Para as famílias das vítimas, uma escolha dolorosa

De Richard Wolf e Wendy Koch

Bryan Cloyd teve dúvidas quando recebeu uma carta convidando sua família para a cerimônia de graduação deste final de semana, em Virginia Tech. Sua filha Austin, 18, que era apenas uma caloura, receberá seu diploma postumamente.

Além de Cloyd, professor de contabilidade de Virginia Tech, outras famílias dos alunos mortos no dia 16 de abril no tiroteio mais fatal da história dos EUA precisavam tomar a mesma decisão: participar ou não das cerimônias de graduação, que começam na sexta-feira (11/5), e vivenciar uma lembrança potencialmente dolorosa de tudo que se perdeu? Estarão prontos para passar tempo com outras famílias que compartilham sua dor indescritível?

A primeira reação de Cloyd foi: "Não tenho certeza de que estamos prontos para isso. Choramos todos os dias por uma vítima. Sinceramente, estamos com um pouco de medo de mergulhar na dor das outras 31."

Sua família, entretanto, reconsiderou. Agora, decidiu entrar orgulhosamente no Estádio Lane, na sexta-feira à noite, com os formandos do Programa de Honra, atrás de um grupo de tocadores gaitas de fole -"Algo que Austin estava muito animada em fazer. Então queremos fazer isso também."

Participar da celebração ou ficar em casa - a mais recente de uma série de decisões emocionalmente devastadoras que enfrentam as 32 famílias, inclusive dos cinco membros do corpo docente mortos pelos disparos do estudante Seung Hui Cho.

Enquanto milhares de pais virão a Blacksburg, Virgínia, para as cerimônias, as famílias dos mortos, inclusive 16 entrevistados pelo USA Today, estão presas entre dois mundos. Estão divididas entre seguir com suas vidas e reviver o que aconteceu naquele dia - quando dois alunos foram mortos no dormitório West Ambler Johnston e 30 outras pessoas mortas em Norris Hall, duas horas depois.

As famílias dizem que estão passando por um sofrimento muito intenso, respondendo ligações, cartões e mensagens de computador de milhares de pessoas em torno do mundo.

Elas querem perdoar os responsáveis pela tragédia, mas também estão determinadas a garantir que o conselho estadual nomeado investigue plenamente como poderia ter sido prevenida, inclusive questões sobre o que deveria ter sido feito para tratar a doença mental de Cho.

Muitas das famílias dizem estar ansiosas para estabelecer laços com outras famílias e, ao mesmo tempo, temerosas de enfrentar as emoções que tal ligação pode trazer.

Durante a cerimônia de sexta-feira no estádio de futebol, fotografias das vítimas serão apresentadas em uma tela gigante, e suas famílias receberão anéis de graduação. A escola nomeou um membro da equipe para cada família e ofereceu pagar os custos de viagem para parentes até do Egito, Índia e Indonésia.

Mesmo assim, alguns dizem que não podem voltar a Blacksburg três semanas depois de correr para lá em pânico, para tentar saber se seus entes queridos estavam entre as vítimas.

"Fazer essa viagem até lá é demais. É cedo demais", disse Tracy Littlejohn, cuja prima Erin Peterson, 18, de Centreville, Virgínia, estava entre as vítimas.

Os pais e a jovem esposa do aluno de doutorado Waleed Mohammed Shaalna, 32, "estão tristes demais para vir" do Egito, diz Hesham Rakha, um dos professores de pós-graduação de Shaalan.

A família do calouro morto Henry Lee não virá de Roanoke, apesar de sua irmã, Chi, estar recebendo seu diploma em contabilidade.

"Estávamos planejando uma grande festa para a graduação dela", diz seu irmão Joe. Desde o tiroteio, "tudo foi por água abaixo".

Outros participarão, mas com emoções conflitantes.

"Brian trabalhou muito" para seu mestrado, diz Beverly Bluhm de seu filho, que tinha 25 anos. "Não podemos não ir."

