Jefferson não ganharia a presidência hoje

Chuck Raasch
Em Washington

O relutante candidato presidencial é um péssimo orador público, mas escreve muito bem. Ele tem criticado os sacerdotes e pregadores que se envolvem na política. Há amplos rumores de que é pai de filhos ilegítimos. É um mau negociante, sempre gasta além de seus meios. Ele apoiou uma guerra impopular que resultou na destruição da Casa Branca.

Com esse currículo, um Thomas Jefferson moderno talvez não fosse eleito nem para "homem da carrocinha". Um bom anúncio negativo, um rumor de campanha bem-coordenado, algumas frases malignas na blogosfera, e ele recuaria desanimado e derrotado para sua amada Monticello. Lá, Jefferson teria muito tempo para desenhar prédios magníficos, mas não poderia ser o arquiteto de qualquer Declaração de Independência. Ele mergulharia na ciência, no casamento e na filosofia, um verdadeiro americano do Renascimento. Mas não seria digno da presidência hoje.

New York Historical Society/AFP 
Retrato de Thomas Jefferson, autor da Declaração de Independência dos Estados Unidos

Apesar disso, ou talvez por causa, Jefferson é meu americano favorito, um sentimento muitas vezes renovado em Monticello, a algumas horas de carro da capital, na rústica região central da Virgínia. Mas essa última inspiração veio através da notícia de que os "Tesouros Americanos" da Biblioteca do Congresso estará terminando, depois de dez anos de exposição, em 18 de agosto. Estava na hora de fazer uma última visita à mostra, que foi vista por 2,5 milhões de pessoas. Em exibição através dos anos: tudo, desde o mapa original da baía de Chesapeake às aulas de geometria do menino George Washington até uma cópia da Declaração da Independência.

Nada disso teria sido possível sem Jefferson.

Nem o conteúdo dos bolsos de Lincoln na noite em que foi assassinado (dois pares de óculos, um canivete, um lenço de linho, uma carteira marrom contendo uma nota confederada de US$ 5 e nove recortes de jornais). Nem os artefatos que pressagiavam a vitória da liberdade sobre a tirania: cartazes da Primeira Guerra Mundial exortando os americanos a economizar trigo para os franceses; o diário da Marcha da Morte de Bataan; a primeira edição do "Honolulu Star-Bulletin" sobre o Dia de Pearl Harbor. Nem nada da mais fina cultura americana: o manuscrito de Cole Porter com a letra de "Kiss Me Kate"; o manuscrito e partitura de Richard Rogers para "Oklahoma"; filmes em preto-e-branco de Fred Astaire dançando, um prazer visual tão hipnótico que chegou a cativar jovens da geração YouTube.

A extraordinária exposição da experiência americana existiu porque Jefferson esteve aqui. Depois que os britânicos queimaram a Casa Branca na guerra de 1812 e destruíram muitos livros e documentos do governo, Jefferson - como sempre sem dinheiro - vendeu 6.500 de seus volumes para o governo americano por US$ 23.950. O edifício principal da magnífica Biblioteca do Congresso hoje leva o nome dele. A mostra "Tesouros Americanos" foi organizada ao redor da crença de Jefferson de que a educação sempre consistirá em três grandes componentes: memória (história), razão (filosofia e ciências) e imaginação (belas artes).

Não se enganem, Jefferson não se aproximou da perfeição em nenhum desses objetivos. Ele continua sendo um caso de contradições enlouquecedoras, no contexto das normas e pressões de sua época. Seus defeitos foram ressaltados nos últimos anos. Ele escreveu com eloqüência sobre igualdade, mas foi presidente de um país em que só os homens brancos podiam aspirar a ela. Escreveu sobre como deplorava a escravidão, mas tinha escravos. Ele pode ter tido filhos com uma delas, Sally Hemings.

Jefferson escreveu a declaração política definitiva mas se acautelava da política. Pediu que sua tumba comemorasse que ele foi o pai da Universidade da Virgínia, mas não o presidente dos EUA.

Mas suas grandiosas aspirações - de educação, autogoverno e igualdade - são seus legados mais valiosos. Jefferson morreu, num floreio simbólico, em 4 de julho de 1826 - exatamente 50 anos após o dia da assinatura da Declaração da Independência.

As luzes podem estar se apagando em "Tesouros Americanos", mas a inspiração não deve se extinguir. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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