Nos Estados Unidos, mega-empresário da música é tragado por escândalo

David Lieberman
em Nova York

Quem quer que conheça Lou Pearlman sabe que ele gosta de viver bem.

O empresário da música, que se tornou famoso por criar e gerenciar bandas de garotos, incluindo a Bakstreet Boys e a 'N Sync, adorava ostentar o seu jato particular Gulfstream V, o Rolls-Royce Phantom 2004, a cama Luís 14 e o relógio Rolex de US$ 250 mil. A maioria dessas lantejoulas do sucesso desapareceu. Em vez de viver com fartura, Pearlman está foragido.

O Departamento de Regulamentações Financeiras da Flórida diz que não é capaz de localizá-lo desde que ele deixou o país em janeiro, dois meses após um dos seus mais antigos amigos suicidar-se - e quando policiais estaduais e federais se mobilizaram para investigar aquele que pode ser um dos maiores casos de fraude da história da Flórida.

As autoridades policiais acreditam que Pearlman, 52, criou um esquema fraudulento que drenou cerca de US$ 317 milhões de mais de 1.400 investidores individuais e US$ 150 milhões adicionais de bancos.

Pearlman é acusado de persuadir os investidores a aplicar dinheiro naquilo que ele apresentava como um fundo de investimento seguro e de alta rentabilidade. Mas ele não reinvestiu o dinheiro dessas pessoas em aplicações geradoras de lucros, anunciou o Departamento de Regulamentação Financeira da Flórida em uma audiência judicial.

A instituição alega que Pearlman embolsou grande parte do dinheiro - tendo ocultado isso ao fragmentar o montante entre as dezenas de companhias que controlava, incluindo a sua firma mais conhecida, a Trans Continental Enterprises.

Os investidores não tinham como saber o que se passava. Segundo os autos processuais, quando eles precisavam sacar determinada quantia, o empresário pagava-os com dinheiro de novos clientes.

"Nós fizemos análises bancárias durante três anos e confirmamos que US$ 150 milhões foram parar em algum lugar que não era o destino correto dessa quantia", afirma Bob Rosenau, diretor de investigações financeiras do Departamento de Regulamentação Financeira da Flórida.

O esquema desmoronou no segundo semestre do ano passado. Em fevereiro um tribunal estadual transferiu a posse dos bens extravagantes e das companhias de viagem de Pearlman para um interventor que procura arrecadar os meios para ressarcir investidores e credores. Até o momento, nenhuma agência governamental o acusou de ter praticado crime.

Mas o Departamento de Justiça, o IRS (a receita federal dos Estados Unidos) e a Federal Deposit Insurance Corporation estão cogitando tomar medidas contra Pearlman ou para ajudar os investidores. Em meados de fevereiro essas agências, munidas de um mandado de busca, vasculharam a residência e os escritórios do empresário.

Alguns financiadores solicitaram a um tribunal federal de falências que colocasse Pearlman e várias das suas companhias Trans Continental em estado de falência involuntária. Mas pode ser muito tarde para isso.

"A menos que Lou Pearlman apareça dizendo, 'Embolsei US$ 100 milhões, e o dinheiro está em uma conta bancária nas Ilhas Cayman', não enxergo muita coisa em termos de bens que valham alguma coisa ou que já não tenham sido confiscados para pagamento das dívidas", diz Gerard McHale, o interventor designado pelo tribunal.

As conseqüências podem ser trágicas para alguns investidores individuais. "Nós representamos alguns ex-combatentes portadores de deficiências, e esse dinheiro era tudo o que eles tinham", afirma o advogado Bob Persante, um dos donos do escritório de advocacia Persante & McCormack, que representa oito dos investidores individuais de Pearlman. "Eles colocaram tudo nesse fundo, e agora o dinheiro desapareceu. Para onde foi o dinheiro? Para a sua casa de 1.500 metros quadrados e para outros projetos de Pearlman".

Embora as autoridades não consigam encontrar Pearlman, ele enviou uma carta para o jornal "Orlando Sentinel", publicada em 4 de fevereiro, afirmando que estava na Alemanha promovendo uma nova banda juvenil, a US5. Ele escreveu que não faria comentários a respeito da investigação. "Mas a minha equipe executiva e eu estamos trabalhando arduamente para resolver esses problemas", garantiu Pearlman.

