Consumidores venezuelanos devoram produtos americanos

David J. Lynch
Em Valencia, Venezuela

Você poderia pensar que um país chefiado pelo presidente Hugo Chávez, que é ferozmente antiamericano, seria um péssimo lugar para as empresas americanas fazerem negócios. Enganou-se. Em meio a um boom econômico alimentado pelo petróleo, dezenas de conhecidas corporações americanas estão fazendo vendas impressionantes na Venezuela.

Esse país de 26 milhões de habitantes está entrando no quarto ano de uma robusta expansão econômica e, apesar das relações azedas com os EUA, os consumidores estão devorando carros, eletrodomésticos, fast food e xampu americanos.

Poucos fabricantes estão se saindo melhor que a General Motors. No ano passado a automotiva vendeu um recorde de 92 mil carros e caminhonetes na Venezuela, e espera alcançar quase 160 mil este ano. "A indústria está indo realmente depressa... Hoje tenho uma lista de espera para cada produto", diz Ronaldo Znidarsis, 42, diretor-gerente local da GM.

A GM, que vende carros na Venezuela desde a Segunda Guerra Mundial, literalmente não consegue fabricar veículos com rapidez suficiente para satisfazer os compradores venezuelanos. Sua fábrica local, que fica na "Avenida General Motors" em um bairro industrial perto do aeroporto da cidade, implantou um terceiro turno em 2006 e está funcionando a pleno gás, produzindo mais de 20 modelos.

Mas em vez de expandir a capacidade para suprir a demanda voraz, a GM - como outras companhias americanas - está importando mais produtos. Enquanto Chávez, um autodeclarado revolucionário, promete o grandioso "socialismo do século 21", novos investimentos de bilhões de dólares são arriscados demais.

"Comercialmente o país está em um bom momento. Mas não acho que seja sustentável em longo prazo... A verdade é que não há investimentos entrando", diz Michael Penfold, ex-executivo do órgão de promoção de investimentos da Venezuela.

De um nível anual que flutuou durante a maior parte da última década entre US$ 400 milhões e US$ 700 milhões, o investimento de empresas americanas no ano passado caiu para apenas US$ 50 milhões, segundo Edmond Saade, presidente da Câmara de Comércio e Indústria Venezuelano-Americana em Caracas.

O último grande investimento da GM no país, uma oficina de pintura de US$ 55 milhões, ocorreu há sete anos. A falta de investimentos significa que o crescimento econômico da Venezuela está produzindo menos empregos e mais inflação do que seria desejável.

Economia baseada no petróleo

O crescimento desequilibrado da Venezuela se reflete nas estatísticas sobre o crescimento do comércio entre os dois antagonistas políticos. Os EUA exportaram para a Venezuela US$ 9 bilhões em produtos no ano passado, um aumento de 89% em relação a 2004. Carros, equipamentos para extração de petróleo, produtos químicos e de informática estavam entre os principais itens.

As exportações da Venezuela para os EUA também subiram, mas somente 49%. E quase todos os US$ 37 bilhões vendidos para os EUA foram em petróleo cru e outros produtos de petróleo. A Venezuela fez pequeno progresso na diversificação de sua economia: as receitas do petróleo representam mais de três quartos das exportações do país e cerca da metade de seu orçamento.

Assessores de Chávez negam qualquer problema. Alberto Muller Rojas, um dos principais assessores de política externa do presidente, insiste que as companhias estrangeiras estão investindo. A Venezuela também se compara favoravelmente a países voltados para o mercado, como o Chile, em termos da capacidade de as empresas estrangeiras repatriarem os lucros, ele diz. "Se você for a um shopping center aqui, verá como o socialismo está nos matando", ele diz sarcasticamente.

Poucos líderes são tão apaixonados em seu antiamericanismo quanto Chávez, um ex-oficial militar reeleito em dezembro passado com 63% dos votos. Ele acusou os EUA de buscarem uma ditadura global que "ameaça a própria sobrevivência da espécie humana" e habitualmente acusa o presidente Bush de tramar para derrubá-lo ou assassiná-lo.

