A história de dois senadores

Chuck Raasch
Em Washington

Enquanto o Senado americano volta ao trabalho, os americanos estão mais revoltados com o Congresso do que a qualquer tempo nos últimos 15 anos. Histórias nesta última semana sobre dois de seus membros oferecem visões diferentes sobre como confrontar a crise.

Tim Johnson, democrata da Dakota do Sul, e Larry Craig, republicano de Idaho, enfrentam desafios que ameaçam suas carreiras no Senado. Somente um parece que poderá estar lá no longo prazo.

Johnson, que estava pior do que se sabia após uma doença traumática em dezembro, nunca pareceu ficar se lamentando e dizendo "por que eu?" e lutou para aprender a andar e falar novamente. Apoiado por uma forte família que não deixou "Washington subir à cabeça", nas palavras de um antigo conhecido de Johnson, o senador parece estar em seu caminho de volta. Ele tem muito para avançar e, inevitavelmente, terá que confrontar os que questionam se pode representar adequadamente seu Estado de baixa população. Mesmo assim, está se voltando para a campanha de reeleição em 2008.

Mannie Garcia/Reuters - 2.mar.2004 
Senador Craig foi preso sob acusação de conduta libertina em um banheiro de aeroporto

Craig foi outra história. Após dizer-se culpado de uma acusação de má conduta em uma investigação secreta sobre conduta libertina em um banheiro de aeroporto em Minneapolis, Craig essencialmente culpou o jornal Idaho Statesman, que vinha fazendo investigações sobre ele, por forçá-lo a assumir a culpa. Enquanto a mulher de Craig ficou ao lado dele, colegas republicanos, ainda atormentados pelo escândalo de Mark Foley em 2006, começaram a pedir sua renúncia.

Dados os escândalos sexuais que afligiram o Partido Republicano no ano passado, o debate dos valores de família nas eleições de 2008 poderá ser muito interessante. Um dos escândalos foi o uso de um serviço de acompanhantes pelo senador David Vitter, de Louisiana.

Seria inteligente por parte dos democratas abandonar qualquer alegria com a implicação de Craig. Quando seu último presidente teve relações extraconjugais com uma jovem estagiária na Casa Branca, os democratas fizeram pouco, dizendo que era "só sexo". Bill Clinton negou furiosamente e deixou que os outros, inclusive sua mulher e atual candidata presidencial Hillary Rodham Clinton, inventassem uma conspiração ideológica em um longo ano de briga. No que concerne a carne, Washington é uma casa de vidro bipartidária.

Foi isso que tornou o argumento de Craig, de que o jornal o forçara, tão danificador. Somente os partidários mais radicais são frios o suficiente para não simpatizar com os erros e dificuldades humanas. Ao culpar os outros, Craig tornou mais fácil até para seus colegas dizerem que deveria sair. Sendo menos do que direto sobre sua prisão, ele esgarçou a confiança depositada nele pelos eleitores de Idaho.

A batalha de Johnson é física em essência, mas emocional e espiritual nas conseqüências.

Ele tinha uma característica anatômica rara no cérebro que provocou uma grande hemorragia e sintomas de derrame. O trauma levou à perda da fala e da mobilidade, dois componentes essenciais para um político. De acordo com um relato de Bob Woodruff, do "Nightline" da ABC, que teve acesso secreto e exclusivo a Johnson em vários pontos de sua reabilitação nos últimos oito meses, Johnson esteve muito mais doente do que se soube nos dias após o evento.

Johnson ainda não fala bem e se move com uma cadeira de rodas ou uma bengala. Woodruff, que também sofreu danos cerebrais ao cobrir a guerra no Iraque, fez um relato sensível da luta do senador, concentrando-se no forte apoio de sua mulher, Barb, e seus três filhos, um dos quais serviu no Iraque e no Afeganistão.

Conheço Johnson há mais de 20 anos e, pelo que se viu na ABC, a essência do homem parece não estar modificada. Seu senso de humor notoriamente seco, que sua equipe atribui jocosamente à sua herança escandinava, parece intacto. "Acho que tenho uma vantagem injusta sobre meus colegas", disse em uma recepção em Sioux Falls, no dia 28 de agosto. "Minha mente trabalha mais rápido do que minha boca".

A verdade é que Johnson, um dos senadores menos egocênctrico, em um ambiente cheio de egos, sempre operou sob um credo: de ouvir primeiro.

A outra coisa que me impressionou: em nenhum momento na reportagem da ABC ou em outras, Johnson parece dizer "Por que eu?". Sua família cercou-o em seu momento de desafio e todo o foco voltou-se para sua recuperação. Sua mulher, que sobreviveu duas vezes ao câncer, foi retratada como uma rocha ao seu lado, cercada de filhos e netos amorosos.

"Ele e sua família são um bom exemplo daqueles que vieram para Washington e não foram modificados por Washington", disse Jim Jordan, alto assessor do candidato presidencial Chris Dodd, que teve seu primeiro trabalho político trabalhando para Johnson quando derrotou o republicano Larry Pressler, em 1996. Jordan acredita que por essa razão Johnson, menos chamativo e menos conhecido que o ex-líder democrata do senado Tom Daschle, foi capaz de derrotar o republicano John Thune em 2002, enquanto Daschle perdeu para Thune dois anos depois.

"Você conhece o povo de Dakota do Sul - tem um medidor forte (para bobagens), e a percepção era que Daschle tinha virado a cabeça em Washington", disse Jordan.

Uma última coisa foi notável sobre a volta de Johnson para casa. O governador republicano Mike Rounds foi claramente apartidário em uma situação cheia de intriga política.

Alguns, incluindo estrategistas do Grande Partido Antigo, queriam ver Rounds desafiar Johnson muito antes da doença. O Senado é controlado pelos democratas por um assento, e uma mudança na tendência republicana em Dakota do Sul seria uma chance enorme de retomar a casa.

Rounds, entretanto, rapidamente afogou qualquer especulação nesse sentido. Ele diz que, depois que Johnson caiu, houve muita intriga, e completa: "Mas não em Dakota do Sul. Você se concentra no que é importante. Conversamos sobre Tim e sua família... e oramos", disse Rounds.

Uma lição para o senador Craig: na crise, não há lugar melhor do que o lar. Deborah Weinberg

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