Departamento de Defesa dos EUA paga US$ 1 bilhão a analistas de inteligência particulares

Richard Willing
Em Washington

O Departamento de Defesa está pagando a empresas privadas uma quantia superior a US$ 1 bilhão referentes a mais de 30 contratos distintos de serviço de coleta e análise de inteligência para as quatro forças militares (aeronáutica, corpo de fuzileiros navais, exército e marinha), bem como para a sua própria Agência de Inteligência de Defesa, de acordo com dados contidos em documentos relativos aos contratos e segundo informações de um porta-voz do Pentágono.

Este fato se constitui na primeira vez em que um serviço de inteligência dos Estados Unidos revela publicamente os pagamentos que faz para empresas particulares. Os pagamentos a empreiteiras relativos à área de inteligência aumentaram drasticamente desde os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, mas até recentemente nenhum desses contratos havia sido divulgado publicamente, segundo um relatório emitido em abril deste ano pelo escritório do diretor de Inteligência Nacional.

A cifra de US$ 1 bilhão "desperta atenção", admite o porta-voz da Agência de Inteligência de Defesa, Donald Black, mas o Pentágono começou a reduzir o uso dessas empresas externas.

"A guerra contra o terrorismo não será curta, e temos que contar com um 'pelotão de reserva' pronto para agir", argumenta Black. "A única maneira de satisfazermos tal exigência é partirmos para as contratações".

Na opinião de Steven Aftergood, um especialista em serviços secretos do governo que é membro da Federação de Cientistas Americanos, um grupo de Washington especializado em questões sigilosas, a contratação de pessoal externo desmoraliza os funcionários públicos federais de inteligência, que são mal pagos, e possibilita que tarefas críticas de segurança e informações sensíveis sejam transferidas para grupos privados.

"As empreiteiras particulares não são obrigadas a passar por um escrutínio do congresso ou a justificar os seus orçamentos referentes aos contratos", critica Aftergood. "Estamos começando a criar um novo tipo de burocracia de inteligência que é ao mesmo tempo mais cara e menos responsável do que as agências de inteligência do governo".

Black afirma que funcionários federais militares e civis supervisionam e avaliam todo o trabalho realizado pelas firmas contratadas.

O Pentágono divulgou o valor total dessas contratações porque na semana que vem começará a reorganizar a maior parte dos seus contratos com empresas privadas a fim de melhorar o gerenciamento e economizar verbas.

Cerca de 30 contratos na área de inteligência, que representam a maior parte das contratações de empresas privadas pelo Pentágono, serão reestruturados em cinco grandes contratos para eliminar redundância nas tarefas, afirma Black.

Detalhes preliminares sobre o projeto estão contidos em um documento sobre os contratos divulgado neste mês.

Um informativo de uma prestadora de serviços que circula pela Agência de Inteligência de Defesa diz que firmas externas são usadas para "coleta, análise e utilização de inteligência; e para fornecer estratégia e apoio, atendendo a todas as exigências relativas a operações e missões" da Agência de Inteligência de Defesa e das forças armadas.

A maior parte dos contratos, que têm uma duração de até cinco anos, estipula o pagamento pelo trabalho de análise de dados de inteligência e outros serviços correlatos, tais como tradução, interpretação de fotos e de inteligência eletrônica, afirma Black. Uma pequena fração dos contratos, que Black se recusou a especificar, diz respeito ao pagamento de agentes operacionais, ou espiões, particulares.

O orçamento anual da comunidade de inteligência dos Estados Unidos, composta de 16 agências, é uma informação sigilosa. Em 2005, Mary Margaret Graham, vice-diretora de Inteligência Nacional, mencionou uma cifra de US$ 44 bilhões durante uma palestra no Texas, embora essa quantia não tenha sido confirmada. Em 1998, o então diretor da CIA, George Tenet, disse que o orçamento anual médio da área de inteligência era de US$ 26,7 bilhões.

As firmas particulares contratadas empregam freqüentemente ex-oficiais de inteligência, algumas vezes cedendo-os de volta às agências que originalmente os recrutaram e treinaram. Ao retornarem como profissionais privados, eles ganham um salário mais elevado. Em maio, o general Michael Hayden, diretor da CIA, disse que estava reavaliando essa prática, denominada "green badging" (algo como "colocação de crachás verdes"), em uma alusão aos crachás de identificação usados pelos profissionais externos contratados pela CIA. Em uma mensagem aos funcionários, Hayden disse que o seu objetivo é impedir que a agência se transforme em um "clube de treinamento" para empregados de firmas privadas.

No curto prazo a contratação de empresas particulares pode ser cara. Em junho, o Comitê de Inteligência do Senado divulgou que um funcionário de uma firma contratada que realiza funções "centrais" de inteligência, como, por exemplo, análise de informações, custa cerca de US$ 250 mil anuais em salários e benefícios - o que representa aproximadamente o dobro do que ganha um analista de inteligência que é funcionário público federal.

Neste ano, os líderes das agências de inteligência dos Estados Unidos vêm exercendo pressões pela redução dessa confiança nas firmas privadas contratadas.

Segundo Black, neste ano a Agência de Inteligência de Defesa converteu 200 vagas que eram preenchidas por funcionários das empreiteiras de inteligência em cargos oficiais de tempo integral, e pretende converter mais 350.

Desde junho, a CIA vem exigindo que os ex-oficiais de inteligência aguardem 18 meses antes que possam retornar como funcionários de firmas particulares, a menos que já tenham tempo de serviço para se aposentarem. A agência anunciou planos para a redução do número médio de firmas contratadas em 10% no próximo ano, afirmou Hayden em uma entrevista concedida em maio último ao "USA Today".

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