A eleição francesa é a 'última chance' de mudança?

Jeffrey Stinson
Em Paris

A França, disse Céline Moulard, está sofrendo de um mal econômico e político. Os franceses não querem trabalhar arduamente e este é apenas o começo dos problemas do país, disse a publicitária desempregada.

Sentada a uma mesa de café perto da Bastilha, ela exibiu uma lista de queixas: Os impostos são altos demais. O bem-estar social mina a ética de trabalho da França. Os empregadores não contratam jovens como ela porque as leis trabalhistas dificultam demais para que eles se livrem de funcionários desnecessários ou improdutivos. Os políticos não lutam por mudança porque a população se revolta sempre que tentam.

É difícil escapar da sensação, ela disse, de que a França está decaindo economicamente e sofrendo uma perda de prestígio global em decorrência. "Nós temos a sensação de que a França está caindo", disse Moulard, 25 anos.

O primeiro-ministro Dominique de Villepin reagiu contra os "declinologistas" que dizem que o poder e influência franceses estão desaparecendo, mas a incerteza e redemoinho em que se encontra o país passaram a preocupar os eleitores enquanto tentam escolher, entre uma dúzia de candidatos, quem substituirá Jacques Chirac, 74 anos, que deixará a presidência após 12 anos.

Alguém pode impedir o declínio da França? Será que um novo presidente conseguirá desafiar as vacas sagradas -benefícios generosos, sindicatos poderosos de funcionários públicos, uma semana de trabalho de 35 horas, um setor público imenso- que impedem a França de competir economicamente?

Estas são questões que os quatro principais candidatos da eleição presidencial de domingo trataram principalmente de forma superficial. Em vez delas, o conservador Nicolas Sarkozy se concentrou no endurecimento da política de imigração e na preservação da "identidade nacional" francesa. A socialista Ségolène Royal transformou seu gênero em questão, dizendo que é hora da França ter sua primeira mulher presidente. O centrista François Bayrou fala em unir direita e esquerda em um governo de unidade. O candidato de extrema direita, Jean-Marie Le Pen, quer eliminar o euro como moeda francesa, impedir a imigração e distanciar a França da União Européia.

Isto tudo dá pouco consolo para eleitores como Moulard. A eleição presidencial -o primeiro turno no domingo, seguido por um segundo turno em 6 de maio- é a "última chance de mudança", ela disse.

Raízes dos problemas

O economista Marc Touati duvida que a eleição trará muita mudança. A França, ele disse, está em negação. Os trabalhadores franceses detestam a perspectiva de abrirem mão de longos almoços, dias de trabalho curtos, férias longas e benefícios generosos. Segundo ele, as tentativas de mudança econômica do novo presidente levarão a população às ruas em protesto, como ocorreu durante a era Chirac.

"Nós temos uma cultura de Estado de bem-estar social. Nós rejeitamos reforma econômica", disse Touati, fundador de um centro de estudos que defende mudanças econômicas. "É muito difícil para os políticos dizerem a verdade ao povo francês, pois ele promoverá protestos nas ruas. Fazer reformas no momento é difícil demais."

A recente reputação da França como a doente da Europa deriva de:

  • Uma fraca economia A França conta com a segunda maior economia da Europa, atrás da Alemanha, mas sua taxa de crescimento de 2,1% no ano passado a deixou atrasada. Números da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) mostram que dos 13 países que usam o euro como moeda, a França ficou em 10º lugar em crescimento econômico. O crescimento médio entre os chamados países da zona do euro foi de 2,7%, como indicam números da OCDE. A economia americana cresceu 3,3%, disse o Departamento de Comércio.

  • A dívida imensa A França exibe déficits orçamentários há 27 anos consecutivos. A dívida do governo chegou a 64% do produto econômico do país em 2006, disse o ministério das Finanças da França. Os gastos públicos consumiram o equivalente a 54% da economia geral. Um entre quatro trabalhadores está empregado pelo Estado ou por empresas estatais, disse a OCDE.

  • Desemprego persistente A taxa de desemprego da França pairou próxima de 10% por grande parte da última década. Ela caiu para 9,4% no ano passado e caiu para 8,8% em fevereiro, segundo estatísticas da União Européia. Ainda assim, o desemprego na França é o maior entre os países que usam o euro. E o desemprego entre os jovens adultos e minorias na França é o dobro da média nacional segundo o governo.

