Reclamações aumentam enquanto mais pessoas usam cidade como tela

Rich Hampson
Em Nova York

Até que o esquadrão contra o vandalismo o levasse algemado, parecia que KET havia crescido.

KET é a assinatura de grafite de Alain Mariduena que, quando adolescente nos anos 80, fez fama pintando trens de metrô com latas de spray. Desde então, entretanto, evoluiu e se tornou lenda da escola antiga - historiador, editor, palestrante, consultor - que supostamente não deixava sua marca em trens desde o nascimento de seu primeiro filho.

Então, em outubro, a polícia fez uma batida em seu apartamento e apreendeu computadores, câmeras e 3.000 latas de tinta. Agora, Mariduena é acusado do que ele disse ter deixado para trás: pintar vagões do metrô.

Sem testemunhas, os promotores apresentam um novo caso. Eles dizem que Mariduena é incriminado pela presença de sua assinatura, KET, nos vagões de metrô e pelo fato de fotografias dessas marcas terem sido baixadas por seu computador pouco depois dos trens serem pintados.

O caso faz parte de uma nova guerra contra o grafite, esse híbrido de arte com vandalismo há muito controverso. Fãs e críticos, entretanto, concordam no seguinte: nunca tanto foi feito para combater o grafite, e nunca houve tanto dele.

Autoridades de Chicago estimam que este ano verão cerca de 170.000 casos de grafite, subindo de 106.849 há três anos. O grafite é uma das reclamações mais freqüentes à linha de informações 311 de Minneapolis. Em Los Angeles, uma criança deixou sua marca em um ônibus que levava o prefeito Antonio Villaraigosa.

O grafite se tornou tão comum em Washington D.C. que o prefeito Adrian Fenty alegou o direito de removê-lo de propriedade privada sem a aprovação do proprietário. O prefeito de Chicago Richard Daley quer multar pais pelos rabiscos dos filhos. Em Peoria, Arizona, câmeras de vigilância foram instaladas em áreas muito grafitadas.

Muitas comunidades aprovaram regulamentos locais limitando o acesso de menores a latas de spray e marcadores de ponta grossa, ou adotaram uma recomendação do Departamento de Justiça para definir certas paredes para a prática legal do grafite.

Não há estatísticas nacionais sobre o grafite - muitos casos nem são denunciados - e apenas teorias sobre por que está crescendo.

"São muitas coisas juntas", diz Tim Cephart, consultor de vandalismo. Ele cita o papel cada vez maior do grafite na cultura popular, incluindo sua proeminência em vídeos de rap.

Hugo Martinez, historiador de grafite e autor de "Graffiti NYC", tem uma visão diferente: "Há mais 'graf' porque há mais policiamento. A repressão gera a agressão."

Em Nova York, o caso de KET mostra como as autoridades estão realmente determinadas a acabar com o grafite - e como é difícil.

Mariduena, que enfrenta 14 acusações de crimes que podem levá-lo a prisão por anos, diz que é inocente.

"No meus tempos, faria sentido", diz ele sobre as acusações. "Mas agora há uma batalha acontecendo, e fui pego no meio. Represento uma Nova York que a prefeitura não quer que exista mais. Querem uma cidade prístina, como uma Disneylândia."

Metrô como tela
O grafite - qualquer marca não autorizada, personalizada, em uma superfície pública ou privada - existe desde a antiguidade. "Algum tipo de marcação nas paredes sempre houve nas cidades", disse Charlotta Kotik, curadora que organizou uma exposição de arte em grafite no museu de Brooklyn no ano passado. "Sempre existiu e sempre existirá".

Nos anos 70, uma nova forma de expressão apareceu na Cidade de Nova York. Os jovens usaram tinta aerossol para adornar trens de metrô com marcas altamente estilizadas (Julio 204, Taki 183) que apresentavam letras interligadas, muito coloridas, em formato de bolha ou de blocos. O metrô levou um novo visual pela cidade.

Algumas pessoas (Norman Mailer) gostaram; outras (prefeito Edward Koch), odiaram. Independentemente dos méritos artísticos, o grafite passou a simbolizar a queda de Nova York para a desordem física, fiscal e cívica.

