Hugo Chávez é incompreendido?

David J. Lynch
Em Caracas, Venezuela

Ele anda pela América Latina lançando insultos ao presidente Bush, rosnando aos EUA como "império" inimigo e gastando bilhões em dinheiro de petróleo para minar Washington sempre que pode.

Para muitos americanos, o presidente da Venezuela Hugo Chávez parece um latino selvagem. No entanto, para milhões de venezuelanos que o adoram, ele é o primeiro governante que cuida genuinamente da maioria pobre da nação, bem diferente dos políticos que tradicionalmente serviram à elite privilegiada.

Mario Lúpez/EFE 
Apesar de dominar a política na região, parece que Chávez está perdendo terreno em casa

"Acho que Deus o enviou. Acho que é a reencarnação de Simon Bolívar. Ele está com os pobres", diz Omaira Perez, 60, referindo-se ao general do século 19 que liberou a Venezuela do jugo espanhol.

Esta figura maior que a vida, entretanto, talvez seja mais vulnerável do que parece. Há sinais de que Chávez, apesar de dominar a política da região, está perdendo terreno em casa e em outras partes na América Latina.

Nos últimos dois anos, Chávez distribuiu ajuda generosa na forma de petróleo barato e pela compra de bônus de países como Cuba, Bolívia e Argentina. Mas apesar de toda sua benevolência, Chávez não é mais popular do que Bush na região.

Uma pesquisa recente da firma chilena Latinobarômetro constatou que os dois estavam na parte inferior de uma lista de 10 líderes regionais, ambos com 39%. O esforço de Chávez para conquistar uma vaga rotativa no conselho de segurança da ONU no último outono desmoronou depois que ele destruiu os EUA em um discurso ao corpo mundial e chamou a ONU de "inútil".

Mesmo em casa, a posição política do presidente pode estar se erodindo. Alguns críticos se preocupam que a mão de ferro de Chávez em todas as instituições do governo e seu "socialismo para o século 21" têm sinais assustadores de ditadura. "Isto não é Cuba. Chávez não é Castro", diz Teodoro Petkoff, ex-candidato da oposição à presidência e agora editor do jornal Tal Cual.

A insistência do líder venezuelano em unir em um único bloco socialista inúmeros partidos de esquerda e eliminar os limites de mandatos presidenciais da Constituição abriu as primeiras fissuras em sua coalizão. A inflação anual de mais de 20% -a mais alta da América Latina- está minando os ganhos econômicos dos últimos anos e gerando dúvidas sobre os gastos de Chávez. Nacionalizações recentes de duas empresas de propriedade americana azedaram ainda mais o ambiente empresarial.

Uma figura divisiva

Até mesmo alguns simpatizantes estão começando a questionar o ex-pára-quedista do Exército que dá aos EUA um oponente latino-americano mais carismático desde Fidel Castro. "Ele divide o país. Ele polariza o país. Enquanto estiver lá, não acho que o país conseguirá se estabilizar", disse Margarita Lopez Maya, historiadora da Universidade Central da Venezuela.

Oscar Schemel, que faz pesquisas de opinião pública, diz que Chávez, 52, está perdendo apoio porque seu foco desde as eleições em questões ideológicas não tem apelo popular. Na mais recente pesquisa de Schemel, 41% dos entrevistados disseram que Chávez estava fazendo um bom ou excelente trabalho, enquanto 38% rotularam seu desempenho como abaixo da média. Em novembro, Chávez apreciava uma margem de 49 a 31%.

Apesar da enorme popularidade pessoal de Chávez, 71% dos entrevistados disseram querer um tipo diferente de presidente. "As pessoas descrevem o novo líder como uma pessoa que não é 'chavista' nem oposição, nem rica nem pobre, nem um nem outro", disse Schemel. "Alguém que possa nos unir".

A "revolução bolivariana" de Chávez dá aos pobres clínicas médicas gratuitas, projetos de leitura e supermercados subsidiados. Em seus programas de televisão semanais, ele fala com a linguagem direta, muitas vezes mundana, das ruas. Murais vermelhos com sua imagem estão em toda parte nesta capital áspera.

No palco mundial, entretanto, o presidente defende Castro e Mahmoud Ahmadinejad, do Irã, e até seus defensores algumas vezes arrepiam-se com suas loucuras. Ele acabou com Bush chamando-o de "o diabo" e de "cadáver político" e sugeriu que a secretária de Estado Condoleezza Rice é sexualmente frustrada e "analfabeta". Durante recente excursão de Bush à América Latina de seis dias, Chávez alegremente procurou fazer sombra no presidente dos EUA, atraindo grandes massas para comícios anti-americanos na Argentina e Nicarágua, nos quais gritou "gringo, vá para casa!"

Por meio do controle da empresa de petróleo americana Citgo, subsidiária da estatal de petróleo da Venezuela, Chávez distribuiu neste inverno mais de 100 milhões de galões de óleo para aquecedores domésticos com desconto em 16 Estados americanos. O programa, que aparece em anúncios na televisão da Citgo, beneficiou mais de 400.000 lares.

A distribuição, apesar de apontar para a incapacidade da nação mais rica do mundo de cuidar dos seus, não ajudou muito a imagem de Chávez nos EUA. Em uma pesquisa do USA Today/Gallup deste mês, apenas 9% aprovaram o líder venezuelano.

Ainda assim, Chávez -que disse no início do mês que os EUA tinham despachado "unidades especiais da CIA, verdadeiros matadores" para assassiná-lo- não enfrenta iminente ameaça política. Seu mandato vai até 2012, e a oposição que ele venceu em três eleições presidenciais e sete referendos continua moribunda. Ele tem firme controle sobre os militares, então a perspectiva de um golpe, como o que brevemente derrubou-o do poder há cinco anos, é remota. Fortalecido por uma renda anual de petróleo que passou de US$ 8,6 bilhões (aproximadamente R$ 17 bilhões) em 2001 para cerca de US$ 49 bilhões (em torno de R$ 98 bilhões), ele tem dinheiro suficiente.

