Na próxima eleição para presidente, os Estados Unidos provavelmente elegerão um advogado

Jill Lawrence
Em Washington

O próximo presidente possivelmente será um bacharel em Direito, mas segurem as piadas sobre advogados. Essa possibilidade talvez não seja uma má idéia.

Três dos candidatos favoritos em cada partido têm diplomas em Direito e a maioria deles já exerceu a profissão. Alguns se valem de suas carreiras jurídicas no lançamento das campanhas, entre verbos imperativos e a retórica assertiva sobre como administraram Estados, cidades, negócios e Jogos Olímpicos.

De certa fora, é uma volta às tradições. Advogados dominaram a presidência até o século 20, quando os eleitores passaram a se enamorar com o modelo "executivo" - com aqueles que se baseavam em sua experiência executiva. Isso levou a uma série de governantes (alguns com diplomas de Direito) na Casa Branca, culminando com a gestão em estilo executivo CEO de George W. Bush - um ex-governador e primeiro presidente com um MBA.

Se bem que credenciais administrativas não garantem que haverá um governo bem azeitado. Bush tem sido amplamente criticado pela maneira como lidou com a guerra no Iraque, com o furacão Katrina e pelo seu processo decisório em geral.

CANDIDATOS ADVOGADOS
Hillary Rodham Clinton Yale1973Considerada uma das 100 advogadas mais influentes pelo National Law Journal em 1988 e 1991. Presidente do Conselho da organização, sem fins lucrativos, Legal Services Corporation aos 29 anos.
John Edwards Univer-
sidade da Carolina do Norte em Chapel Hill
1977Recebeu um prêmio do órgão classista American Trial Lawyers Association, por serviços públicos prestados, em 1997. Defendeu pessoas supostamente feridas por negligência de empresas ou por erro médico.
Barack ObamaHarvard1991Primeiro afro-americano a ser editor do boletim Harvard Law Review. Especializado em direito eleitoral e em queixas de discriminação na prática civil. Ensinou direito constitucional na Universidade de Chicago.
Rudy Giuliani New York University1968Considerado um dos 100 advogados mais influentes pelo National Law Journal em 1988. Segundo colocado na eleição do influente boletim NLJ, para Advogado do Ano, em 2001.
Mitt RomneyHarvard1975Recebeu o diploma do MBA de Harvard em 1975, e dá muito valor a isso.
Fred ThompsonVanderbilt1967Defensor dos republicanos na comissão do senado no caso Watergate aos 30 anos, tendo escrito um livro sobre sua experiência. Também foi assistente da promotoria federal bem cedo na carreira.
CandidatoEscola Formado em Façanha jurídica

Agora o país parece condenado a retomar o modelo "presidente-advogado". Seis presidentes advogados lideram as pesquisas: os democratas Hillary Rodham Clinton, Barack Obama e John Edwards, e os republicanos Rudy Giuliani, Fred Thompson e Mitt Romney.

Romney também é um ex-governador, de Massachusetts, com um MBA, e está apostando basicamente em sua reputação enquanto executivo e CEO. A faculdade de Direito foi "há muito, muito tempo atrás", ele disse numa entrevista. Mais relevante, diz o candidato, foram seus 35 anos no mundo dos negócios e em cargos de liderança pública, tais como o de CEO dos Jogos Olímpicos de Inverno de 2002 em Salt Lake City.

Na era contemporânea de rápidos depoimentos à mídia, tais credenciais vendem o candidato mais facilmente do que habilidades jurídicas, tais como a capacidade de analisar assuntos sob diferentes ângulos.

"O eleitorado americano gosta muito de executivos CEO bons de processo decisório", diz James Pfiffner, especialista em história presidencial na George Mason University. "Dizer 'Eu posso enxergar todos os lados das questões' é muito importante, mas não chega a impressionar muito os eleitores".

O mesmo vale para os que querem criar motes fantásticos a partir de frases como "Sou um bom negociador" ou "Eu conheço a constituição".

E isso tudo sem falar do que a sociedade pensa dos advogados. Todas as piadas. Os estereótipos ("perseguidores de ambulâncias"). As camisetas com frases a la Shakespeare ("A primeira coisa a fazer, vamos matar todos os advogados"). A desconfiança.

Apenas 18% dos entrevistados, numa pesquisa do USA TODAY/Gallup realizada no último mês de dezembro, avaliaram os advogados bem ou muito bem em termos de honestidade e padrões éticos. A boa notícia para os advogados é que entre os entrevistados a avaliação para os executivos CEOs foi exatamente a mesma.

Vinte e cinco dos 43 presidentes até hoje tiveram diplomas em Direito, mas segundo a Ordem Americana dos Advogados Bar a proporção caiu de 76% ao longo do século 19 para 39% ao longo do século 20. Alguns dos presidentes mais recentes firmaram a visão negativa a respeito dos advogados: Richard Nixon renunciou durante o escândalo de Watergate e Bill Clinton passou por um julgamento para impeachment.

