Justin Timberlake afasta-se dos holofotes

Anthony Breznican

Em uma época em que todos querem ser Justin Timberlake, ele quer ser qualquer outro.

O cantor/compositor de pop e R&B está escrevendo canções para outros intérpretes, está investindo em sua carreira de ator, está experimentando outras vozes, outras personalidades e, no caso do "Shrek the Third", um corpo inteiramente diferente.

"Tive uma boa parcela dos holofotes por um tempo. Não sinto que precise muito disso agora", diz Timberlake, sentado em uma varanda de hotel em Los Angeles, onde beija-flores sobrevoam um jardim de buganvílias escarlates. É um local sereno, no coração da cidade.

Às vezes, ao falar dele mesmo, de sua carreira e de seus romances famosos, Timberlake, 26, fica irritado e tenso, particularmente em tópicos como a crise da ex-namorada Britney Spears, que raspou a cabeça e foi internada, ou a parceria com sua outra famosa ex, Cameron Diaz, em "Shrek the Third".

A atitude de Timberlake fica mais parecida com o ambiente tranqüilo quando fala em escrever para outros cantores.

Ele compôs "Okay and Get Out", em parceria, para o último disco de Macy Gray, "Big", fez "Rehab" para o "Good Girl Gone Bad" de Ribanna, que será lançado em junho e colaborou em uma canção de country, "The Only Promise That Remains", para a coleção de duetos de Reba McEntire, para o outono. Escrever para outras vozes liberou algo dele.

"Quero escrever música country, pois cresci nesse ambiente -Tennessee. Musica soul... quero estar envolvido no hip-hop. Algumas vezes, sinto que a única forma de realmente expressar todos esses lados, mesmo para mim mesmo, é por meio de diferentes pessoas."

Nos filmes, Timberlake trabalhou consistentemente para destruir a imagem de precisão metódica que passou anos estabelecendo na música.

Na tragédia criminal do ano passado "Alpha Dog", ele fez o papel de um drogado violento das ruas que ajuda a seqüestrar um menino para pagar uma dívida de drogas. Em "Black Snake Moan", deste ano, ele fez um soldado que tem ataques de pânico e cuja mulher é patologicamente incapaz de ser fiel a ele.

Enquanto desenvolve esses projetos laterais de drogados e perdedores, Timberlake é praticamente a definição de "estar na moda". "Sexy Back" e "What Goes Around" estão sempre nas rádios, e o artista ganhou dois Grammys em fevereiro pelo disco FutureSex/LoveSounds. Ele está nas capas de revistas, lançando moda com seu estilo hip-hop arrumadinho e está expandindo sua base de fãs para ouvintes mais sofisticados, enquanto recebe prêmios infantis de gosma verde do Kids' Choice, da Nickelodeon.

Por enquanto, contudo, Timberlake não se sente inspirado para compor para si mesmo. "Para escrever para mim, eu definitivamente tenho que recarregar minha bateria. Não posso simplesmente bombear outras 20 músicas e esperar que todas sejam What Goes Around. Vou estar em turnê o tempo todo até o outono."

"Então, tem sido bom entrar no meu pequeno buraco no ônibus da turnê e só fazer apresentações", diz ele. "E gostaria de fazer muitos outros filmes."



Apesar da ousadia em suas escolhas, os filmes não foram sucessos de bilheteria. Ele aprendeu a começar por baixo, com papéis coadjuvantes vivos, depois de assumir coisa demais como um repórter em "Edison", de 2005. O filme foi direto para o vídeo.

"Shrek the Third", que estréia no dia 18 de maio, certamente vai agregar um sucesso de bilheteria à sua filmografia.

"Esses filmes menores não foram grandes sucessos, mas isso não o prejudicou, porque ele não foi criticado negativamente por eles", disse James Robert Parish, autor de "Hollywood Songsters", sobre músicos que se tornam atores. Timberlake eventualmente poderia ter sucesso onde outros, como Madonna, Mariah Carey ou até Spears, fracassaram, graças a -imagine- sua experiência na banda de rapazes, diz Parish.

"Quando uma diva está fazendo uma apresentação no palco, está no controle e é o foco. Quando compartilham cenas, poucas conseguem interagir e passar a bola. Ele veio de um grupo, e eles aprenderam a fazer uma apresentação, uma pequena produção com cada música. Isso lhe dá alguns dos instrumentos que precisa para a cena."

O papel de Timberlake em "Shrek the Third" é de um jovem Rei Artur (conhecido de seus colegas de turma como "Artie"), um menino sem sorte, objeto de implicância até dos mais desprezados na escola. Shrek (Mike Myers) e o Burro (Eddie Murphy) vão procurá-lo em sua escola de conto de fadas medieval para recrutá-lo como herdeiro da coroa de "Far, Far Away", terra da princesa Fiona (Diaz), dominada pelo vilão.

"Artie é uma espécie de nerd", diz Timberlake. "A vida toda dizem a ele que é um perdedor, então não acredita em si mesmo, não acredita que pode ser rei. Ele tem que conquistar confiança em si mesmo. Ele não é descolado, sabe?"

Timberlake diz que consegue se ver no menino desprezado, o que parece improvável vindo do Sr. Estou Trazendo o Sexy de Volta.

