Katrina arranca as poucas raízes que tinham as crianças sob custódia

Peter Eisler
Em Nova Orleans

Shine White passou por quase 20 lares provisórios por 10 anos antes de ficar aos cuidados de Greg e Gretta Fortenberry. Com o apoio deles, ele conseguiu ingressar em um bom colégio e se tornou um de seus melhores alunos. Com a confiança deles, ele se tornou o membro responsável do lar e mentor das demais crianças sob guarda do casal. "Eu cheguei ao ponto de chamá-los de mãe e pai", disse Shine, 17 anos. "Nós éramos como uma família."

Então veio o furacão Katrina.

Os Fortenberrys fugiram para o Texas com Shine, três outras crianças sob a guarda deles e seus próprios dois filhos. Eles passaram seis meses em Nebraska antes que pudessem retornar a Nova Orleans. Mas a vida na cidade era estressante e o casal decidiu desistir da guarda provisória.

"Meu menino mais novo no final nos procurou e disse que queria permanecer com sua família. Eu sempre disse que assim que as crianças se cansassem de nós (pais provisórios), nós os deixaríamos partir", disse Greg Fortenberry. "Foi uma decisão difícil, especialmente para Shine. Mas nós fizemos nossa parte."

Shine, que recomeçou com uma nova família pouco antes do Natal, está entre as muitas crianças sob custódia do Estado cuja tênue estabilidade foi quebrada por uma tempestade que complicou a situação do sistema de lares provisórios por toda a Costa do Golfo, mas dizimou a rede em Nova Orleans. A demanda pelos lares provisórios na cidade era alta antes do Katrina; agora ela se soma aos estresses de famílias divididas ou espremidas em trailers enquanto tentam reconstruir suas vidas.

Enquanto isso, o número de lares provisórios disponíveis caiu em mais de 40%, à medida que as famílias provisórias deixaram a área ou pararam e aceitar crianças.

Com cerca de 600 crianças necessitando de lares provisórios na área de Nova Orleans, as autoridades tiveram que colocar dezenas em lares fora da cidade, segundo o Escritório de Serviços Comunitários estadual, a divisão do Departamento de Serviços Sociais da Louisiana que cuida dos lares provisórios (casas de custódia). Isto torna mais difícil fornecer aconselhamento e outros serviços para as crianças e suas famílias. E isto, por sua vez, complica os esforços para atingir as metas estaduais pré-tempestade de reuni-las às famílias dentro de um prazo de 17 meses após ficarem sob custódia do Estado.

É um grande problema em uma cidade lutando para controlar o crime, ao mesmo tempo em que tenta atrair de volta moradores e turistas e busca se recuperar do Katrina. As crianças em lares provisórios são vítimas de abuso e negligência; elas são vistas como correndo os maiores riscos de terminarem na rua ou na cadeia.

"Se queremos mudar a dinâmica de muitas destas crianças terminarem (...) no sistema de Justiça criminal, nós realmente precisamos atuar corretamente quando lidamos com os lares provisórios", disse a juíza Ernestine Gray, do Juizado de Menores da Paróquia de Orleans.

Shine é um exemplo perfeito do que uma criança sob custódia pode realizar na casa certa, ela disse, mas muitas não se saem tão bem. "Nós estamos lutando em todos os níveis para nos tornamos capazes de fazer o que devemos por estas crianças e seus pais", ela disse. "Nós não dispomos de assistentes sociais ou advogados, nós não dispomos de serviços suficientes para tratamento de abuso de substâncias, serviços de saúde mental, aulas sobre paternidade. (...) Tudo isto torna as coisas muito difíceis."

Menos leitos para crianças sob custódia

Antes de o Katrina atingir a cidade em 29 de agosto de 2005, havia 765 crianças sob custódia do Estado em Nova Orleans, uma proporção de cerca de uma para 595 entre 455 mil habitantes da cidade. Em janeiro, com a população da cidade em cerca de 250 mil, tal número caiu para cerca de uma criança sob custódia para 417 habitantes. Isto significa que a taxa per capita de crianças em lares provisórios aumentou em cerca de 50%.

Durante o mesmo período, o número de leitos disponíveis em lares provisórios caiu de 986 para 565, como mostram dados do Estado. Mais de 200 famílias que forneciam atendimento deixaram a cidade, perderam seus lares ou, como os Fortenberrys, deixaram de receber crianças. Três dos 11 lares coletivos também foram fechados e vários grupos privados, que forneciam moradia, tiveram que reduzir o número de crianças que eram capazes de receber.