Enquanto as relações entre Caracas e Washington continuam se deteriorando, algumas empresas com importantes braços de manufatura e distribuição na Venezuela tornaram-se tímidas para discutir suas operações no país. Johnson & Johnson, Procter & Gamble, Cargill, Kellogg e 3M recusaram pedidos de entrevistas. A 3M emprega mais de 350 pessoas na Venezuela, a Kellogg mais de 200.

Segundo a maioria dos parâmetros, a Venezuela está em plena prosperidade. A economia cresceu em um índice anual de mais de 9% em cada um dos últimos dois anos; este ano deverá desacelerar um pouco, para ainda saudáveis 7%.

O governo Chávez dirigiu uma torrente de dinheiro do petróleo para a economia doméstica, aumentando os gastos em saúde, educação e programas de treinamento. Os gastos do governo dispararam para 41% do Produto Interno Bruto, contra 33% no ano anterior, segundo o Instituto de Finanças Internacionais. O presidente também esparramou benefícios sobre os militares, garantindo acordos vantajosos em novos carros para formandos da academia de oficiais. Muitos veículos são construídos pela GM.

A presença americana se reflete na estrada entre Caracas e Valencia, a 160 quilômetros a oeste da capital. Outdoors de nomes conhecidos como Maytag, Goodyear e McDonald's margeiam a estrada. "Este é um mercado muito bom para as companhias americanas", disse Saade. "Elas estão vendendo um monte de produtos."

Socialismo local

A grande pergunta é como o instável líder venezuelano vai tratar o setor privado no futuro. Chávez, que no início deste mês disse estar relendo os textos de Che Guevara sobre a política econômica soviética, promete construir um socialismo local que vai aperfeiçoar os modelos desacreditados do passado. Ele chegou ao poder em 1998, depois que as políticas voltadas para o mercado, conhecidas como Consenso de Washington, não deram certo na Venezuela e aumentaram a pobreza.

No final dos anos 1980 o governo venezuelano começou a instituir medidas de austeridade exigidas pelos credores do FMI. Os aumentos de preços do transporte público em 1989 provocaram grandes protestos, conhecidos como "caracazo", que levaram a duas décadas de golpes e turbilhão político.

A Venezuela chegou ao fundo depois que uma greve geral paralisou a produção de petróleo durante dois meses, a partir de dezembro de 2002. A economia encolheu 8,9% naquele ano e mais 7,7% em 2003.

Chávez, 52, agora está usando a receita do petróleo para ajudar os pobres. Mas o presidente venezuelano não definiu os contornos precisos do socialismo que ele deseja, deixando um clima de incerteza sobre o futuro. O governo infringiu contratos com quatro gigantes do petróleo envolvidas no desenvolvimento da região da Faixa do Orinoco, pretendendo renegociar acordos mais favoráveis. E quando Chávez anunciou em janeiro que nacionalizaria a Electricidad de Caracas e a provedora de telecomunicações CANTV o mercado de ações despencou em um terço.

Mas a decisão de Chávez de pagar pelas ações em propriedade de estrangeiros, em vez de simplesmente confiscá-las, reduziu os temores dos investidores. A Venezuela pagou à AES Corp. US$ 739,3 milhões pela Electricidad de Caracas e à Verizon US$ 572 milhões por sua participação na CANTV, ajudando a Bolsa de Caracas a recuperar cerca de 15% de suas perdas em meados de janeiro.

Ainda assim, não está claro se outras companhias serão nacionalizadas. E os executivos se perguntam se a tendência do governo à regulamentação vai terminar. Os controles de preços em alguns setores já provocaram a falta de produtos, como carne. Mas a inflação continua subindo, chegando a um índice anual de 20%. "É um jogo completamente novo. Temos de ver como podemos jogar", diz Saade. "Não tenho certeza como, a esta altura."