"Tenho meus momentos", insiste. "Todos nós nos conseguimos nos relacionar com a adolescência, quando ninguém é descolado. Sempre implicavam comigo. Eu tinha espinhas terríveis, cabelo estranho. Meus braços eram longos demais."

Está certo. Mas os EUA o viram crescer, a começar pelo Clube do Mickey Mouse, no início dos anos 90; depois veio a banda de rapazes 'N Sync, no final dos anos 90.

A fase estranha de Timberlake, diz ele, ocorreu convenientemente durante os poucos anos em que as legiões de fãs não estavam olhando.

"As pessoas têm imagens na cabeça, e acham que você é daquele jeito", diz ele. "Freqüentei a escola até o ensino médio, não tive uma vida normal, mas, até aquele ponto, eu era um garoto na escola. Todos nós podemos nos ver nessa situação."



Timberlake odeia falar de sua vida pessoal. Mas como namorou Diaz, e ela é uma parte integral dos filmes de Shrek, o fato de estarem no mesmo filme -ainda que fazendo apenas as vozes- deve chamar a atenção do público.

"Não quero dizer nada sobre isso", disse Timberlake. Seu rosto fica tenso. Há um momento de silêncio. "Estou cansado das pessoas esperarem que eu diga algo. Como seu eu fosse dizer alguma coisa ruim, ou dar alguma esperança, ou alguma coisa nesta direção ou naquela."

Ele salienta que os atores que fazem vozes para filmes de animação gravam sozinhos, e os diálogos são unidos depois. Mesmo seus personagens animados só se encontram na tela no final do filme.

Ainda assim, quando um importante cantor entra para uma série de filmes lançada por sua namorada, algum elemento do relacionamento pessoal deve ter uma influência.

Diaz, que ganha US$ 10 milhões (em torno de R$ 20 milhões) pelos filmes de Shrek, disse em 2005 em uma entrevista: "É como ganhar na loteria." Então, será que chegou em casa e disse: "Você tem que entrar no Shrek. É uma mina de ouro"?

"Você é engraçado", diz ele, sério. Depois o sorriso que está tentando segurar aparece.

Foi Jeffrey Katzenberg, da DreamWorks, que recrutou-o para "Shrek the Third", depois de ver sua primeira aparição como apresentador do "Saturday Night Live", em 2003.

Mas Timberlake admite o óbvio: parte do apelo era trabalhar em um projeto envolvendo sua namorada.

"O fato de ela estar no filme me anima. Ela é uma mulher incrível e uma atriz incrível, e todos no filme são tão bons nesses personagens. Tenho grande respeito por todos no filme, inclusive ela."

Ainda assim, ele se sentiu compelido a pedir as bênçãos de Diaz, diz Katzenberg. "Por cortesia, eu disse à Cameron: 'Você sabe, estamos pensando em fazer isso. Eu gosto muito do trabalho do cara. Por outro lado, não quero misturar as coisas. A vida já é confusa o suficiente para todos nós'", disse. "Ela deu todo o apoio: 'Se isso é algo que você quer fazer, então ótimo. Obviamente sou uma fã e admiradora, também'".

Apesar de seu relacionamento romântico ter terminado, ainda são amigos. Timberlake diz que não são inimigos mortais.

Ele quer bem à Britney

Ele também tinha coisas positivas a dizer sobre Spears, cuja crise pública -quando raspou o cabelo na vitrine de um salão e foi internada em uma clínica de reabilitação- foi inescapável.

"Todo mundo está torcendo por ela, e isso é bom. Também estou nesse bonde. Não quero ver ninguém infeliz. Você pode me chamar de hippie", diz ele.

Percepções

"As pessoas tiram fotos das outras em suas cabeças, e essa é a imagem que têm. Mas as pessoas são muito mais complexas que isso. Há muito mais, tenho certeza, acontecendo na vida de Spears do que é citado. Para mim, se você é músico, você pode fazer um ótimo disco, e as pessoas vão querer escutá-lo. É simples. Todo esse escarcéu que todo mundo cria -você faz um ótimo disco, ou faz um ótimo filme, e todo mundo cala e ninguém fala sobre ele."

Essa aversão a discutir esses assuntos influencia suas composições? Muitos pensam que em "Cry Me a River", seu hit de 2002, ele está zombando de Spears, e até inclui uma atriz parecida com ela no vídeo.

"Aquela música foi o que foi, e coloquei para fora", diz ele, sem confirmar ou negar a interpretação popular.

Mas ele diz que, como no cinema, a realidade não é uma exigência na música.

"Escrevo sobre o que sei, mas também escrevo sobre coisas que são apenas fantasias na minha cabeça. Realmente não acho que trouxe o sexy de volta. Parecia uma frase de efeito. Não penso em mim dessa forma. É só divertido. É como atuar, porque você cria um personagem na sua cabeça e o interpreta."

Em sua busca para se tornar astro de cinema, como ele se sente sobre a possibilidade de ver sua vida na tela, como "Ray" ou "Johnny e June"?

Timberlake ri de novo. "Seria um filme horrível." Deborah Weinberg

UOL Cursos Online

Todos os cursos