No início de março, ele disse à revista alemã de adolescentes "Bravo" que está ansioso para provar a sua inocência. Mesmo assim, é difícil imaginar como Pearlman poderá algum dia recuperar o prestígio de que gozava há alguns anos. "Houve uma época em que ele era o rei do ramo da música", diz Strauss Zelnick, co-proprietário da companhia ZelnickMedia e ex-diretor-executivo da BMG Entertainment.

Além do seu sucesso no final dos anos noventa com a Backstreet Boys e a 'N Sync, Pearlman criou, em 2000, um dos primeiros da atual safra de shows de talentos de primeira linha, um concurso na rede de televisão ABC chamado "Making the Band". Os astros Lesley Gore, Gary Wright, Jose Feliciano e Harry Wayne Casey (KC of KC e a Sunshine Band) prestaram elogiosos tributos para a contracapa do livro lançado por Pearlman em 2003, "Bands, Brands, & Billions: My Top 10 Rules for Making Any Business Go Platinum" (algo como "Bandas, Marcas e Bilhões: As Minhas Dez Principais Regras para Fazer com que Qualquer Negócio Chegue ao Nível Platina").

Ninguém foi mais efusivo do que o seu famoso primo Art Garfunkel, que disse: "A decência de Pearlman e o seu amor à diversão na vida fizeram com que ele conquistasse a minha confiança vários anos atrás".

Criado no bairro de Queens, em Nova York, filho do co-proprietário de uma firma de lavagem de roupas a seco, Pearlman gostava de se apresentar com um empresário que viveu o sonho norte-americano. No seu livro ele conta que após ter trabalhado em empregos mal remunerados em aeroportos, elaborou uma forma de baixo custo para transportar executivos entre Manhattan e os seus jatos corporativos estacionados no Aeroporto Teterboro, em Nova Jersey.

Ele utilizou os lucros para criar um serviço de jatos fretados, a Trans Continental Airlines, que, entre outras coisas, transportava astros, incluindo Paul McCartney, os Rolling Stones, Michael Jackson e Madonna, para os seus concertos, levando-os depois de volta.

Ele diz que teve a idéia de criar bandas de garotos - geralmente compostas de cinco adolescentes bonitos capazes de interpretar músicas de forma harmoniosa e de dançar - após transportar o New Kids on the Block e perceber quanto dinheiro o conjunto ganhava.

Mas quando a Backstreet Boys, a 'N Sync e outros empreendimentos musicais se consagraram, eles muitas vezes apelaram aos tribunais para contestar o controle exercido por Pearlman e reclamar do dinheiro que este levava ao atuar simultaneamente como gerente e produtor.

Quando o controle sobre as bandas cessou, também acabou a sua fase de conquistas milionárias. O programa "Making the Band" foi retirado da programação da ABC após uma temporada, embora tenha sobrevivido por mais dois anos na MTV.

Pearlman não deu seguimento a um plano conjunto com Zelnick em 2002 no sentido de criar conjuntos que assumiriam as identidades dos personagens de estórias em quadrinhos Archies e Josie e os Pussycats. Pelo menos uma banda teria que ser preparada para uma série de televisão similar a "The Monkees".

Naquele mesmo ano, ele comprou a Options Talent, uma firma repleta de escândalos que se ofereceu para ajudar agentes à cata de talentos a encontrar clientes usando a Internet. A firma faliu um ano depois. "Parece que nenhum desses negócios, especialmente depois das bandas 'N Sync e Backstreet Boys, foi rentável", afirma McHale.

Porém, até pouco tempo atrás pouca gente poderia afirmar isso. Por exemplo, em 2003, a prefeitura de Orlando prometeu a Pearlman garantias de crédito e isenções fiscais por ele ter adquirido ações majoritárias em um projeto que procurava revitalizar o distrito de Church Street Station, no centro histórico da cidade. Ele prometeu criar um grande centro comercial e de entretenimento a partir da verdadeira cidade fantasma que restara devido à construção dos parques temáticos da Disney e da Universal.

Ele também transferiu os seus escritórios para o centro de Orlando e prometeu construir um estúdio de gravação moderníssimo. O Departamento de Regulamentação Financeira da Flórida afirma em um documento entregue ao tribunal que durante pelo menos 15 anos ele atraiu clientes para que estes depositassem dinheiro em um programa do seu serviço de transporte aéreo que deu origem aquilo que Pearlman denominou de Conta de Investimentos em Poupança dos Funcionários, cuja sigla em inglês é EISA.

