Será que Elvis ainda é rei, 30 anos após sua morte?

Marco R. Della Cava e Brian Mansfield

Quando Elvis Presley morreu, no dia 16 de agosto de 1977 em sua amada casa em Memphis, uma multidão reuniu-se imediatamente nos portões de Graceland. Três décadas depois, peregrinos dedicados ainda estão por lá, no sufocante sol do Sul.

"Nunca poderia ter previsto, há 30 anos, que hoje Elvis ainda seria tão popular", disse Priscilla Presley, 62, que foi sua rainha e é guardiã de seu legado. Eles se divorciaram em 1973, depois de seis anos de casamento.

Mas será que Elvis ainda é relevante para um mundo maior, que há muito deixou sua era e macacões para trás - que trocou especiais de TV por clipes amadores do YouTube, álbuns de vinil por iTunes e carreiras gradativas para os breves momentos de fama no "American Idol"? Há evidências que o poder de Elvis no imaginário coletivo do mundo pode estar se enfraquecendo.

Para começar, o 30º aniversário de quinta-feira não produziu a avalanche de reedições de discos e tributos em livros de marcos anteriores.

Darren Staples/Reuters - 16.ago.2002 
Artista Michael King faz tributo a Elvis no 25º aniversário da morte do cantor

Elvis escorregou no ano passado para o segundo lugar na lista da revista Forbes das celebridades mortas que mais ganham, atrás de Kurt Cobain, do Nirvana. E o download de Elvis mais vendido até hoje é de fato um remix de 2002 de Junkie XL de "A Little Less Conversation", que nunca foi mais que um modesto sucesso para o cantor.

Na verdade, seria fácil demais descartar Elvis, como muitos fizeram no final dos anos 60, antes do Rei vestir um terno de couro preto justo e gravar seu celebrado especial de televisão de 1968. Para os acadêmicos da música, a mistura de visual, talento e pioneirismo de Elvis nunca se esvairão com a idade.

"Essa é apenas a calmaria antes do ressurgimento", prevê Alanna Nash, autora de "Elvis and the Memphis Mafia" (Elvis e a Máfia de Memphis), referindo-se aos planos de reforma de Graceland, onde 50.000 fãs estão se reunindo para a Semana Elvis. "Elvis é uma parte tão entranhada dos EUA que fico esperando que a bandeira será redesenhada a qualquer momento para incluir seu retrato".

O Cirque du Soleil está apostando nisso. Em 2009, a trupe canadense vai apresentar seu espetáculo sob o som de Elvis, como fez recentemente com os Beatles.

Outro crente é Robert F.X. Sillerman, diretor da CKX, que comprou 85% de participação da Elvis Presley Enterprises em 2004. "Nos próximos cinco anos, faremos o lançamento ordenado de novas músicas, algumas nunca ouvidas", disse ele.

Sillerman também planeja transformar Graceland, uma atração de US$ 27 milhões (em torno de R$ 54 milhões) por ano, cujos 40% dos visitantes têm 35 anos ou menos, em um reinado que faria Walt Disney piscar em aprovação. A reforma de US$ 250 milhões (cerca de R$ 500 milhões) da casa de estilo colonial e o terreno em volta incluirá a adição de um hotel e um museu interativo.

A quadra de tênis fechada da propriedade, que atualmente abriga muitos dos trajes luminescentes do Rei, será devolvida a seu estado original, diz Priscilla Presley. Um shopping center amplo e um cartaz para aviões do outro lado da rua "vão voltar ao que era quando (Elvis) comprou a propriedade", espaço aberto.

Dueto Celine e Elvis
"Nossa visão da lenda não é comemorativa, é atual", diz Sillerman, que também detém direitos de Muhammad Ali e do "American Idol". "Estamos nos concentrando em Elvis como atração contemporânea".

Isso explicaria o dueto bastante vendido de Celine Dion e Elvis no "American Idol", no qual a cantora canadense parecia estar em pé ao lado do príncipe de terno branco, enquanto cantavam um sentimental "If I can dream".

Na visão parcial do artista Rick Marino, que faz apresentações cover de Elvis, essa aparição em "Idol" mostra que "Elvis é atemporal - por melhor que seja Celine, ele dominou".

Marino diz que isso prova que Elvis, que hoje teria 72 anos, vive. Seu negócio em Jacksonville nunca caiu e não se pode dizer que atende apenas aos mais velhos. Recentemente, ele fez uma apresentação para uma festa de aniversário de 21 anos e apareceu no show de talentos de seu filho da quinta-série, "levando as crianças à loucura". "Todo mundo entendia ele".

Certamente, a cultura pop ainda aproveita-se do poder do Rei para vender. Um anúncio recente de Viagra usou "Viva Las Vegas" de trilha. A Hershey criou um chocolate recheado com creme de banana com o nome de Elvis Reese Cup; e uma série de edição limitada de motocicletas da Harley-Davidson replica seu modelo personalizado de 1957.

A geração que cresceu com Presley provavelmente apreciará essas coisas. Mas qual é seu apelo para os que nasceram após sua morte, gerações para quem Elvis pode ser um selo postal, uma piada ou uma parte da história que merece uma estátua, como a que foi recentemente erguida no Havaí?

O carisma do cantor chega às pessoas desde que consigam ultrapassar o kitsch e os clichês, diz Robert Thompson, professor de cultura popular da Universidade de Syracuse. "Ensino Elvis em muitas aulas, e freqüentemente os jovens tomam notas como se estivessem aprendendo a Revolução Francesa", ri Thompson. "Mas sempre há um ou dois que se empertigam quando vêem como é inspirador. São mordidos pela mesma coisa que cativava os jovens há tantas décadas".

