Nacionalismo ganha força no Japão

Paul Wiseman*
Em Tóquio

Yujo Tojo recorda-se do seu avô, Hikei Tojo, como sendo um cavalheiro que escrevia cartas afetuosas para a família e que permitia que ela brincasse no jardim com os filhos dos criados. Mas para a História ele é lembrado como um criminoso de guerra, o primeiro-ministro durante a Segunda Guerra Mundial responsável pelo ataque japonês a Pearl Harbor.

Yuko Tojo, 68, tenta obter uma cadeira na casa superior do parlamento japonês a fim de limpar o nome do avô. Nas eleições de domingo, ela concorrerá como candidata independente, tendo sido desprezada pelo governista Partido Liberal Democrata (PLD), que compartilha muito das suas idéias revisionistas a respeito do passado bélico do Japão. Até mesmo ela está cética quanto às suas chances, e as pesquisas de opinião sugerem que o PLD, liderado pelo impopular primeiro-ministro Shinzo Abe, ruma também para uma derrota.

Kazuhiro Nogi/AFP - 22.jul.2007
Primeiro-ministro japonês Shinzo Abe faz campanha nas ruas de Tóquio
Independentemente do que acontecer no domingo, as idéias nacionalistas de Yuko Tojo e o líder do PLD provavelmente sobreviverão. A plataforma política deles costumava divergir das idéias da maior parte da população: eles desejam que o Japão reformule a sua constituição anti-belicista imposta pelos Estados Unidos após a Segunda Guerra Mundial. E também que o Japão rearme as suas forças armadas e reescreva a História, apagando trechos relativos a ataques traiçoeiros e massacres e substituindo-os por enaltecimentos do patriotismo e da honra.

Tais idéias costumavam ser heréticas no Japão de pós-guerra, mas nos últimos anos ganharam apoio público à medida que a China promovia uma rápida militarização e a Coréia do Norte testava mísseis e artefatos nucleares. Os Estados Unidos, que têm arcado com a responsabilidade de defender o Japão, encorajaram o país a se rearmar.

"O nacionalismo crescerá no Japão, não importa quem vença a eleição", afirma Yan Xuetong, professor de política externa da Universidade Tsinghua, em Pequim.

Yoshiko Sakurai, uma comentarista política de Tóquio, concorda. "Uma vitória do oposicionista Partido Democrático do Japão (PDJ) no domingo pode desacelerar essa tendência, mas não a interromperá", diz ela.

Eis os motivos para isso:

- O PLD, controlado por uma facção nacionalista, continuará controlando a casa menor (ou câmara dos deputados) no parlamento, que é a que escolhe o primeiro-ministro.

- O PLD implementou partes da agenda nacionalista de Abe, expandindo o papel das forças armadas japonesas ao enviar tropas ao Iraque e ao Afeganistão, aprovando uma lei cujo propósito é criar as condições para uma revisão constitucional e uma outra referente a políticas escolares que enfatiza a "educação patriótica".

- Shintaro Ishihara, o nacionalista governador de Tóquio, pune os professores que não seguem a linha patriótica na sala de aula.

Até o oposicionista PDJ deseja que o Japão aumente a sua capacidade defensiva a fim de desempenhar um papel mais arrojado nas questões mundiais participando das operações de paz da Organização das Nações Unidas (ONU) - o que era considerado pelos governos japoneses anteriores como uma violação às restrições constitucionais à guerra.

A intenção de revisar a constituição assusta muitos japoneses que têm orgulho do histórico pacifista do país no período pós-guerra. "Precisamos proteger a constituição", afirma Hayato Uemura, 51, que vende programas de computador. "Não devemos dar início a guerras".

Tropas japonesas invadiram e ocuparam a China e a Coréia antes e durante a Segunda Guerra Mundial. Analistas de direita como Sakurai negam ou minimizam as atrocidades documentadas cometidas durante a guerra, como o Massacre de Nanking, quando soldados japoneses trucidaram milhares de civis chineses.

Em 2001, Abe, à época secretário-geral do PLD, pressionou a rede nacional de televisão NHK para que esta censurasse um programa sobre o uso de escravas sexuais (conhecidas como "mulheres confortadoras") pelas forças armadas japonesas durante a guerra, segundo matéria do jornal "Asahi".

"Durante a guerra, fizemos coisas terríveis com estrangeiros e com o nosso próprio povo. Isso é um fato", afirma o analista político de esquerda Minoru Morita. "Perdemos 3,1 milhões de pessoas e um terço na nossa riqueza nacional. Demorou 25 anos para que nos recuperássemos. Aprendemos que temos que nos entender com os Estados Unidos e a China. Alguns dos nossos políticos não compreendem isso".

Centenas de professores japoneses recusaram-se a cooperar com aquilo que para eles é uma tentativa coerciva de incutir patriotismo nos jovens. Eles também são contrários à revisão da História do Japão.

Somente em Tóquio 320 professores foram punidos - com redução de salário ou suspensão - por recusarem-se a saudar a bandeira ou a ficar de pé durante a execução do hino nacional, segundo a comissão escolar de Tóquio. Akira Suzuki, do departamento de pessoal do sistema escolar, diz que a comissão está impondo as regras, e não uma ortodoxia política.

Kimiko Nezu, uma professora de ensino médio de Tóquio, foi suspensa tantas vezes que acredita que neste ano ganhará menos de US$ 17 mil do seu salário anual de US$ 58 mil.

Ela afirma ter sido punida por se recusar a ficar de pé durante a execução do hino nacional, e por ensinar aos seus alunos a respeito das mulheres confortadoras, apesar das repetidas advertências para que se distanciasse deste tópico considerado um tabu.

Nezu, 56, diz que a pressão nacionalista teve início em 1994, tendo se intensificado depois que Ishihara tornou-se governador de Tóquio, em 1999. "Nunca imaginei que a situação fosse ficar ruim desse jeito tão rapidamente", afirma Nezu. Neste ano ela foi transferida para uma escola para deficientes. Nezu considera a transferência uma punição. Ela acredita que perderá o emprego antes que a ação que moveu contra a diretoria da escola seja julgada no ano que vem. "Esta é a minha forma de ser patriota", diz ela.

Yuko Tojo tem uma idéia diferente de patriotismo. Ela afirma acreditar que a História, escrita pelos vencedores da Segunda Guerra Mundial, precisa ser revisada a fim de que se resgate a reputação do país - e do seu avô. Ele foi enforcado em 1948, após ser condenado por um tribunal internacional devido à acusação de ter cometido crimes de guerra. Segundo Yuko Tojo, o Japão invadiu os seus vizinhos e atacou Pearl Harbor em 1941 porque os Estados Unidos estavam sufocando os japoneses com sanções econômicas. "Foi uma guerra de auto-defesa. A História do Japão foi distorcida", acusa.

Ex-dona de casa, Tojo não tem nada contra os Estados Unidos. A sua filha de 29 anos, que casou-se com um norte-americano e foi morar em Seattle, ficou chateada quando o marido deixou o emprego e ingressou na Força Aérea dos Estados Unidos após os ataques de 11 de setembro de 2001. "Eu disse a minha filha que este é o momento em que o seu país precisa do seu marido, e que a atitude dele foi esplêndida", conta Yuko Tojo.

* Naoko Nishiwaki contribuiu para esta matéria. UOL

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