Fãs da história e caçadores de barganhas correm para a liquidação do Watergate

Bob Dart
Em Washington

O evento poderia ser chamado de "Logo-gate".

Quando o hotel Watergate começou a liquidar, nesta quinta-feira (06/9), o desapontamento espalhou-se entre as centenas de pessoas que vieram caçar uma parte da história política e não encontraram quase nada enfeitado com o nome "Watergate" ou mesmo com a inicial indicadora.

Chip Somodevilla/Getty Images/AFP
Donos do Watergate promovem três dias de liquidação dos pertences do hotel
"Achei que teriam ao menos alguma coisa com um 'W'", lamentou Janna McCargo-Andrews, que estava olhando os talheres do hotel cujo próprio nome tornou-se sinônimo de escândalo político. "Bem, vou comprar alguma coisa e dizer que veio do Watergate. As pessoas simplesmente terão que acreditar em mim".

De fato, quase ninguém estava saindo de mãos vazias. A liquidação "queima total" abriu às 10h da manhã, com um fila de compradores de um quarteirão até a entrada do hotel.

Dave Urso, psicólogo que veio equipado com uma chave-de-fenda, foi o primeiro na porta e conseguiu pegar alguns pedaços de história. Ele tirou as placas que designavam o segundo e o terceiro andar do hotel -por US$ 45 (em torno de R$ 90) cada. Os ladrões do Watergate ficaram nos quartos 214 e 314, mas a invasão da Sede Nacional Democrata de 1972 de fato foi no complexo Watergate de escritórios ao lado.

Os números nas portas já tinham sido removidos, reclamou Urso, que disse que o "significado histórico" da venda o tinha inspirado a fazer fila às 7h da manhã.

O roubo e sua tentativa de acobertamento levaram à renúncia do presidente Richard Nixon, e o termo "Watergate" passou a envolver uma ampla gama de crimes e abusos de campanha cometidos por seu governo. Nas décadas desde então, muitos outros escândalos políticos foram apelidados com o sufixo "gate". "Billy-gate", para o caso dos negócios do irmão do presidente Jimmy Carter e "Trooper-gate" e "Travel-gate" que envolveram o governo Bill Clinton.

Agora, o hotel Watergate está fechando para uma reforma de dois anos e vendendo quase tudo - inclusive as pias de cozinha das suítes e o bar da entrada de granito, que é fixado ao chão. Os cabides dos quartos do hotel estão por US$ 1 (cerca de R$ 2) cada, por exemplo, enquanto o bar pode ser comprado por US$ 6.500 (R$ 13.000), mas o próprio comprador terá que desmontá-lo.

Os itens são vendidos no estado em que estão, explica um cartaz da National Content Liquidators, a firma de Springboro, Ohio, que está conduzindo a venda. A empresa conduziu vendas similares em hotéis que vão do Atlanta Biltmore ao Crown Plaza e Sheridan Bal Harbor, em Palm Beach, até o Plaza em Nova York.

"Tudo tinha logotipo no Plaza", lembra-se Donald Hayes, presidente da firma de liquidação. Cerca de 5.000 pessoas apareceram no primeiro dia e foram necessários 64 dias para vender tudo no hotel histórico de Manhattan, com seus mais de 900 quartos.

A história política do Watergate "faz uma diferença para as pessoas que estão vindo" comprar itens, disse Hayes. "Mas, para mim, é apenas mais uma venda. Elas estão esperando encontrar coisas dos anos 70, e isso simplesmente não vai acontecer".

"Não estamos tentando enganar as pessoas", disse Hayes, que advertiu às pessoas na fila que não havia nada com o nome "Watergate". Ele estima que levará entre 30 a 35 dias para vender tudo do Watergate.

No primeiro dia de vendas, Delores Brown fez suas compras com certa tristeza.

"Trabalhei aqui 36 anos", disse ela, explicando que se aposentou quando o Watergate fechou para reforma. Ela trabalhava como copeira e tinha vindo comprar uma mesa de jantar.