Pode ser que Presley, que morreu aos 42 de arritmia cardíaca causada por um coquetel de remédios, esteja finalmente passando de celebridade para figura histórica, como fizeram antes dele lendas da música como Duke Ellington e Frank Sinatra.

"Não importa se Elvis está ou não vendendo mercadorias para suas realizações significarem algo", diz o veterano da indústria e autor Dave Marsh.

Marsh aponta para a contribuição valiosa de Presley à integração racial pela música, que precedeu o movimento dos direitos civis nos anos 60. "Ele é como Shakespeare. Será sempre relevante e icônico".

Matt "the Cat" Baldassarri só tinha um ano quando Elvis morreu, mas Presley para ele continua sendo "o primeiro roqueiro", cuja música dos anos 50 criou o gênero. "Ele era um menino pobre que, do nada, conquistou o mundo, porque se dispôs a ser ele mesmo", diz Baldassarri, 31, que dirige o canal dos anos 50 da Satellite Radio. "Ele não estava vendendo nada falso. Se você assiste a 'American Idol', o programa parece tão seguro. Ele nunca se sairia bem como competidor".

O que cativa o cantor de country de 30 anos Jason Aldean é o tamanho da sombra de Elvis. Nascido poucos meses antes da morte de Elvis, Aldean conheceu sua obra por meio de seus pais e passou a pesquisar a respeito.

"Meus pais o viram em Macon (Geórgia) e disseram que foi uma loucura", disse Aldean. "Vi muitas coisas sobre ele, todos os filmes. Minha geração não teve um artista tão grande, alguém que não fosse apenas um astro da música, mas também uma figura pública. O mais perto que minha geração chegou foi Michael Jackson".

Quando Nick Kidd fez um curso de não ficção na Universidade de Kentucky há poucos anos, o programa incluía "Elvis Presley", de Bobbie Ann Mason. "Sabia quem era, é claro, o Rei e tudo o mais, mas não posso dizer que sua música estivesse em meu radar", diz Kidd, 25, baterista e DJ em Louisville. "Mas quando me dei conta que era mais que um intérprete, que ele de fato era um fenômeno cultural, entendi. Sua música ainda não é relevante para mim, não tem aquela força. Mas sou muito mais apto a defendê-lo se alguém tentar discutir".

"Ele era sensual"
Elvis ganha novos fãs, tantos anos após sua morte, porque teve uma habilidade extraordinária de se metamorfosear para os tempos atuais.

"Ele era sensual, um rebelde, um cantor de gospel, um showman de Vegas, um ator de filme B", diz Erika Doss, autora de "Elvis Culture: Fans, Faith and Image" (Cultura Elvis: Fãs, Fé e Imagem). "A presença duradoura de Elvis deve-se a suas muitas imagens. Quando as pessoas olham para ele, encontram exatamente o que querem ver". Incluindo Priscilla Presley.

"Elvis significa algo para as pessoas porque não era uma pessoa falsa, era orgânico e verdadeiro com ele mesmo", diz ela. "Para mim, é o Elvis de 1968 a 1972. Esse foi o período, que eu me lembre, que ele foi mais feliz. Foi depois de sua carreira no cinema e quando estava voltando à música. Ele estava em uma boa onda".

A imagem dos 50 embalou o mundo
Para muitos músicos veteranos, porém, o Elvis que embalou seu mundo foi a imagem em branco e preto dos anos 50, uma época abotoada que recebeu um abalo sísmico com a apresentação sincopada e movimentos sugestivos no palco de Presley.

"As músicas e linguagem corporal que ele trouxe para a música americana agora são simplesmente partes aceitas de seu vocabulário", diz David Fricke, editor da Rolling Stone. "Você não tem que dizer que tirou de Elvis para sabermos disso".

E a maior parte de fato dará crédito. "Não me importo se estiver falando de Bruce, Prince ou Dylan, todos dizem que tudo remonta a Elvis", diz o biógrafo de Springsteen Marsh. "Onde há resistência, há Elvis".

E rebelião. E inovação. E arte.

De fato, tanto assim que Mason compara as contribuições de Presley às de Samuel Taylor Coleridge e Herman Melville, cuja influência respectivamente na poesia lírica e na estrutura novelística reverberou pelos séculos.

"Francamente, Elvis teve um impacto ainda maior na cultura popular que esses dois, simplesmente devido à comunicação de massa de nossa era", diz Mason. "Elvis tem seu lugar. Não o vejo tornando-se nota de rodapé".

Mason faz uma dura advertência: se Elvis for "meramente um exagero, vendido como algo para turistas consumirem, então perderemos de vista nossa própria história, toda a história do menino que nasce pobre, adota as influências de nossa juventude, abre caminhos e luta contra os perigos da fama. A história de Elvis é realmente heróica. Se simplesmente o tornarmos um ícone grotesco, mais uma vez, faremos dele uma vítima".

Aqui nos EUA, porém, grandes conquistas e a adulação da cultura popular andam de mãos dadas. Qualquer um que quiser ser lembrado pelas primeiras terá que fazer as pazes com a segunda.

E Nash, autora de Elvis, pode atestar isso.

"Pedi ao meu padeiro para guardar o cartaz de Elvis que a Hershey enviou para promover o chocolate com recheio de banana", diz ela. "Quando fui pegá-lo, o sujeito disse: 'Não sei como você conseguiu; umas 15 milhões de pessoas quiseram levá-lo'".

Isso prova, diz ela, a verdade do que o gerente de Elvis Tom Parker disse em 1977: "Elvis não morreu, o corpo sim". Deborah Weinberg

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