"O problema é que jamais existiu de fato qualquer coisa do gênero", diz Persante. "Existe o ERISA (acrônimo em inglês de Lei de Segurança de Renda do Funcionário Aposentado, que garante o pagamento de pensões). Mas não existe nenhuma EISA. Mas o nome soa como ERISA, fazendo com que pareça legítimo". E parecia também ser um grande negócio. Os autos do tribunal dizem que Pearlman e os seus agentes garantiram aos clientes que o dinheiro destes estava seguro. Eles diziam que a EISA era segurada pela FDIC, pela Lloyd's de Londres ou pela seguradora AIG. Além disso, Pearlman e o seu grupo afirmaram que a instituição pagaria juros acima do mercado.

"Ele não ofereceu juros fantásticos", diz Persante, o advogado que representa alguns dos investidores individuais. "Ele lhes daria 1% a mais do que obteriam no mercado. Não era algo como ganhar de repente 17%. Não se tratava de nenhum esquema ridículo que despertasse suspeitas".

Embora Pearlman e os seus agentes tenham dito que o plano foi criado para funcionários, eles cortejaram outros clientes potenciais dizendo a estes que poderiam ingressar como amigos dos executivos da firma.

Para os clientes, a companhia e a sua contabilidade pareciam estar indo bem. Eles recebiam relatórios trimestrais revisados pela firma de contabilidade Cohen & Siegel.

O fato é que a firma de contabilidade era falsa, segundo os autos do tribunal. E as contas dos clientes não estavam seguradas por ninguém.

"O escritório da Cohen & Siegel's Coral Gables (Flórida) é na verdade o local de um serviço de atendimento telefônico pago em parte pela Trans Continental Airlines para receber, transferir e ocultar fundos de investidores", informou o Departamento de Regulamentação Financeira da Flórida.

Antes mesmo de as autoridades terem divulgado publicamente a investigação, já era possível vislumbrar rachaduras no império de Pearlman. O projeto de Church Street não respeitou os prazos estabelecidos, e aquele que já foi o rei do empresariado musical não forneceu relatórios financeiros à prefeitura da cidade. As autoridades de Orlando advertiram que poderiam ter que cobrar os empréstimos concedidos pelo município ou cancelar as isenções fiscais.

Todos os olhos se voltaram para Pearlman em novembro quando Frankie Vasquez Jr., um dos assessores em quem o magnata mais confiava, suicidou-se. Ele e Pearlman foram criados no mesmo prédio. Pearlman trabalhou como babá de Vasquez, que era sete anos mais novo. Eles se tornaram parceiros nos negócios. Pearlman escreveu no seu livro: "Vasquez é uma parte inestimável dos meus negócios".

Entre outras coisas, Vasquez era o parceiro gerencial de vários negócios referentes a Church Street, incluindo uma churrascaria, um café e um clube de charutos e vinhos.

"Vasquez ficou deprimido ao descobrir o que realmente se passava em Church Street. Que tudo não passava de uma fraude. E, assim como ocorre na maioria das fraudes, Pearlman parece ter criado um programa cheio de compartimentações. Cada segmento da companhia só conhecia o que precisava conhecer. Só havia uma pessoa que tinha a chave para desvendar toda a fraude, e essa pessoa era Pearlman", acusa McHale.

Após o suicídio de Vasquez, os compartimentos montados por Pearlman começaram a entrar rapidamente em colapso. O Departamento de Regulamentação Financeira da Flórida confirmou publicamente a sua investigação em andamento sobre o império Pearlman. No final de novembro, Pearlman deixou de retirar dinheiro da EISA.

A instituição de Pearlman que era proprietária do projeto de Church Street entrou com um pedido de concordata em fevereiro. O empresário Cameron Kuhn comprou o projeto por US$ 34 milhões em um acordo de falência em 5 de abril. Isso provavelmente não significará muita coisa para os investidores da EISA que perderam seu dinheiro. A propriedade tem uma dívida de US$ 33 milhões. Agora, a música morreu naquela que Pearlman costumava chamar de O-Town - o apelido que deu a Orlando, e que também designava uma das suas bandas. As autoridades estão tentando descobrir o que podem fazer. E investidores furiosos procuram pessoas nas quais possam colocar a culpa pelo acontecido.

Rosenau diz que a experiência simplesmente enfatiza uma lição que muita gente provavelmente já conhecia - ou que deveria conhecer - antes do desastre da Trans Continental. "Este caso demonstra nitidamente os riscos de se investir sem pesquisar integralmente as oportunidades de investimento", afirma Rosenau. "Pesquisem antes de investir". UOL

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