No novo plano de Bagdá, um zeloso árbitro americano

Jim Michaels
Em Bagdá

Um pequeno grupo de oficiais iraquianos chegou certa noite da semana passada ao posto de combate do capitão Kevin Joyce com um alerta: tropas iraquianas planejavam prender um xeque sunita local por supostamente promover a violência.

Aquela foi uma péssima notícia para Joyce, cuja unidade no bairro de Ghazaliyah, no oeste de Bagdá, é uma das linhas de frente da mais recente estratégia americana para coibir a violência ali. O xeque estava cooperando com os americanos para deter tal violência e "é um de nossos principais elos com a comunidade sunita", disse Joyce ao major Emad Obaid, um oficial da inteligência iraquiana.

Obaid não se sensibilizou. "Não podemos esperar mais", ele disse. "Nós temos ordens."

O episódio ilustrou a situação em que as forças americanas se encontram em um momento em que a maioria dos membros do exército iraquiano é xiita e suspeita dos líderes sunitas. Um adicional de 28.500 soldados americanos e uma nova estratégia para abrir os postos por toda a Bagdá ajudaram a reduzir a violência em muitas partes da capital, tornando muitos bairros mais seguros. O comércio está aberto e as pessoas estão andando pelas ruas à noite em alguns lugares.

Mas o fracasso do governo iraquiano em resolver as tensões étnicas e fazer concessões aos sunitas sugere que a melhoria da segurança poderá resistir apenas enquanto as forças americanas estiverem aqui, mantendo a violência sob controle.

A meta do aumento das forças americanas no Iraque, que foi anunciado em janeiro e concluído neste mês, é estabelecer a segurança por tempo suficiente para que o governo iraquiano faça concessões para obter o apoio dos sunitas, que formam a base da insurreição.

"Eu acho que criamos uma oportunidade para o governo do Iraque estabelecer algumas políticas de reconciliação", disse o tenente-coronel James Nickolas, comandante do batalhão que estabeleceu os postos em Ghazaliyah. "Eu não sei se estão tirando proveito desta situação."

O general Raymond Odierno, o segundo oficial americano na hierarquia no Iraque, disse em uma entrevista que as tropas americanas "agora podem fornecer segurança aqui e derrotar a Al Qaeda", mas "no final (...) dependerá de progresso político e diplomático".

O governo Bush chamou a falta de progresso de decepcionante. O governo iraquiano ainda não aprovou leis para estabelecer eleições locais, determinar a distribuição da receita do petróleo e decidir que ex-membros do Partido Baath podem voltar ao governo.

Na falta de ação do governo nacional, Joyce e outros oficiais americanos freqüentemente acabam como árbitros das disputas sectárias.

Enquanto falava com Obaid, Joyce reconheceu que o xeque sunita poderia estar associado a alguma violência. Todavia, Joyce tentou persuadir Obaid da necessidade de ambos os lados conversarem para reduzir a violência.

"Senhor, eu estou lhe dizendo, não o prenda", Joyce lhe disse. "Eu estou buscando apenas uma oportunidade para conversar tanto com os líderes sunitas quanto xiitas."

O oficial da inteligência iraquiana aceitou um acordo: ele não prenderia o xeque antes de outra rodada de encontros entre o xeque e os oficiais americanos. O xeque permanece livre.

"Você jamais pode baixar a guarda"

Quando este posto de combate, chamado Casino, foi estabelecido em janeiro, Ghazaliyah era um campo de batalha. Milícias xiitas expulsaram os sunitas de seus lares neste bairro predominantemente sunita. Isto levou muitos sunitas a procurarem a Al Qaeda, concentrada no sul de Ghazaliyah, para proteção.

As ruas estavam vazias e as lojas fechadas. Disparos eram ouvidos ao redor do posto diariamente. As forças americanas encontravam 15 corpos por dia na área, muitos deles vítimas dos assassinatos sectários, disse Joyce, de Garden City, Nova York. "Agora nós temos um dia ruim quando encontramos um", disse Joyce.

Casino foi um dos primeiros postos construídos como parte da nova estratégia de deslocar as forças americanas das grandes bases para os bairros para protegerem os civis.

Desde que Casino e poucos outros postos foram estabelecidos em janeiro, as forças armadas americanas as têm criado em um ritmo furioso. A divisão americana responsável por Bagdá criou cerca de 68 postos na cidade de mais de 6 milhões de habitantes. São planejados mais 11.

Os postos foram dispostos em alguns dos bairros mais perigosos da capital. "Nós posicionamos estas coisas intencionalmente nas áreas onde fariam a maior diferença", disse o general John Campbell, vice-comandante da divisão americana em Bagdá.

Os postos deixaram os civis mais seguros, mas freqüentemente expõem os soldados americanos a mais riscos. Em março, a Companhia C do 2º Batalhão do 12º Regimento de Cavalaria perdeu quatro soldados em uma bomba de estrada em Bagdá. Foram as únicas baixas da companhia desde o início de seu serviço em novembro de 2006.

Em abril e maio, 230 soldados americanos foram mortos, tornando este o período de dois meses mais mortal da guerra. Neste mês, 76 soldados americanos foram mortos.

Cooperar com os Estados Unidos também pode ser arriscado para os líderes sunitas. Na segunda-feira, quatro xeques aliados dos americanos foram mortos quando um homem-bomba detonou a si mesmo no saguão de um hotel de Bagdá.

No geral, disse Odierno, a nova estratégia americana levou a mais ataques contra os soldados americanos e iraquianos, mas menos ataques contra os civis.