Entretanto, ela diz que será "agridoce" assistir outros formandos partirem para o mundo, enquanto seu filho "não terá essa oportunidade".

Dor pessoal em exibição pública

A primeira coisa que as famílias das vítimas descobriram foi que, apesar de sua dor ser pessoal, sua fama era global. Muitos não estavam prontos para os dois ao mesmo tempo.

Algumas famílias continuam muito abaladas para falar. "Ainda estamos abalados", diz Michael Bishop, escritor de ficção científica que perdeu seu filho, o instrutor de alemão Christopher James Bishop, 35.

Girish Suratkal, cuja cunhada Minal Panchal da Índia foi morta com 26 anos, diz que a família ainda está "tentando entender" a tragédia.

Littlejohn diz que os pais de Peterson "estão em prece constante, tentando lidar com fato de ela ter partido".

Barbara La Porte, que perdeu seu filho Matthew, de 20 anos, membro do Corpo de Cadetes da universidade, disse que "está apenas tentando voltar um pouco à normalidade".

Liviu Librescu, professor de 76 anos de Israel, foi a vítima mais idosa. O sobrevivente do Holocausto segurou a porta de sua sala de aula de engenharia aeroespacial enquanto os estudantes pulavam pelas janelas. Todo mundo da sala sobreviveu - exceto ele.

Desde o tiroteio, sua família em Raanana, perto de Tel Aviv, recebeu vários relatos de seu heroísmo, diz Ayala Librescu, sua nora.

Ela diz que alguns da família não gostam da atenção, mas "outros sentem- se orgulhosos e honrados de poder falar sobre Liviu e dar-lhe todo o respeito que merece por tudo que fez".

Tem sido quase impossível para as famílias terem privacidade em seu luto.
Pedidos de entrevista chegam diariamente, assim como condolências em todos os formatos e tamanhos: cartões e mensagens eletrônicas, flores e cestas de frutas, mensagens de Internet no Facebook e no MySpace. Os pais de Peterson compraram 500 notas de agradecimento para começar.

Amigos da vítima Matthew Gwaltney, 24, plantaram uma árvore de bordo japonês com folhas marrons -uma das cores da escola- no quintal da família em Chesterfield, Virgínia. Greg e Linda Gwaltney, pais de Matthew, disseram que planejam estar em Blacksburg neste final de semana para a graduação.

Apesar de a maior parte das famílias encontrar conforto em todas essas demonstrações de apoio, isso "pode estender seu luto", diz o psicóloga Edith Fresh, professora da Escola de Medicina Morehouse em Atlanta.

"É como uma maré", diz Fresh. "Podem sentir raiva, depois depressão, depois raiva novamente. Não há data para terminar."

Muitas famílias se concentraram em angariar fundos para criar memórias nas escolas e nas igrejas, bolsas universitárias e programas de teatro, assim como estudos de segurança no campus e segurança de armas de fogo.

A família de Maxine Turner publicou um anúncio de meia página no semanário do Norte da Virgínia para agradecer as mensagens e atitudes de todos, inclusive a reconstrução de sua cerca e a manutenção de seu quintal.

"É insuportável", escreveram sobre a perda de sua filha de 22 anos e irmã, que ia se graduar em engenharia química. "E ainda assim, precisamos agüentar."

Tentar perdoar, mas não esquecer

Como agüentarão?

Mary Read, de 19 anos, copiava suas citações preferidas em um caderno vermelho - que seu pai encontrou na manhã de seu funeral. A última citação da caloura, que ele leu entre as centenas de pessoas no velório, foi sobre o poder do perdão: "Quando uma injúria profunda é feita a nós, nunca vamos nos recuperar até que perdoemos."

Peter Read - que, com sua esposa, Catherine, participará da diplomação de sua filha falecida - considera a mensagem poderosa, mas difícil de acatar.

"Não vou dizer que o perdão é fácil ou instantâneo", diz ele. "Todos nós temos essa mistura enorme de sentimentos não resolvidos."

