Ciência e política entram em briga suja

Dan Vergano

Malicioso, vingativo e mau caráter. Há palavras que podem surgir em divórcios litigiosos. Entretanto, têm sido usadas em um estranhamento diferente: o impasse entre o governo Bush e a comunidade científica nacional.

O relacionamento, complicado desde o início da presidência de Bush, atingiu um ponto crítico no mês passado quando Richard Carmona, inspetor geral de saúde de 2002 a 2006, atacou seus antigos colegas em testemunho diante de um comitê da Câmara.

Junto com os ex-inspetores gerais C. Everett Koop e David Satcher, Carmona disse que relatórios de saúde pública só são preservados quando estão cheios de elogios ao governo. "Foi o inspetor Koop que salientou e ainda diz hoje... 'Richard, todos nós travamos essa batalha, como nossos predecessores há mais de um século, mas nunca foi tão partidária,... tão vingativa e tão maldosa quanto hoje, e você claramente enfrenta situação pior que qualquer um de nós passou'".

Apesar de Koop, que serviu sob o presidente Reagan, e Satcher, que foi nomeado pelo presidente Clinton, também falarem da interferência política, foi o testemunho de Carmona que pegou os legisladores e cientistas de surpresa. Foi ele, afinal, que deu um abraço no presidente diante das câmeras de televisão quando foi nomeado inspetor-geral.

As declarações de Carmona cristalizaram a divisão entre o presidente e muitos cientistas da nação, gerando conversas dentro e fora do governo sobre como as coisas estão ruins, quem deve ser culpado e o que isso significa para o futuro.

Desde o discurso televisionado do presidente Bush no dia 9 de agosto de 2001, quando anunciou sua intenção de restringir os gastos federais em pesquisas com células-tronco embrionárias, os conflitos com cientistas foram uma característica de seu governo. Os debates incluíram educação sexual, exploração espacial, contracepção e aquecimento global.

"A comunidade científica agora reconhece que esse governo coloca completamente sua charrete política antes dos bois científicos. Vimos isso em uma questão após a outra", disse o editor da revista "Science" Donald Kennedy, ex-diretor da Administração de Alimentos e Drogas.
A ciência é um campo de batalha desde os primeiros dias da presidência de Bush. Esses são alguns dos principais pontos na luta entre muitos pesquisadores e a Casa Branca:

Pesquisa com células-tronco: em agosto de 2001, o presidente anunciou que as verbas federais seriam dadas apenas para projetos de pesquisa que envolvessem as linhagens de células-tronco embrionárias já existentes. Bush vetou duas tentativas do Congresso de derrubar essa política e expandir os gastos federais na pesquisa.

Aquecimento global: Em 2005, documentos vazados revelaram que o chefe de gabinete do Conselho de Qualidade Ambiental da Casa Branca, ex-advogado da indústria de petróleo, tinha alterado relatórios sobre o clima para suavizar as descobertas científicas que mostravam que o uso de combustível fóssil e o desmatamento geraram aquecimento global.

Controle de natalidade: a Administração de Alimentos e Drogas (FDA) foi acusada de ignorar os consultores científicos e ser influenciada pela ideologia política em 2004, quando bloqueou as vendas em farmácias das pílulas anticoncepcionais do dia seguinte "Plan B". A FDA mudou de idéia no final do ano passado e permitiu que a pílula fosse vendida em farmácias.

Espécies ameaçadas: oito das decisões do Ato de Espécies Ameaçadas estão sendo reconsideradas, inclusive uma sobre o habitat do lince do Canadá, pelo Serviço Nacional de Vida Selvagem e Peixes. A integridade e legalidade das decisões, supervisionadas por um nomeado político, foram questionadas.
ONDE ESTÁ O LIMITE

Entretanto, o assessor científico da Casa Branca, John Marburger, diz que a ciência tornou-se ponto quente porque é fácil usar o argumento de que a pesquisa está correta.