    Ocorreram lembretes abundantes de fraturas sociais causadas pela incapacidade da França de criar uma economia mais flexível, que cresça mais rapidamente.

    No mês passado, 200 adolescentes e jovens adultos enfrentaram a polícia por nove horas após a prisão de um rapaz que não pagou a passagem na estação de trem de Gare du Nord, em Paris. A estação é um eixo usado diariamente por imigrantes pobres e minorias que vêm dos subúrbios pobres do norte.

    O confronto na estação provocou temores de uma repetição dos tumultos que atingiram o país em 2005. Três noites de acessos de fúria por jovens de maioria muçulmana e africana despertaram a França para as queixas dos imigrantes de discriminação em empregos, moradias e oportunidades de educação - além de abusos da polícia.

    Atualmente, no subúrbio de Clichy-sous-Bois, no nordeste de Paris e onde estouraram os primeiros tumultos de 2005, os moradores alertam que a violência poderá ocorrer novamente caso o próximo governo não consiga criar rapidamente novos empregos e melhorar a habitação.

    "A situação não mudou muito para muitos e as coisas podem piorar facilmente", disse Daoudi Noureddine, 46 anos, um segurança descendente de argelinos que mora em Clichy-sous-Bois há 20 anos. "Os imigrantes são muito maltratados, mesmo quando trabalham. Nós precisamos de (novos) programas, mas não tenho certeza de que as coisas mudarão."

    Os privilegiados na França parecem não estar dispostos a ceder em nada para abrir espaço na sociedade para aqueles que estão de fora. Há um ano, oito semanas de protestos estudantis forçaram Chirac a recuar dos planos que mudar as leis trabalhistas para facilitar a contratação de jovens pelos empregadores, sem precisarem lhes conceder a mesma segurança de emprego que a dada a trabalhadores mais velhos. A idéia era de que os empregadores ficaram mais dispostos a contratar se não sofressem grandes penas por demitirem aqueles que não deram certo.

    Um dos privilegiados - Olivier Cuisset, um estudante de 21 anos da Sorbonne - disse que participou das manifestações porque estava determinado a defender a França das pressões provocadas pela concorrência global.

    Leis trabalhistas menos rígidas destituiriam os trabalhadores franceses da vital segurança de emprego, ele disse, acrescentando que sem a proteção os trabalhadores franceses seriam forçados a aceitar menores salários ou correriam o risco de ver os empregos migrarem para países com salários mais baixos.

    "Quanto mais as pessoas se conscientizarem do que significa a globalização, mais elas se oporão", disse Cuisset. "O povo francês não está sozinho nesta luta e podemos difundir o modo francês para o restante da Europa. É melhor resistir do que se submeter."

    Eleitores indecisos

    A política econômica francesa fica a cargo do primeiro-ministro. Mas o presidente da França tem poder real: além de comandar o arsenal nuclear do país e ser responsável pela política externa, o presidente estabelece a agenda legislativa ao nomear um primeiro-ministro e tem autoridade para dissolver o Parlamento.

    Às vésperas da eleição de domingo, uma grande parcela do eleitorado está indecisa. Em uma pesquisa CSA publicada em 8 de abril pelo "Le Parisien", 42% dos entrevistados disseram que ainda não se definiram por um candidato ou poderão mudar de idéia antes da votação. Entre os prováveis eleitores com menos de 30 anos, 56% estavam indecisos.

    Moulard, a publicitária desempregada, é uma das pessoas que ainda não se decidiram. Apesar de suas queixas sobre a economia, ela disse estar dividida entre escolher um candidato que ela sente que poderá colocar um fim ao declínio econômico do país e o candidato que tem o temperamento adequado ao cargo.

    Os franceses sabem que a França fracassou em lidar com seus problemas econômicos e sociais e sentem que muito mais está em jogo nesta eleição, disse o cientista político Dominique Moisi, vice-diretor do Instituto Francês de Relações Internacionais.

    "Eu acho que os franceses agora estão mais realistas", disse Moisi. "Eles têm medo da decadência." George El Khouri Andolfato
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