No último domingo, no programa de televisão semanal "Alô Presidente" - no qual tipicamente passa horas respondendo perguntas dos cidadãos ao estilo "Larry King" - Chávez, com uma camisa vermelha de manga curta e desabotoada no pescoço, recebeu arquitetos visitantes cubanos, criticou a política americana para o Irã e descreveu projetos de estabelecer novas cidades satélite em torno de Caracas. Apesar de não explicar o contorno preciso de seu plano socialista, ele prometeu proteger a propriedade privada. "Aqui estamos criando nosso próprio modelo", disse ele.

Popular entre os pobres

O líder venezuelano claramente retém o afeto feroz dos pobres. Seu total de votos na reeleição de dezembro, de 7,3 milhões, foi mais que o dobro do que quando venceu em 1998. "Ele fez um ótimo trabalho", diz Henri Ibanez, 49, residente do bairro de Catia. "Os corruptos que antes dirigiam este país - eles saíram!"

Catia é uma favela dura, de trabalhadores pobres e desocupados bêbados, onde as casas de telhado de metal se agarram a uma montanha íngreme diretamente abaixo de uma série de fios de alta tensão. Os moradores sobem escadas de concreto estreitas e passam por vielas cheias de lixo, garrafas vazias de refrigerante, fezes de cachorros e frutas podres para chegar às suas casas. Dentro, muitas são limpas e decoradas com alguns poucos ornamentos modestos.

Por décadas antes de Chávez assumir o poder, os políticos ignoraram pessoas como essas. Hoje, elas estão no centro da política do país. Evidências do impacto que suas políticas têm nas vidas individuais podem ser encontradas em um centro de distribuição de combustível abandonado onde o governo instalou uma cooperativa de trabalhadores chamada Fabrício Ojeda.

Uma placa na entrada diz: "A mudança em pensamento em favor do coletivo é o início da revolução."

Dentro, 154 pessoas locais -152 mulheres- fazem uniformes para o exército, escolas e empresas. A cooperativa faz parte da estratégia do governo de reforçar a autoconfiança construindo o que chama de centros de "desenvolvimento endógeno" em torno do país. Na fábrica de têxteis, abaixo do retrato de Chávez, Mirta Molina diz que muitos dos trabalhadores estavam desempregados há muito.

"O governo nos dá os instrumentos para construirmos nosso próprio destino", diz ela. "Estamos tentando gerar o bem coletivo, não só para nós, mas para a comunidade e o país."

No alto da fábrica limpa e bem iluminada, ventiladores movimentam o ar. Em uma parede, imagens de Jesus Cristo, Che Guevara e Chávez competem por espaço com um aviso de "é proibido fumar".

Três anos atrás, Nancy Muentes, 28, ficava em casa com seus filhos. Hoje, seu salário mensal de 465.000 bolivares -cerca de R$ 440, segundo o índice oficial- facilita o atendimento das necessidades das crianças. Seu marido não trabalha em tempo integral. Sobre seu primeiro pagamento, ela diz: "Me senti bem porque nunca tinha tido dinheiro. Todo o dinheiro que eu tinha era do meu marido."

Carmen Poleo atravessou o quintal e levou seu neto de 13 anos para a clínica médica, para que seu pescoço inchado fosse examinado. Até 400 pessoas por dia são atendidas pelos dentistas ou médicos, fazem exames de raios-X ou outros e até recebem serviços especializados de obstetrícia e ginecologia. Esses benefícios, a cola que une Chávez a seu povo, fazem parte de gastos sociais anuais de US$ 7 bilhões (em torno de R$ 14 bilhões) em novos programas de saúde e educação, diz o Conselho de Relações Exteriores. "Freqüentamos muito aqui. É bom o atendimento", diz Poleo. "Os hospitais públicos são aqui perto - algumas vezes eles nem nos atendem."

Ricos não estão do seu lado

Mas as esperanças de Chávez de refazer a sociedade venezuelana com um socialismo único são amargamente rejeitadas pelos afluentes. No shopping center de sete andares El Tolon, o cinema de muitas telas está apresentando "Borat". Os consumidores podem jantar no Il Grillo, restaurante italiano onde um almoço para dois de carpaccio super fino, tortellini recheado com queijo gorgonzola e salada mediterrânea custa U$ 65 (cerca de R$ 130).

Na frente da loja da Nine West, o sorriso da designer industrial Alessandra Polga some quando a conversa muda para "aquele maluco do Chávez". Ela está preocupada com a inflação, as tendências coletivistas do governo e afinidade do presidente com Castro. "O principal problema é que as pessoas não se lembram. Elas não vêem que o que aconteceu em outros lugares pode acontecer aqui", diz ela, aludindo a Cuba.

Polga já entrou com um pedido de visto para ir morar com seu irmão no Canadá. Perguntada por que, ela aponta para seu filho de oito meses, Diego, e diz: "Um futuro para meu filho".

Por enquanto, Chávez não se intimida com as críticas e reclamações. O esforço para criar um partido governante único continua, apesar das objeções de três de seus aliados na coalizão. E a reforma constitucional, incluindo a eliminação do limite de mandatos do presidente, pode ir à votação no final deste ano. Alguns analistas sugerem que talvez seja o primeiro concurso que Chávez perderá. "O país está resistindo", disse Petkoff. "Não é uma avenida aberta para seus planos." Deborah Weinberg

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