Mas entre os presidentes advogados também estão Franklin Roosevelt, Abraham Lincoln e Thomas Jefferson. "Num retrospecto sobre os presidentes mais bem sucedidos, observa-se que muitos deles foram advogados", diz Paul Finkelman, historiador e acadêmico da área jurídica na Albany Law School, no Estado de Nova York.

Combatendo o poder nos tribunais
No percurso da campanha, dificilmente daria para notar que Romney é um bacharel de Direito. Em compensação, a carreira jurídica de Edwards aparece com destaque em seu apelo populista.

Edwards, ex-senador pelo Estado da Carolina do Norte e candidato a vice-presidente em 2004, escreveu uma redação aos 11 anos dizendo que queria "proteger pessoas inocentes" do que ele chamava de "justiça cega", numa referência à injustiça. Como advogado em causas de perdas e danos, obteve vitórias históricas para vítimas de erros médicos e de produtos defeituosos, tendo recebido até U$ 25 milhões para uma menina que chegou a perder as entranhas num ralo de piscina.

Em sua segunda tentativa presidencial, Edwards sempre cita sua experiência jurídica como prova de que ele seria o melhor para combater o poder de "grandes seguradoras, grandes indústrias farmacêuticas, grandes petrolíferas".

"Eu venho defendendo essas pessoas a minha vida inteira", disse Edwards no debate promovido pela CNN e pelo YouTube em julho. "Venho enfrentando os grandes a minha vida inteira nos tribunais - e vencendo".

Já entre os republicanos, o mais identificado com o Direito até agora é Fred Thompson, advogado criminalista, ex-procurador federal, ex-advogado nas comissões do Senado no caso Watergate e em assuntos de política externa e inteligência, ex-senador do Tennessee e na ficção, como ator, foi o promotor público de Manhattan Arthur Branch no seriado da rede NBC "Law & Order".

Sedimentando sua entrada formal na corrida presidencial, que ocorre agora, Thompson já apresentou opiniões distintas sobre vários assuntos jurídicos: o efeito dissuasivo da pena de morte, direitos das localidades de aprovar leis contra imigração ilegal, novas regras autorais que ameaçam o "direito de propriedade" americano e leis de porte de arma válidas em Nova York que, segundo ele, infringem a chamada Segunda Emenda.

"Quando era um adolescente idealista, nada para mim era mais inspirador que a noção de defender uma causa justa contra as mais poderosas forças em vigor no país, incluindo o governo", disse Thompson em seu site.

'Melhorando a vida das pessoas'
Após se formar na universidade, Barack Obama passou três anos envolvido na ajuda a comunidade de baixa renda de Chicago, na luta contra o fechamento de fábricas. Optou pela faculdade de Direito porque "queria entender como a lei deve funcionar em apoio aos mais necessitados", declarou em fevereiro. Obama se tornou o primeiro afro-americano presidente da organização Harvard Law Review (que publica um boletim mensal), e depois voltou a Chicago para advogar na área de direitos civis e para ensinar direito constitucional.

Essa opção de vida atualmente é destacada num comercial de TV da campanha de Obama, ressaltando que essa foi sintomática de seu caráter. "Foi muito, absolutamente inspirador ver alguém tão brilhante e bem sucedido como Barack Obama, alguém que tinha sucesso garantido em Wall Street, canalizar todo seu talento e todo seu aprendizado em favor da comunidade e da opção de melhorar a vida das pessoas", diz um de seus professores, Laurence Tribe, no comercial de campanha.

Bill Clinton sempre se refere ao trabalho jurídico de sua esposa em benefício das crianças e dos pobres. Segundo diz o ex-presidente num vídeo, após se formar em Direito "ela recusou todas as propostas de trabalho mais lucrativas para trabalhar no fundo Children's Defense porque queria ajudar as crianças pobres".

Por volta de 1977, Hillary Clinton era advogada corporativa no escritório de advocacia Rose Law Firm na cidade de Little Rock, no Arkansas. Ela passou 25 anos por lá, ganhando o mais alto salário de sua família, enquanto o marido era o governador com um salário de US$ 35.000. O órgão de classe National Law Journal a colocou duas vezes na lista dos 100 mais influentes advogados do país, ressaltando seus maiores clientes - como as empresas Maybelline e Tysons Foods - além do seu trabalho para o Children's Defense Fund e as funções jurídicas na organização Legal Services Corporation.

O escritório The Rose foi uma fonte de temor e de polêmicas para o governo Clinton. Um dos sócios do escritório, Vince Foster, vice-chefe do conselho da Casa Branca, cometeu suicídio. Um outro sócio, procurador geral assistente Webb Hubbell, foi preso por fraude postal e evasão fiscal num processo de fraude envolvendo o escritório Rose e seus clientes.

Hillary Clinton enfrentou um tribunal em 1996, depois que apareceram em seu escritório na Casa Branca os registros contábeis que os promotores procuraram durante dois anos.

Não surpreende que este longo capítulo da vida de Hillary Clinton esteja ausente da narrativa de campanha dela. "Não há nada no escritório Rose que a beneficie. Nada nem ninguém", diz Susan Estrich, uma estrategista democrata e professora de Direito na Universidade Souththern California.