"A ciência tornou-se muito poderosa como símbolo, e todo mundo que tem uma opinião tenta recrutar a ciência para seu lado", diz Marburger. "Questões que não teriam sido rotuladas de controvérsias relacionadas com a ciência no passado agora são consideradas dessa forma."

Aumento de gastos
No total, o governo Bush patrocinou a ciência como os governos anteriores, diz Sarewitz, alocando US$ 139 bilhões (em torno de R$ 278 bilhões) em pesquisa e desenvolvimento no ano fiscal de 2006. Isso é um aumento em relação ao ano fiscal de 2001, que recebeu US$ 106,3 bilhões (cerca de R$ 212 bilhões), de acordo com a apartidária Associação Americana para o Avanço da Ciência.

Segundo as pesquisas, os cientistas tendem a ser democratas, então suas reclamações devem ser vistas com cautela, diz Sarewitz.

Foi um antigo membro do governo republicano, entretanto, que reclamou em julho que "o médico da nação" fora marginalizado. Carmona disse que nomeados políticos no Departamento de Saúde e Serviços Humanos impediram-no de falar das evidências científicas ligadas à pesquisa com células-tronco embrionárias, contracepção e educação sexual.

Suas declarações fizeram lembrar outras alegações de interferência política na ciência neste ano:

- Um relatório de inspeção do Serviço de Vida Selvagem e Peixes, na semana passada, revelou como um nomeado político alterou relatórios científicos sobre espécies ameaçadas limitando habitats protegidos, e vazou relatórios internos para advogados da indústria imobiliária violando regulamentos federais. O diretor da agência H. Dale Hall chamou as ações de uma "mancha" em sua integridade científica.

- O cientista de clima da Nasa, James Hansen, testemunhou em março, diante do comitê da Câmara, sobre como uma nomeada política de 24 anos que servia de assessora de imprensa o havia proibido de falar publicamente sobre o aquecimento global. "A revisão e a edição de testemunho científico pelo Departamento de Orçamento e Administração da Casa Branca agora parece ser uma prática aceita", acrescentou.

- O pesquisador de tempo Thomas Knutson, do Departamento Nacional Oceânico e Atmosférico, contou ao Senado em fevereiro como nomeados políticos proibiram-no de comentar laços entre furacões e o aquecimento global.

"Qualquer coisa que não se encaixe na agenda política ideológica ou teológica dos nomeados freqüentemente é ignorada, marginalizada ou simplesmente enterrada", testemunhou Carmona.

O historiador científico Steven Shapin, de Harvard, diz: "Nunca houve um tempo em que a ciência fosse perfeita e a política estivesse a 100 quilômetros de distância". O testemunho de Carmona, entretanto, sugere "que há algo de notadamente abusivo e sem vergonha no que o governo está fazendo".

Interesses do governo
Em entrevistas, três membros do governo no setor de ciências, Ray Orbach do Escritório de Ciências, William Jeffrey do Instituto Nacional de Padrões e Tecnologia e Elias Zerhouni dos Institutos Nacionais de Saúde, negaram que membros do governo tivessem distorcido os conselhos científicos.

Os projetos de pesquisa inscritos para as verbas federais são avaliados pelos próprios cientistas, e essa revisão "é provavelmente a maior força contra a interferência da polícia na ciência", diz Zerhouni.

Marburger diz: "Não vi qualquer orquestração ou direção central sobre o que você pode falar". O presidente espera que os cientistas compartilhem seu conhecimento e "sejam ativos em divulgar a verdade" se encontrarem resistência, disse ele.

Não é bem assim, dizem os críticos.

"A única razão pela qual a verdade está sendo divulgada agora é que o novo Congresso está segurando os pés de Bush no fogo", diz Chris Mooney, autor de "The Republican War on Science" (A Guerra Republicana à Ciência). Mooney diz que os líderes do governo há muito desencorajam cientistas.