Casino é uma base composta por nove casas cercadas por muros de concreto. Os soldados se mudaram para casas que foram abandonadas quando a luta entre sunitas e xiitas se intensificou no ano passado. Eles pagam aluguel aos proprietários.

A unidade de Joyce tem cerca de 115 soldados no posto. Entre 60 e 80 soldados iraquianos vivem em casas separadas no posto. Oficiais iraquianos e americanos ocupam os postos de comando.

Não há chuveiros. Os soldados usam banheiros químicos e uma refeição quente por dia é entregue por um caminhão vindo de uma base próxima. Os soldados americanos ficam aqui seis dias por semana e retornam para a base principal uma vez por semana, para a manutenção dos veículos, lavanderia e descanso.

As casas têm ar condicionado, mas o gerador que fornece eletricidade ocasionalmente quebra, deixando os soldados suando em temperaturas de mais de 37ºC.

A rotina diária dos soldados é de um ciclo de patrulhas, montar guarda, manutenção e poucas horas de sono. Sentado em seu jipe Humvee durante uma patrulha certa tarde na semana passada, o especialista Luke McMahan, 22 anos, de Mountain View, Arkansas, disse que seu dia começava às 3 horas da madrugada.

"Nós ficaremos acordados até a meia-noite", ele disse. "O melhor motivador que poderíamos receber no momento seriam chuveiros." "É brutal", disse o primeiro tenente Sam Cartee, 26 anos, de Martinsburg, Virgínia Ocidental, um líder de pelotão no posto. "Aqui você jamais pode baixar a guarda."

Os mecânicos tentam manter jipes Humvee suficientes funcionando para a realização das patrulhas. A maioria dos veículos está no Iraque há anos.

"Muitos já foram atingidos por várias" bombas de estrada, disse Cartee.

"As crianças não têm medo de nós"

Os civis estão se beneficiando da melhora da segurança. Em uma recente patrulha de fim de noite, os soldados americanos passaram por uma sorveteria bem iluminada onde um grande número de iraquianos estava sentado em mesas ao ar livre comendo e conversando.

Do outro lado da rua, um homem abanava o carvão em uma barraca de espetinho na calçada, lançando uma chuva de faíscas para o céu noturno. Grupos de homens vestindo trajes tradicionais caminhavam pelas calçadas.

Os soldados estão construindo barricadas ao redor dos bairros para que os moradores tenham que passar pelos checkpoints do exército iraquiano antes de entrarem. Os soldados americanos também estão fazendo um censo de todos na área. A meta é impedir que estranhos entrem no bairro.

Durante uma recente patrulha, jipes iraquianos e americanos percorriam uma rua sob o sol do meio-dia. Um pequeno grupo de soldados americanos visitava cada casa no quarteirão, coletando dados de seus moradores. Na rua, as crianças se amontoavam ao redor dos soldados.

O sargento Sergej Michaud, 24 anos, de Caribou, Maine, entregava cereais e biscoitos da traseira de um jipe. As crianças corriam até ele de braços estendidos.

"Se fizéssemos isto em fevereiro passado, nós seríamos baleados", ele disse. Um menino pequeno levou para os soldados americanos um punhado de pães árabes ainda quentes feitos em um forno de quintal.

"As crianças não têm mais medo de nós", disse McMahan enquanto tirava fotos das crianças amontoadas ao lado da porta do lado de motorista de seu Humvee.

Queixas em relação ao exército iraquiano

A estratégia também parece ter melhorado a eficiência dos soldados iraquianos, disseram os soldados americanos. Quando eles chegaram em Casino, os soldados americanos disseram que seus pares iraquianos rotineiramente abandonavam seus postos, temerosos de que não resistiriam aos ataques da Al Qaeda. A adição de mais soldados americanos aumentou a confiança deles.

"Agora eles sentem que estão mais seguros", disse o sargento Jeffrey Rhodan, de Beaufort, Carolina do Sul. Eles aprendem com a maior exposição às forças americanas, disse Campbell. "A diferença é que estamos vivendo com eles no momento", disse.

Mas os sunitas ainda se queixam freqüentemente de maus-tratos por parte do exército iraquiano, disseram os soldados americanos. Rhodan disse que recentemente recebeu um relatório apontando que os soldados iraquianos estavam roubando móveis de uma casa sunita.

Dois meses atrás, os soldados iraquianos estavam ajudando famílias xiitas a se mudarem para as casas abandonadas em Ghazaliyah, disse Nickolas. Muitos lares foram abandonados por sunitas que estavam fugindo das milícias xiitas.

Os sunitas no bairro confiam mais nos soldados americanos do que nos soldados iraquianos. "Os xiitas querem que os soldados iraquianos em casa esquina, o que não vai acontecer", disse Cartee. "Os sunitas querem os americanos em cada esquina, o que não vai acontecer."

Os oficiais americanos estão promovendo a reconciliação de todas as formas que podem. Nickolas queria estabelecer uma força policial predominantemente sunita em Ghazaliyah como meio de dar mais poder aos sunitas e um papel em sua própria segurança. O governo iraquiano não concordou com a proposta, ele disse.

Em vez disso, Nickolas disse que iniciará uma patrulha de bairro composta por várias centenas de sunitas, os pagando por meio de um contrato de segurança acertado pelos líderes locais. Alguns, ele disse, podem ser ex-rebeldes. Segundo ele, o papel deles será defensivo.

Ele sabe que isto não solucionará o problema, mas pode lhe dar mais tempo. "Eu mantenho um relacionamento delicado (...) com sunitas e xiitas da melhor forma que posso", disse Nickolas. George El Khouri Andolfato

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