Advogados CEOs
Giuliani foi procurador geral assistente dos Estados Unidos e promotor federal em Nova York antes de se tornar prefeito de Nova York em 1993. Como promotor ele enfrentou o crime organizado, as drogas e os crimes do colarinho branco.

A carreira dele pré-prefeitura combina com a imagem de inimigo durão do crime e do terrorismo. Como o advogado e blogueiro liberal Glenn Greenwald escreveu, Giuliani tem um "talento para expressar uma fúria íntegra contra as 'pessoas más', à moda dos promotores".

Giuliani se decidiu pela escola de Direito no último ano preparatório do Manhattan College. No começo, a idéia de se tornar um promotor parecia "cruel", ele contou à organização educacional Academy of Achievement em 2003, mas com o tempo encarou a profissão como uma forma de proteger as pessoas, deter o crime e "criar mais respeito pela lei".

A condição de promotor público serve sob medida para um candidato republicano porque indica uma posição firme contra o crime, diz Michael Dorf, autor de "No Litmus Test" (algo como "Sem Teste de Litmus"), livro sobre direito e política. Melhor ainda, segundo Dorf, é não ser advogado, porque muitos republicanos acham que o trabalho de um advogado é "obstruir negócios".

"Se você é republicano e advogado, você quer ser Romney", diz Dorf, professor de direito constitucional na escola de Direito da Columbia University.

Essa também é a opinião de Romney. Ele diz que existe uma percepção de que alguns advogados "enriqueceram processando pessoas, processando médicos. Isso não é verdade para muitos, nem combina comigo". Ele nunca planejou ter uma carreira de advogado; diz que foi o pai dele quem o convenceu que ter um diploma de Direito ajudaria na carreira de negócios.

Já Mitt Romney martela suas credenciais executivas na campanha: foi CEO de uma corretora de investimentos, governador de Massachusetts e - propala num dos comerciais de sua campanha - o "salvador" dos Jogos Olímpicos de Inverno de 2002, que estavam assolados por escândalos e falta de verbas.

Mas a experiência jurídica de Romney acaba emergindo quando ele discorre sobre como tomaria as decisões na Casa Branca.

Na faculdade de Direito, disse Romney numa entrevista, aprende-se a analisar visões opostas. "Eu gosto desse tipo de processo decisório. É onde você procura pessoas que discordam de você. A melhor maneira de se chegar ao âmago de uma questão é ter gente capaz...de reunir os melhores argumentos de cada lado e aí partir para o confronto".

Você não pode tomar decisões, ele acrescenta, "ouvindo apenas ... os seus amigos ou a sua intuição. Muitas vezes sua intuição está errada".

Isso parece ecoar críticas ao governo Bush. Então será que Romney acha que Bush azedou o gosto dos eleitores quanto à idéia de um presidente com MBA? O candidato prefere não comentar.

Como as habilidades de advogado podem ajudar
Críticas sobre o governo Bush têm focado em incompetência administrativa e nas falhas na elaboração de políticas, ressaltando a falta de abertura em relação a visões diferentes. Advogados afirmam que certo treinamento jurídico poderia ter ajudado Bush.

Estudantes de direito aprendem a "fragmentar um problema, destrinchando até chegar a seus elementos componentes" e a "evitar falácias que ofendam a argumentação lógica", diz Dorf. Eles também aprendem a observar todos os lados de uma questão. Em julgamentos acadêmicos simulados, por exemplo, eles devem ser capazes de argumentar a favor de ambos os lados.

"Os advogados são bem qualificados para analisar os prós e contras da maioria das posições políticas", diz Sandy D'Alemberte, ex-reitor da Florida State University e ex-diretor de sua faculdade de Direito.

Os advogados dizem também que a prática jurídica cotidiana tem aspectos úteis para os futuros presidentes. Eles listam como exemplo as capacidades de negociação e comunicação, de trabalhar em equipe, a familiaridade com a constituição e o governo, o respeito pelas instituições, o gerenciamento de crises e até mesmo algo parecido com a aura executiva de CEO, que muitos advogados consideram tão enganadora.

"Você precisa ter o ego de um cirurgião", diz William Neukom, presidente da American Bar Association, equivalente a uma Ordem dos Advogados, e ex-membro do conselho geral da Microsoft. "É como administrar um negócio familiar. É preciso saber - qual é o seu plano estratégico? Quem você chama como testemunha? Você precisa ter boa autoconfiança para seguir adiante".

Mas a prática civil pode criar problemas políticos porque nem sempre os advogados escolhem seus clientes. "Um conceito central na idéia de ser um advogado é que todo mundo precisa de um deles", diz a estrategista democrata Suzan Estrich. "Não julgamos um advogado o acusando por ele ter clientes maus. Já na política, um fator essencial é a culpa pela associação e pelas más companhias".

O assunto acabou surgindo na primeira campanha ao senado de Fred Thompson, segundo o próprio candidato, quando um adversário argumentou que ele "já havia defendido criminosos".

O historiador James Pfiffner afirma que a animosidade entre advogados é real, mas freqüentemente fugaz: "Todos odeiam advogados, até precisarem de um".

Precisando ou não, eles chegaram e estão na área. Marcelo Godoy

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