Então, no final dos anos 80, a Autoridade do Trânsito anunciou que nenhum trem teria a permissão de deixar a garagem até que todo o grafite fosse lavado. Os autores foram privados de seu público; os que persistiram foram reduzidos a fotografar seu trabalho antes de ser lavado.

Mas o grafite se espalhou - para pontes, lojas, caminhões, latas e lixo, calçadas e até árvores.

Agora, a polícia diz que as reclamações estão aumentando. Em Nova York, as prisões aumentaram 14% no ano passado (e em um terço entre jovens de 10 a 17 anos) e subiram 44% neste ano até agora. Entre 2004 e 2006, o grafite no metrô triplicou.

Cephart, o consultor de grafite, diz que poucos grafiteiros pretendiam ser artistas; a maior parte é de garotos "que querem um pouco de fama" ou membros de gangue marcando território.

Para críticos como o consultor da prefeitura Peter Vallone, o grafite é mais do que feio, é perigoso - "uma porta para o crime", diz ele, que leva jovens ofensores pelo caminho errado e assinala para criminosos mais velhos que "essa comunidade permite a ilegalidade".

A Força Tarefa Contra Vândalos da polícia, formada há dois anos, tem um banco de dados com mais de 2.000 nomes (e as marcas correspondentes) que permitem aos comandantes identificar os "pontos quentes" de grafite. A unidade também oferece recompensas por informações referentes ao grafite; cerca de US$ 25.000 (R$ 50.000) foram distribuídos até agora.

Os juizes vêm prendendo os grafiteiros, para deleite de Vallone. "Deixe-os rabiscar as paredes de suas celas", diz ele.

De grafiteiro a empresário
Para Mariduena e o grafite, foi amor à primeira vista.

"É lindo estar sentado em uma plataforma, sem esperar e ver uma apresentação de arte aparecer na sua frente", diz ele de sua adolescência no Brooklyn. "Você não tem que ir ao museu e dar a eles 20 pratas."

Então KET - ele inventou um nome ao acaso um dia na lanchonete da escola - começou a passar as noites nas garagens do metrô, trabalhando com outros grafiteiros, aprendendo como pintar e quando fugir. Certa vez, perdeu-se em um túnel e teve que correr de um trem que se aproximava.

Ele disse que, ao forçar o grafite para o espaço aberto, a repressão no metrô no final dos anos 80 forçou os grafiteiros a trabalharem mais rapidamente e com menos cuidado. A qualidade do grafite caiu.

Em entrevista no final dos anos 90, divulgada no site guerrillaone.com, KET disse que de todos os lugares para grafitar, "os trens são os mais divertidos. O resto é tudo meio chato". Mas ele disse que não estava "ativo".

Mariduena recebeu uma bolsa da Universidade de Nova York e fundou uma revista de cultura hip-hop, Stress. Ele foi convidado a pintar (legalmente) em festivais em Munique, Zurique, Copenhagen e Havana. Fez turnês de palestras, dizendo a um público na universidade de Brown em 1999 que o grafite era "uma forma ilegal de arte para nós, jovens, na qual desafiamos a polícia, o governo e nossos pais".

Além disso, trabalhou como consultor de empresas, inclusive para o designer de roupas urbanas Marc Ecko, para quem começou uma revista (Complex) e ajudou a fazer um videogame sobre grafite ("Getting UP: Contents Under Pressure"), que fazia tudo parecer muito divertido.

Ecko é mal visto pelo movimento de combate ao grafite. Em 2005, a prefeitura negou-lhe uma permissão para um evento de rua para promover o videogame, depois de saber dos planos em que KET e outros fariam grafite em um vagão de metrô falso. Mas Ecko entrou na justiça, e um juiz permitiu que continuasse.

O povo contra KET
Certa manhã em outubro, Mariduena estava passeando com seus dois pitbulls no parque, quando recebeu uma ligação no celular de um vizinho. "Melhor você voltar", disse ele. "A Swat está atrás de você."

Neste ano, ele foi indiciado e preso por uma semana antes que pagasse a fiança. "Minha cela parecia que não tinha sido pintada em 20 anos", diz ele.

A prisão de KET tornou-se um grito de guerra.

"Com a arte nas ruas se tornando mais comercial e grandes empresas financiando a forma de arte... algumas pessoas vêm questionando se a comunidade perdeu sua postura de fora-da-lei" comentou o site da Web rawkus.com. "Bem, aparentemente um veterano das ruas ouviu o chamado às armas."

