa em Nova Orleans, se conseguir fechar um acordo com sua empresa de seguro. Em sua viagem diária para Nova Orleans, ela freqüentemente passa por sua antiga casa.

"Muitas pessoas que conheço estão morando aqui", diz Lucien. "As pessoas de Baton Rouge nos receberam de braços abertos, na maior parte. Eu gosto de Baton Rouge. Mas ainda amo Nova Orleans." Deborah Weinberg

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