Festival oferece raro alívio do conflito em Bagdá

Zaid Sabah
Em Bagdá

As luzes diminuíram e um poeta solitário subiu ao palco. "Se a pátria nos chama, devemos todos sair em sua defesa", disse Samir Al Quaraishi ao público. "Nossos pais não nos criaram para trancar nossas portas."

Essa e outras mensagens de união nacional foram o centro de um raro festival nesta semana em Bagdá, no qual poetas, atores e cantores instaram os presentes a lembrarem-se de uma época em que o país não estava em guerra.

Por razões de segurança, o evento patrocinado pelo governo não foi divulgado nos jornais iraquianos, e a maior parte dos convites foi feita boca a boca. Por causa do rígido toque de recolher de Bagdá, a apresentação foi feita ao meio dia e não à noite.

Dezenas de policiais fecharam as ruas para o Teatro Nacional no dia do evento, atrapalhando o tráfego por horas. Todos eram cuidadosamente revistados na entrada.

Quando o público de cerca de 100 pessoas conseguiu entrar, porém, apreciou uma apresentação de arte que lamentava a violência incessante do Iraque e apelava para a paz.

Quatro atrizes surgiram no palco com roupas típicas de diferentes regiões do país. Uma delas representou o Norte, outra o Sul e outra Bagdá. A quarta deveria representar Scheherazade, personagem do clássico "As Mil e Uma Noites".

As atrizes dançaram alegremente até ouvirem uma bomba -gravada- ecoando pelo auditório. Elas correram para camas no palco e se cobriram de medo.

Depois, um homem começou a falar. "Meu país está sangrando; por tanto tempo estava sangrando a civilização", disse Hani Al Fayad, poeta de Nasiriyah.

O objetivo do festival era pedir o fim da violência sectária, disse Ghanim Hamid, gerente da televisão Al Sumaria, que coordenou o evento.

"Acredito que a influência da arte nas pessoas é maior do que as palavras dos políticos", disse ele.

"A mídia e a arte devem trabalhar juntas na campanha de reconstrução contra o terrorismo".

Muitos membros da platéia disseram que ficaram agradecidos principalmente por um dia no teatro. Reuniões públicas de qualquer tipo são extremamente raras em Bagdá atualmente por causa da violência.

"Cada ator ou atriz tem um papel nesta comunidade de esclarecer ao povo que devem seu amor e lealdade ao país, e não a sua seita", disse Rasha Al Sahir, 24, atriz.

"Estou tão feliz de estar aqui hoje. Sentimos falta desses festivais. Eles deviam fazer isso todos os dias", disse Saad Karim, 37, funcionário no Ministério de Comércio. "As canções e poemas que ouvi hoje me lembraram dos velhos tempos. De fato, vivemos juntos por séculos - sunitas, xiittas, árabes e curdos. Por que agora nos odiamos e combatemos uns aos outros?" perguntou. "Construímos nossa história juntos, e devemos começar a construir nosso país juntos também." Deborah Weinberg

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