Daniel Greenberg, jornalista de Washington que escreveu extensivamente sobre política científica, disse: "O governo Bush tem interesses - ideológicos, teológicos e complacentes com algumas indústrias - que são suas preocupações. Os pesquisadores têm uma noção inflada de si mesmos se acham que o governo tem algo contra eles em particular, enquanto perseguem seus objetivos em formas que desrespeitam suas opiniões".

É claro que durante a história, cientistas e políticos discordaram, pelo menos desde o debate da Segunda Guerra Mundial sobre o futuro das armas atômicas. Em um episódio famoso, Robert Oppenheimer, diretor do Manhattan Project, que se opôs ao desenvolvimento de bombas mais poderosas, perdeu o acesso irrestrito às dependências após audiências dramáticas no Congresso em 1954.

Em seu recente testemunho, por exemplo, Satcher detalhou sua batalha perdida para conseguir o apoio do presidente Clinton para programas de troca de agulhas, forma comprovada de combater infecções por HIV.

Koop testemunhou que, apesar de enfrentar a oposição quando abordou a Aids, foi feliz em ter o apoio do presidente Reagan. "Nos anos desde que deixei o cargo, observei uma tendência preocupante de tratamento longe do ideal ao inspetor geral de saúde, inclusive minando sua autoridade em momentos em que seu papel e função parecem abundantemente claros", disse.

Ele disse que, se tivesse sido impelido da mesma forma que seus sucessores, nunca teria concluído partes importantes de seu trabalho - inclusive os relatórios sobre o tabaco e a saúde.

David Goldston de Princeton, ex-assessor do deputado republicano de Nova York Sherwood Boehlert, do Comitê de Ciências da Câmara, diz: "A política tornou-se cada vez mais polarizada, então todos têm que dizer que sua opinião é objetiva, pura e factual, o que significa que são puxados para o lado científico. A maior parte dessas questões é de valores, mas ninguém quer discutir isso, então terminamos com debates barrocos sobre ciência".

A tempestade sobre células-tronco
O assunto mais contencioso talvez seja a posição do presidente Bush sobre a pesquisa com células-tronco embrionárias. Os cientistas esperam um dia usar essas células para fazer tecidos de transplante que não sejam rejeitados. Oponentes da pesquisa criticam a destruição de embriões que ocorre quando as células são colhidas no laboratório.

Bush decidiu logo no início de seu mandato que as verbas federais seriam dadas apenas para projetos de pesquisa com linhagens existentes de células-tronco. Os cientistas argumentaram que o número de linhagens disponível para patrocínio seria insuficiente para a pesquisa. Originalmente, deveriam ser mais de 60, mas de fato são menos de duas dúzias.

"Se quisermos encontrar o caminho certo para avançar na pesquisa médica com ética, precisamos também precisamos estar dispostos a rejeitar as formas erradas quando necessário", disse Bush no ano passado quando vetou a lei que teria expandindo essa pesquisa.

Greenberg diz: "Tenho certeza que George Bush não dá a mínima sobre células-tronco, mas faz o que tem que fazer para agradar sua base".

Em resposta, a União de Pesquisadores Engajados, um grupo de defesa da ciência e do meio ambiente, começou uma campanha para "proteger a integridade da ciência". O grupo de Cientistas e Engenheiros pela Mudança, que incluiu dezenas de prêmios Nobel, fez campanha contra Bush em 2004.

"Não pense que o problema irá embora", diz Goldston. "Com a política mais polarizada do que nunca e muitas dessas questões continuando a avançar, os esforços para enquadrar a ciência agora são inerentes ao nosso sistema".

Kennedy da "Science" e outros acreditam que as batalhas entre cientistas e políticos podem ficar para trás sem prejuízo permanente para o relacionamento. "Temos muitos problemas de verdade, e há muito a ganhar se trabalharmos juntos", diz Kennedy.

Outros são mais cautelosos.

"O perigo surge quando (a ciência) é vista simplesmente como política", diz Shapin. "Por que acreditar nela?" Deborah Weinberg

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