Os Estados Unidos fariam bem em conversar com nova geração de líderes cubanos

DeWayne Wickham
em Havana

Mais de seis meses após o presidente cubano Fidel Castro ter passado "temporariamente" o poder ao seu irmão, Raul, este país parece estar funcionando no piloto automático.

Turistas do Canadá e da Europa lotam os quartos de hotéis luxuosos no bairro de Havana Velha na capital de Cuba. À noite, há poucas cadeiras vazias nos restaurantes dos outrora chiques bairros de Vedado e Miramar.

O distrito de compras de Galiano, em Havana Central, apresenta um fluxo contínuo de cubanos. Alguns têm dinheiro para gastar nas "lojas de dólares" que oferecem bens de consumo a preços elevados. Mas a maiorias deles vêm simplesmente para olhar as vitrines ou comprar o que quer que tenham condições nas mal supridas lojas nas quais a moeda aceita é o peso. É nestas lojas que a maioria dos cubanos faz suas compras.

Os racionamentos de alimentos, os apagões, o desejo de condições melhores e o desdém generalizado dos cubanos pelo longo embargo econômico norte-americano são elementos que compõem a estrutura de vida neste país.

O povo cubano é resistente. Apesar de todos os problemas que afligem o país - e a lista é longa - a população conta com uma expectativa de vida e um índice de alfabetização iguais aos dos Estados Unidos, além de um índice de mortalidade infantil menor que o dos norte-americanos, segundo o Relatório de Informações Mundiais da CIA de 2007.

Castro, o chefe de Estado que está há mais tempo no poder, pode estar com a saúde precária, mas isso não fez com que o país entrasse em queda livre, conforme muita gente esperava em Washington e Miami. O governo de Cuba está em transição. Mas para a maioria da população de 11,4 milhões de habitantes, a lenta saída de Castro do poder representou poucas mudanças.

Embora o governo Bush tenha criado uma comissão para determinar como "apressar" a transição de Cuba rumo à democracia, os líderes cubanos chamam essa tentativa de ilusão, bem como de afagos políticos nos cubano-americanos.

"A Revolução Cubana é completamente transcendental", disse-me Ruben Remigio, o presidente do Supremo Tribunal de Cuba. "A revolução é maior do que Fidel. Ela não acabará quando a vida de Fidel terminar".

Remigio, 52, faz parte da estrutura de poder cubana que os políticos norte-americanos e os cubanos anti-Castro geralmente se recusam a reconhecer. Para eles, Cuba e Castro têm sido sinônimos durante quase meio século. Mas a estrutura política deste país na verdade possui várias camadas das quais o próximo líder, ao se olhar para além de Fidel e de Raul Castro, provavelmente emergirá.

Um deles é Ricardo Alarcon, o presidente da Assembléia Nacional, que me disse que os inimigos de Cuba estão enganados ao acreditar que este país se desagregará depois que Castro deixar o cenário político. Segundo ele, Cuba já enfrentou com sucesso essa mudança de poder.

"Isso já ficou provado quando Castro passou o poder a Raul, mais de seis meses atrás", afirmou Alarcon. "O único ruído, a única turbulência, se deu em Miami... O fato é que ele (Castro) está se recuperando satisfatoriamente e o país continua a funcionar muito bem sem quaisquer interrupções devido à sua ausência".

Alarcon é um dos vários membros da hierarquia de governo de Cuba, e acredita-se que ele seja um potencial sucessor dos irmãos Castro. Outros nomes mencionados com freqüência são Carlos Lage, o tsar econômico do país, e o ministro das Relações Exteriores, Felipe Perez Roque. Esses não são nomes familiares em Washington, mas deveriam ser.

Em 1960, C. Wright Mills escreveu que a maioria das coisas que a população estava lendo sobre Cuba na imprensa norte-americana "estava muito distante das realidades e do significado daquilo que está se passando hoje em Cuba". O seu livro, "Listen, Yankee: the Revolution in Cuba" ("Ouça, Ianque: A Revolução em Cuba"), criticou a ignorância dos Estados Unidos a respeito da ilha-nação.

Passados 47 anos, a sua crítica ainda ressoa.

Poucas empresas de notícias dos Estados Unidos têm escritórios em Cuba. E isso apesar do impacto que as relações EUA-Cuba exercem sobre as políticas domésticas norte-americanas (apesar das tentativas de vários presidentes norte-americanos de extinguir a vida econômica de Cuba).

Embora as empresas de mídia freqüentemente divulguem notícias sobre os poucos cubanos que fogem em barquinhos para os Estados Unidos, elas não se dão ao trabalho de publicar reportagens sobre os milhares de indivíduos que obtêm permissão para voar para o exílio todos os anos, segundo um acordo de imigração firmado entre os dois países no início da década de 1990.

Essa cobertura equivocada permite que os políticos em Washington - e os ativistas cubanos em Miami - pintem de demoníaco o regime de Fidel Castro. E com uma mudança de liderança em Cuba à vista, isso tem possibilitado a esses indivíduos ludibriar os norte-americanos, fazendo com que estes acreditem que o governo Bush tem um papel a desempenhar nessa transição.

Cuba está se aproximando de uma encruzilhada importante. O controle do governo em breve passará da sua velha guarda revolucionária para uma nova geração de líderes. Os Estados Unidos deveriam procurar conversar com esses líderes, e não enfurecê-los. UOL

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