Saindo da crise a passos de bebê

Chuck Raasch
Em Washington

Se uma calamidade causada pelo aquecimento global está tão próxima quanto diz Al Gore, trocar lâmpadas e demorar menos no chuveiro poderão salvar o planeta?

Abordar a crise a "passos de bebê" pareceu ser a mensagem predominante dos concertos Live Earth na semana passada. Faça um pouquinho pela causa. Se essa mensagem pegar, poderá solapar o impulso cultural ou político que Gore e seus aliados conseguiram gerar com as evidências de que a atividade humana está aquecendo o planeta em níveis perigosos? Mas os americanos se habituaram à doutrina do sacrifício moderado ou indolor.

Moacyr Lopes Junior/Folha Imagem 
"Faça um pouquinho pela causa ecológica" foi a mensagem do Live Earth

Alguns americanos - os militares e seus parentes e amigos - foram solicitados a fazer o sacrifício máximo no que George W. Bush afirma constantemente ser uma luta titânica pela civilização. O resto de nós, nem tanto. Além de tirar os sapatos nos aeroportos, resmungar sobre ameaças a nossas liberdades civis ou enfrentar os efeitos psicológicos das ameaças terroristas, não há muita coisa que nos una.

Disseram-nos que continuar vivendo normalmente é a melhor resposta ao terrorismo. Depois nos disseram que estes não são tempos normais.

Os EUA estão numa guerra, mas não em guerra.

Se as ameaças do terrorismo e do aquecimento são o que dizem os líderes, é necessário desafiar os americanos a fazer muito mais do que apagar uma lâmpada ou fabricar um carro híbrido quando o queimador de gasolina ficar velho? Como reagiriam os americanos se lhes dissessem que para emancipar seus filhos das armadilhas políticas dos reinos do petróleo eles teriam de viver rápida e irrevogavelmente sob padrões de quilometragem e poluição muito mais rígidos?

Se a independência energética deste continente recebesse uma meta com data precisa, como chegar à lua até o final da década de 1960, as empresas e os consumidores americanos assumiriam o desafio? Se houvesse mais vergonha em torno do consumo ostentatório, faria diferença? (Poderíamos começar pedindo às atrizes que dizem à população para desligar o chuveiro enquanto raspa as pernas que se empenhem igualmente para fechar a ponte-aérea de jatinhos Hollywood-Nova York.)

Se houvesse metas nacionais para reaparelhar as casas visando a máxima eficiência energética ou aperfeiçoar a informática para otimizar o uso de energia, os americanos adeririam à causa, ajudariam seus concidadãos a encontrar um caminho? Se a energia nuclear fizesse parte da via para a independência energética, nos empenharíamos em fazer do armazenamento e a proteção do lixo nuclear uma questão de segurança nacional de primeira ordem?

Precisamos de um serviço nacional, militar e não-militar, para mobilizar os jovens americanos contra o que pode ser a luta de toda a sua geração contra o terrorismo e o fanatismo religioso?

Não sabemos, porque ninguém perguntou.

Em 2003, quando Bush se preparava para a reeleição, seu assessor Karl Rove participou de um café da manhã do jornal "Christian Science Monitor" com repórteres. Foi antes da invasão do Iraque, da derrubada de Saddam Hussein e da violência sectária e terrorista que assola o Iraque hoje. Perguntaram a Rove se a população americana teria de fazer sacrifícios para ajudar a vencer a guerra ao terrorismo.

Rove, um estudante de história, havia folheado documentos originais do governo sobre racionamento e outros sacrifícios na Segunda Guerra Mundial.

"Suspeito que algumas pessoas nesta sala, quando crianças, tiveram de participar da coleta de latas ou de papel, ou plantaram uma horta no quintal", disse Rove. "Bem, sabem de uma coisa? Não estamos lutando um tipo de guerra que exija o mesmo tipo de sacrifício da população americana. Temos metal, papel e borracha suficientes para equipar nossas forças militares."

Ele estava certo nesse sentido, como prova a robusta indústria da defesa dos EUA. Mas o que o presidente não tem hoje é muito mais sério: o apoio da maioria da população americana a uma guerra que ele diz que temos de ganhar.

"É claro que me importa se a população americana está ou não nesta luta", disse Bush numa entrevista coletiva na quinta-feira, reconhecendo que o "cansaço da guerra" está "afetando nossa psicologia". Mas a "guerra feia", ele disse, deve ser vencida como parte de uma luta que irá muito além de sua presidência.

Inclinando-se para a frente, o presidente disse que quando se aposentar no Texas, daqui a oito meses, "poderei dizer que olhei no espelho e tomei decisões com base em princípios, e não com base na política, e isso é importante para mim".

Mas poderá ele perguntar: "Eu pedi o suficiente à população americana?" Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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