Vários falaram em perdão - para Cho e sua família, para a escola e o sistema de saúde mental. Joe Samaha, que perdeu sua filha Reema, 18, e também pretende estar em Blacksburg neste final de semana, diz que o sobrenome de sua família significa perdão, em árabe. A família de Cho, diz ele, "também perdeu um filho" e deve ser consolada.

Apesar de terem passado duas horas tentando alertar os alunos e membros do corpo docente da Virginia Tech sobre os primeiros tiros, poucas famílias culpam a escola.

"Não acho que as pessoas estão realmente com raiva" da escola, diz Dennis Bluhm, cujo filho estava terminando o mestrado em engenharia.

Para outros, o caminho da recuperação está pavimentado com o desejo de justiça.

"Não vou perdoar ninguém pela morte de meu noivo, e ainda não estou culpando ninguém", diz Marcy Crevonis, cujo namorado, Michael Pohle, foi morto aos 23 anos.

Joe Ly, que escreve seu nome de forma diferente de seu irmão Henry Lee, diz que a universidade devia "estar prestando mais atenção" ao estado mental de Cho.

Mildred Granata, cujo filho Kevin, 45, era professor de engenharia e tinha três filhos, culpa as leis de armas de fogo que permitiram que Cho comprasse duas pistolas, apesar de ter recebido ordens de fazer tratamento psiquiátrico.

"Estou com raiva por isso ter acontecido ao meu filho, e agora meus netos estão sem pai", diz ela.

Várias famílias querem que o conselho estabelecido pelo governador de Virgínia, Tim Kaine, estude tudo, desde as ações da universidade na manhã dos disparos até o sistema de saúde mental e leis de armamentos.

"Não quero passar a vida como uma pessoa revoltada e, para evitar isso, sei que preciso perdoar", diz Cloyd. "Mas não tenho certeza que um perdão significativo seja possível sem abordar a questão de responsabilidade e, depois, fazer algo para garantir que os problemas subjacentes sejam resolvidos."

Vários parentes de vítimas dizem que querem entrar em contato com os outros, eventualmente. É um passo que ajudou sobreviventes de outros crimes similares.

Tom Mauser, cujo filho Daniel estava entre as 13 vítimas dos tiros em Columbine, em 1999, diz que as famílias afetadas por aquele sofrimento uniram-se para angariar fundos para uma nova biblioteca para a escola.

"Também começamos a nos ver socialmente", diz ele, convidando uns aos outros para casamentos e graduações. "Um elo se formou". Isso pode ser mais difícil para as famílias de Virginia Tech, porque moram longe umas das outras.

"Queremos compartilhar nosso sofrimento"

Muitos membros das famílias se conheceram em Blacksburg durante os dias após o tiroteio, esperando a identificação dos mortos e a liberação de seus corpos.

Liselle Vega Cortes, viúva de um aluno de pós-graduação, Juan Ramon Ortiz, 26, de Porto Rico, disse que conhecia várias vítimas além de seu marido, e é um dos poucos parentes de vítimas que falou com as outras famílias desde então.

"Estamos tentando manter o contato", diz ela. "É muito difícil fazer isso."

Ela virá de Porto Rico com os pais de Ortiz para a cerimônia. "Vai ser difícil", diz ela, "mas queremos ir".

Muitas famílias querem se apoiar nas outras.

"Quero falar com todos os outros, ver como se sentem", diz Ly. "Para nós, é bem duro. Queremos compartilhar nosso sofrimento."

Entretanto, seria doloroso demais ir à cerimônia em tão pouco tempo após limpar o quarto do alojamento de Henry. "Não acho que seja um bom momento, ainda."

Outros querem compartilhar memórias felizes.

"Do que li sobre os outros alunos, eram todos tão especiais e similares em tantos aspectos à Reema", diz Samaha. "Espero que as famílias consigam compartilhar, quando for possível. Sempre penso nelas e me pergunto como estão. Querendo ou não", diz ele, "nossas vidas se interligaram no dia 16 de abril." Deborah Weinberg

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