Muitos dos lares provisórios ficavam nos bairros que sofreram os maiores danos com a tempestade e inundação, incluindo no Baixo 9º Distrito, onde quarteirões inteiros de casas permanecem abandonados.

Antoinette Ackerson, 58 anos, vivia em uma daquelas casas com três crianças sob sua guarda, com idades de 8, 16 e 17 anos. Eles fugiram para Houston, onde uma igreja encontrou para eles um apartamento com dois quartos, que compartilharam com o primo de Ackerson e a neta deste, que também deixaram Nova Orleans.

Eles permaneceram por seis meses até retornarem, mas o lar de Ackerson foi arruinado por quase 2 metros de água. Atualmente ela paga aluguel por uma casa do outro lado da cidade com as duas crianças mais velhas - a mais jovem voltou para sua família - e está tentando arrumar dinheiro para reconstruir.

Enquanto estava em Houston, disse Ackerson, as crianças estavam deprimidas, assustadas, preocupadas com suas famílias e ansiosas com suas novas escolas. Desde que voltaram, as crianças tiveram que se adaptar ao novo bairro e escolas diferentes. E, acrescentou Ackerson, foi particularmente doloroso para elas quando foram limpar sua casa arruinada, onde moraram por cinco anos e finalmente encontraram um grau de estabilidade.

"O menino mais velho ficou realmente calado quando a viu pela primeira vez; ele não quer mais ir até lá", disse Ackerson. "A irmã dele inicialmente voltava, mas então disse: 'Eu não posso mais olhar para ela'. Eles falam bastante sobre o que costumavam ter. De certa forma, (a experiência) nos tornou mais fortes, unidos. (...) Mas tem sido muito duro para as crianças."

As autoridades estão lutando para fornecer ajuda para as crianças sob guarda que ainda estão lidando com o estresse ligado à tempestade. Gray e outros disseram que restam poucos psiquiatras infantis em Nova Orleans. E há apenas cerca de 10 leitos psiquiátricos para crianças com problemas mentais ou emocionais severos o bastante para necessitarem de hospitalização.

Algumas poucas instalações residenciais de longo prazo estão disponíveis para mães viciadas em drogas ou álcool e que precisam de um lugar para ficar com seus filhos enquanto recebem tratamento, mas não há instalações para pais em condições semelhantes.

Para as crianças colocadas em lares provisórios fora da cidade, os desafios são ainda maiores. É difícil marcar visitas e consultas com seus pais uma vez ou mais por mês. A própria distância pode se somar aos problemas emocionais para crianças já afetadas pelo abuso e negligência.

"O lar provisório é considerado uma circunstância temporária, mas com todas estas complicações, ele se torna mais permanente do que deveria", disse Maureen Joseph, diretora do CASA New Orleans, um grupo sem fins lucrativos que oferece programas de advocacia e apoio para crianças sob custódia do Estado e seus pais. "Como o tratamento é adiado ou não está disponível, nós estamos vendo casos em que as crianças estão ingressando no sistema e seus problemas acabam se agravando."

ŽUm fardo tremendo'

Dianne Galatas, uma assistente social do Escritório de Serviços Comunitários, disse que o Estado lançou várias iniciativas para ajudar a lidar com a escassez de lares provisórios.

A agência ampliou seus esforços para alistar novos pais provisórios, colocando recrutadores em todos os escritórios regionais. O Estado também está tentando reduzir a necessidade de lares provisórios ao fornecer mais serviços com atendimento a domicílio para as famílias em que as crianças correm o risco de ficarem sob custódia do Estado.

"Uma área que continua nos desafiando é a localização de moradias a custo acessível para as pessoas que atendemos", disse Galatas, notando que muitas famílias estão estressadas por terem perdido seus lares e por terem que se separar.

Estas crianças freqüentemente ficam com avós ou outros parentes, freqüentando escolas diferentes sem o apoio ou supervisão de sua família imediata e amigos, professores e diretores familiares.