Mariduena rejeita os elogios. Ele diz que não estava perto dos trens quando foram pintados, que virou alvo da lei por causa de seu laços com Ecko e que as marcas nem parecem a sua.

"É uma versão ruim de KET", diz ele. "É simples demais, parece antiga em relação ao meu trabalho mais moderno, que é mais complexo e colorido."

No entanto, ele não quis comentar como as fotografias chegaram em seu computador pouco após a pintura do grafite, apenas disse: "Muitas pessoas me mandam fotografias".

Por que um pai de 37 anos com dois filhos voltaria às garagens escuras do sistema de metrô e seus túneis fétidos, apenas para pintar trens que nunca teriam a permissão de ser vistos pelo público?

Os promotores dizem que KET queria reviver a fama de fora-da-lei perdida por seu trabalho comercial para Ecko e outros. "É um caso de ego, fama e reputação", diz o promotor Richard Brown, do Distrito de Queens. "Ele leva seu trabalho para as ruas para aumentar sua credibilidade."

Bucky Turco, fundador do site animalnewyork.com, discorda. "Não vejo ele se arriscando, ou que isso seja necessário para sua carreira", diz. "Ele conseguiu seus créditos na rua há muitos anos."

Lady Pink, grafiteira cujo trabalho está em galerias e museus, diz que é improvável que KET ou qualquer outro antigo grafiteiro do metrô volte à ativa: "Certo, você sente falta da excitação, mas em certa altura você desiste. As conseqüências - prisão, advogados - superam os benefícios."

Independentemente do motivo, os promotores dizem que as marcas de KET o ligam ao grafite em três bairros em dois anos.

Brown diz que uma marca, quando inspecionada por um especialista do esquadrão de grafite da polícia "literalmente identifica o assim chamado artista, da mesma forma que a caligrafia identifica uma pessoa".

Turco duvida. "Conheço jovens que conseguem duplicar as marcas dos outros", diz ele. "E KET é um sujeito da escola antiga, então algumas pessoas vão homenageá-lo".

Lady Pink diz que, apesar de os melhores grafiteiros terem um estilo único e identificável, "temos alguns excelentes fraudadores no mundo do grafite que podem duplicar qualquer marca para seus interesses próprios".

Alguém poderia ter pintado a assinatura de KET, tirado fotos digitais e enviado a ele os arquivos? Para quê? Para homenageá-lo? Ou para incriminá-lo?

Uma nova marca
É quatro de julho, e Mariduena está descendo a Broadway com um carrinho de mão cheio de caixas de spray. Ele vai trabalhar.

Ele conta como o grafite "originou-se aqui em Manhattan e Flatbush, Brooklyn. Era um esporte - os garotos queriam se tornar populares e pintavam seus nomes, como um jogo. Era um jogo infeccioso, e espalhou-se por toda a cidade."

Ele diz que desde que foi preso, "KET" e "Free KET" vêm proliferando. "Eu digo, 'não me façam favores!'"

Naquele dia, recebe dois europeus. Smash, ou Adrian Falkner, é um grafiteiro suíço famoso. Rudy Glatz é CEO de uma fabricante alemã de tinta spray, Montana, que doou as latas.

Eles explicam que entraram em contato com KET por causa de sua fama, seus contatos e, bem, porque ele tinha uma parede.

O movimento de combate ao grafite fez do espaço legal para o grafite uma commodity preciosa. KET conseguiu o seu de sua tintureira.

"Ela me disse que eu podia pintar a parede de fora da tinturaria, desde que não fizesse nada assustador", diz ele, tirando um cartão profissional com sua permissão, escrita em espanhol.

Depois de desenhar algumas idéias em um caderno, Mariduena vai ao trabalho, traçando o contorno de uma palavra. Enquanto sobe e desce de uma escada, ele parece um pouco duro; é fácil ver porque não se sente mais seguro de sua capacidade de correr mais do que um policial que acaba de sair da academia.

Ele trabalha lenta e deliberadamente, até que, finalmente, a palavra em torno da qual baseará esta obra finalmente se torna clara.

Não é "KET", sua marca habitual, mas um comentário sobre o caso contra ele: "Lies", ou mentiras. Deborah Weinberg

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