Algumas empresas não estão esperando para ver o que acontece. A Procter & Gamble, que mantém seu quartel-general para a América Latina em Caracas, vem reduzindo gradativamente o número de funcionários no país enquanto transfere algumas operações industriais para outros lugares do continente. "A P&G está se reduzindo muito silenciosamente", diz Robert Bottome, editor do boletim "VenEconomia" em Caracas.

Doug Shelton, um porta-voz da P&G, disse que não pode confirmar quaisquer mudanças nas operações da empresa no país sem que lhe dêem pontos mais específicos.

Enquanto isso, na GM, Znidarsis faz planos para mais um ano recorde. Natural de São Paulo, Brasil, o especialista financeiro de 42 anos poderia ser um garoto-propaganda da indústria de automóveis globalizada. Desde que entrou para a GM, mais de duas décadas atrás, já trabalhou em Detroit, Zurique, Cingapura, Xangai e Coréia do Sul.

Na Venezuela ele desfruta um mercado de compradores motivados. O boom significa que os venezuelanos da classe média têm muito dinheiro. Os controles sobre moeda estrangeira mantêm o dinheiro preso no mercado interno, e a inflação crescente significa que os consumidores que hesitarem encontrarão preços mais altos depois. As taxas de juros são baixas, tornando interessantes os empréstimos para a compra de carros. O governo também fornece uma isenção fiscal parcial por alguns pequenos carros e caminhonetes, que este ano representará um desconto efetivo de 11%.

A demanda é tão forte que a GM conseguiu aumentar os preços médios em 6% em termos reais. "Os venezuelanos vêem um veículo como uma forma de poupança. É um bem durável", diz Znidarsis.

Esse é um dos motivos pelos quais a designer gráfica Karen Lopez, 25, comprou um Chevy Spark no mês passado depois de esperar numa lista por cinco meses. "Todo mundo disse que o dólar ia disparar e os preços de tudo iam aumentar, inclusive carros, devido à instabilidade das eleições [em dezembro]. Por isso me apressei. ... Em cinco meses - de setembro a fevereiro, quando consegui o carro - o preço aumentou de 19 milhões de bolívares (US$ 8.837) para 21 milhões (US$ 9.767)", ela disse.

Vender carros aqui pode ser fácil, mas fabricá-los é outra história. A fábrica em Valencia é uma das mais complexas da GM, produzindo dezenas de modelos diferentes, de pequenos carros urbanos como o Spark a espaçosos veículos esportivos-utilitários Chevy TrailBlazer. A fábrica de 97 mil m2 emprega quase 3.200 trabalhadores.

Um gargalo é o principal porto marítimo do país, Puerto Cabello. Todos os dias navios carregados com cerca de 1.700 contêineres chegam ao porto. Ele consegue processar apenas cerca de mil deles, provocando atrasos para fabricantes como a GM, que dependem de peças importadas.

Atrasos burocráticos

Em dezembro o governo também adotou sem advertência uma nova regulamentação que torna mais difícil e demorado para os fabricantes importarem as peças necessárias. Hoje, para comprar os dólares necessários para pagar aos fornecedores estrangeiros, Znidarsis precisa obter um certificado do Ministério da Indústria Leve e Comércio confirmando que as peças não estão disponíveis no mercado interno. A GM precisa obter certificados separados cada vez que encomenda uma das várias milhares de peças.

Os atrasos burocráticos estão complicando a tarefa de estocar a quantidade certa de cada peça para a produção em tempo. No início deste mês as linhas de montagem das fábricas locais Toyota e Ford foram desaceleradas ou detidas pelo novo regulamento.

Até agora a GM parece ter navegado melhor que a maioria pelo delicado cenário venezuelano. Mas é difícil saber até quando os bons tempos vão durar. "Acho que 2007 será um ótimo ano. O motivo pelo qual não mostramos 2008 e os anos seguintes (em previsões) é que esse é um grande ponto de interrogação. Se os preços do petróleo continuarem como estão e não houver uma mudanças significativas nas políticas oficiais, 2008 poderá ser razoável", diz Znidarsis. "Sobre 2009 não sei." Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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