Algumas crianças ganham atenção do Estado por estarem vivendo em lares que são inseguros ou não estarem devidamente supervisionadas, disse Galatas. "Se pudermos encontrar (moradias adequadas), isto nos ajudaria a preservar as famílias e evitar a necessidade do Estado assumir a custódia das crianças." Mas com mais pessoas voltando para Nova Orleans, disse Galatas, suprir a demanda por atendimento "continua sendo muito difícil".

Problemas semelhantes afligem o juizado de menores, onde a juíza Gray disse que não há advogados suficientes desde o Katrina para representação das crianças pobres e suas famílias em questões de custódia. O escritório de defensoria de indigentes perdeu vários advogados experientes, deixando apenas um para cuidar da carga de cerca de 300 casos de crianças, disse Gray, e isto pode atrasar as soluções.

"Nós tentamos conseguir pessoas para serem pais provisórios, tentamos conseguir advogados e treiná-los para este trabalho, tudo em uma cidade onde a vida não é fácil", disse Gray. "É como pedir às pessoas para ingressarem na Peace Corps (entidade que recruta voluntários para trabalharem no exterior), só que mais difícil."

As sucursais da Girls and Boys Town em Nova Orleans estão no centro da luta para fornecer lares provisórios desde o Katrina e após a tempestade. Antes, a organização sem fins lucrativos fornecia lares para cerca de 30 crianças sob custódia do Estado - incluindo o lar dos Fortenberrys, que recebeu Shine White.

Atualmente, dois da meia dúzia de lares coletivos que a Girls and Boys own dirigia em Nova Orleans antes da tempestade não foram reabertos, eixando oito menos vagas para uso do Estado.

"Cuidar destas crianças já era muito para se pedir a uma família mesmo ntes da tempestade", disse Dennis Dillon, diretor das sucursais da rganização na Louisiana. Mas o Katrina "realmente criou um fardo remendo para estas pessoas, não apenas o de cuidar de suas famílias rovisórias, mas também de suas próprias famílias".

Os Fortenberrys serviram como pais provisórios por cerca de sete anos e uidaram de cerca de 40 crianças antes de desistirem no ano passado. Greg Fortenberry disse que já pensavam em desistir de servirem como pais provisórios mesmo antes do Katrina ter virado suas vidas de cabeça para baixo.

Mas o estresse causado pela tempestade, que foi tão severo a ponto de Greg ter começado a sofrer de erupções na pele e a perder o cabelo, ajudou a família a decidir por abandonar a guarda de crianças. Assim como o fato da guarda ter se tornado mais difícil após voltarem para Nova Orleans. As crianças sob seus cuidados passaram a se assustar mais facilmente e se tornaram mais carentes.

"Se tornou um local diferente, um tanto assustador, e os adolescentes foram afetados por isto", ele disse. "Nós enfrentamos uma forte tempestade depois que voltamos e algumas delas ficaram apavoradas. (...) Muito mudou."

Quando chegou a hora de partir, Shine era a última criança sob custódia na casa dos Fortenberrys que estava com eles desde antes do Katrina - e o casal se ofereceu para ficar com a custódia dele até que concluísse o colégio neste ano. "Eu sabia no meu coração que era hora de partir", disse Greg, "mas deixar estas crianças foi como deixar uma parte de nossas vidas. E Shine é um garoto especial".

Shine se recusou a ficar.

"Não fazia sentido eles ficarem em uma posição em que estariam infelizes", ele disse. "Nem toda criança (sob custódia) que ficou na casa foi respeitosa e agradecida, e isto era duro para os filhos deles e duro para eles. É difícil (ser um pai provisório). E acho que a tempestade foi uma espécie de catalisadora; ela deixou tudo mais difícil."

Shine - cujo pai está na prisão e cuja mãe foi considerada pela Justiça como incapaz de fornecer um lar adequado- é um estudante nota A na Edna Karr Magnet School. Como presidente do clube japonês, ele está levantando dinheiro para uma viagem do clube a Tóquio. Ele recebeu várias ofertas de bolsa universitária e está planejando um intercâmbio estudantil na Alemanha.

Ele disse que está se dando bem com seus novos pais provisórios, "mas não é a mesma coisa". Ele ainda conversa constantemente com os Fortenberrys.

"A certa altura eu teria implorado a eles para ficar", disse Shine. "Mas eles fizeram tanto por mim, não parecia mais necessário. Eu já tenho idade suficiente para cuidar de mim mesmo." George El Khouri Andolfato

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