A falta de logotipos evoluiu com os anos, porque os hóspedes levavam para casa qualquer coisa com o nome "Watergate", explicou. "Os hóspedes diziam: 'Não estou roubando, estou levando de lembrança.' Roupões de banho. Pratos. Qualquer coisa que tivesse 'Watergate', eles levavam. Então, agora, nada tem nome".

Com ou sem logotipo, as coisas estavam vendendo bem na quinta-feira.
Rita Flynn, que morava em Jonesboro, Georgia, antes de mudar-se para Owings, Maryland, comprou duas luminárias de vidro.

"Vou colocar uma na entrada e outra na sala de jantar", disse ela. "Gosto delas, mas também quero poder dizer que tenho algo do Watergate".

James Mcglade dava instruções aos trabalhadores que estavam cuidadosamente tirando os murais de óleo sobre tela das paredes do The Crescent Bar, no porão do hotel. Cada um dos três segmentos custa US$ 750 (R$ 1.500), disse McGlade, que planeja usá-los em uma boate que está abrindo na Avenida Connecticut.

Klaus Peters, gerente geral do hotel, disse que as vendas marcam o início de uma espera de dois anos para ele em sua casa em Breaker West, no condado de Palm Beach. "Quando o trator chegar, vou para lá", disse ele.

No novo Watergate, "vamos criar um dos hotéis mais finos do país. Vamos manter uma característica muito washingtoniana, mas será luxuoso, menor, muito pessoal", disse Peters.

"E vai ser muito mais caro", acrescentou, com os quartos entre "US$ 400 a US$ 500" por noite.

Peters foi gerente do Watergate por quatro anos e antes trabalhou no hotel National em Miami Beach e no Cheeca Lodge em Islamorada, na Flórida. "Agora só estou tentando permanecer são", brincou Peters, enquanto os compradores corriam a sua volta.

"Tudo tem o preço escrito", disse Nicole Lewis, porta-voz da firma de liquidação. Saboneteiras estavam a US$ 3 (R$ 6). Privadas, a US$ 35 (R$ 70). Travesseiros de pluma, US$ 10 (R$ 20). O painel de madeira ao lado dos degraus levando ao bar estava sendo vendido por US$ 1.200 (R$ 2.400). Um copo de Martini, US$ 2 (R$ 4); uma bandeja folheada de prata, grande o suficiente para conter um porco, US$ 635 (R$ 1.270). Uma cama da suíte da cobertura, US$ 1.450 (R$ 2.900). A vista da suíte sobre o rio Potomac era impagável, mas as cortinas que a ladeavam estavam por US$ 65 (R$ 130).

"Não posso lhe dizer meu nome", disse uma mulher carregada com jarras de água e cafeteiras de prata. "Meu marido me mataria se soubesse que estou comprando isso tudo. Vou dar de presente de Natal".

"Esse é um bom negócio para um meia-cauda", disse Harriet Walker, tirando uma música no piano de US$ 5.850 (R$ 11.900).

Entretanto, ela se contentou em comprar uma panela de ferro para fazer crepes e algumas travessas de suflê. Ela veio de Laurel, Md., e comprou esses itens de cozinha "pela nostalgia e porque estavam baratos".

"Vim para Washington em 1971 e estava aqui quando aconteceu o Watergate. Aposto que você não se lembra de quem era Frank Wills", disse Allen Nelson, perguntando sobre o guarda de segurança do Complexo Watergate que viu a fita cobrindo as trancas em várias portas e chamou a polícia, que então prendeu os ladrões do Watergate - Frank Sturgis, James McCord, Bernard Barker, Virgilio Gonzalez e Eugenio Martinez. Depois, eles foram associados a um fundo secreto para a campanha de Nixon, Creep, das iniciais em inglês de "Comitê para Reeleger o Presidente".

"Minha mulher está procurando uma penteadeira", explicou Nelson, professor de artes aposentado da Universidade do Distrito de Columbia. "Nunca estive aqui antes".

"Vim aqui pela história", disse Robert Bettman, que comprou quatro xícaras e quatro copos de suco. "Comprei esses porque estão aqui e eu estou aqui". Deborah Weinberg

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