Oportunidades reluzentes nos dias esfumaçados da China

David J. Lynch

O ar notoriamente imundo da China não é apenas um potencial destruidor de espetáculo para os Jogos Olímpicos de Pequim do próximo verão. Junto com a água poluída do país e o uso de energia perdulário, o ar da China, que dá até para sentir o sabor, representa uma oportunidade brilhante para empresas americanas venderem aparelhos ambientais.
"Vimos um crescimento bastante extraordinário, e de fato não há fim à vista", diz Bill Taylor, presidente da ITT China.

Durante décadas, após a Revolução Comunista de 1949, os líderes da China adotaram a estratégia do homem contra a natureza que ameaçou o ambiente como um esgoto. Hoje, estão dedicando intensa atenção à poluição e à eficiência energética, em grande parte por causa dos holofotes das Olimpíadas que se aproximam. As autoridades chinesas querem evitar que os Jogos sejam estragados pelas imagens de atletas com máscaras ou espirrando.

Frederic J. Brown/AFP - 10.ago.2007 
Hora do rush em Pequim, cidade que é considerada uma das mais poluídas do mundo

Empresas especializadas em produtos "verdes" -desde turbinas eólicas gigantescas até sistemas de tratamento de água- já estão lucrando com o reconhecimento tardio pela China do custo ambiental que está pagando por sua economia acelerada. Uma indicação: no ano passado, empresas americanas exportaram para a China mais de US$ 2,3 bilhões (aproximadamente R$ 4,6 bilhões) em produtos ambientais, mais do que três vezes a quantia de 2002. Esse aumento beneficiou desde a gigante General Electric até a iniciante Transition Energy e superou o ganho geral em exportações americanas para a China de 149% no mesmo período.

As esperanças das empresas americanas de bons ventos no setor ambiental, entretanto, são ameaçadas por intensa competição de rivais européias e japonesas, que contam com forte patrocínio de seus governos, e também pelas políticas chinesas para promover os fornecedores internos. As fabricantes de aparelhagem ambiental também enfrentam as dores de cabeça costumeiras em fazer negócios com a China, inclusive temores que os parceiros chineses vão roubar seus segredos industriais e copiar seus produtos.

Não há como negar a escala do problema. Uma geração de avanços econômicos desenfreados deixou como herança o cenário de abuso ambiental da China hoje. Das 20 cidades com o ar mais poluído do mundo, 12 estão na China, de acordo com o Banco Mundial. (Nenhuma está nos EUA). As fábricas freqüentemente jogam os rejeitos industriais diretamente nos rios, significando que a água limpa está em falta crônica. O carvão é a principal fonte de combustível para a vasta maioria de fornecedoras de energia; o filme marrom que está em toda parte, que cobre as janelas, carros e pessoas, é uma prova visível.

Firmas americanas enfrentam obstáculos
Para as empresas americanas que atacam todos os aspectos dos males ambientais amplos da China, o financiamento dos projetos muitas vezes é um obstáculo. A Transition Energy, de Annapolis, Maryland, pretende construir com sua parceira chinesa 25 plantas de energia inovadoras, que usarão o calor desperdiçado das fábricas de cimento para gerar eletricidade. Até agora, duas plantas na província costeira de Zhejiang, sementeira de empresas, estão em operação e gerando lucros sólidos, com margens em torno de 25%, diz William Chandler, presidente da empresa.

Entretanto, o financiamento tem sido uma luta constante. Para conter uma economia que está correndo o risco de hiper-aquecimento, o governo chinês está desestimulando seus bancos estatais a concederem novos empréstimos para indústrias que já tiveram grande expansão -como a de cimento.

"Tem sido de muito aprendizado. Apesar de eu trabalhar na China há duas décadas, as limitações são consideravelmente mais duras que eu imaginava", diz Chandler.

Empresas européias e japonesas concorrem com as americanas por contratos ambientais e se beneficiam de extensos programas de governo que freqüentemente associam a ajuda para o desenvolvimento ao uso de seus produtos, de acordo com um estudo de 2002, do Woodrow Wilson Center. "Apesar de as firmas americanas às vezes terem tecnologia superior", freqüentemente não têm o apoio do governo que suas rivais estrangeiras têm, disse o estudo.

A co-autora Jennifer Turner, diretora do Fórum Ambiental da China do centro, tem a impressão que a conclusão continua válida.

O apoio de instituições financeiras multilaterais às vezes preenche o vão. A International Finance Corp., braço do setor privado do Banco Mundial, no mês passado concedeu um investimento de US$ 15 milhões (aproximadamente R$ 30 milhões) para a Far East Energy, empresa de exploração, e para a Houston, que está desenvolvendo projetos de carvão limpo na China.

Nas províncias de Shanxi e Yunnan, a Far East Energy está explorando reservatórios de gás metano presos nos amplos campos de carvão subterrâneos da China. A idéia é aproveitar o gás como fonte de energia mais limpa que o carvão marrom, que gera 70% da energia da China. Em minas de carvão convencionais, o gás escapa para a atmosfera e contribui para a mudança do clima.

Até hoje, a Far East Energy -após avaliar uma área maior que Delaware- identificou pontos que parecem promissores, do ponto de vista geológico. Agora, o desafio está em desenvolvê-las como fontes de energia comercialmente viáveis.

O potencial do metano de ajudar a China a continuar crescendo rapidamente sem estragar mais o ambiente é enorme. A China alega ter reservas de metano enterradas de 1.300 TCF. Para se ter uma perspectiva, os EUA usam um total de 22 TCF por ano.

"Eles têm um problema e tanto. Não podem colocar freios em uma economia que está diminuindo o índice de pobreza tão rapidamente e levando tantas pessoas para a classe média. Não podem frear rápido demais para satisfazer os imperativos ambientais", diz Michael McElwrath, diretor da Far East Energy.

Foco no desenvolvimento
Enquanto o governo central em Pequim está comprometido em limpar a bagunça ambiental da China, autoridades dos outros escalões, em geral, estão mais concentradas no desenvolvimento econômico. Freqüentemente, não conseguem implementar as diretrizes enviadas de Pequim. Cerca de metade dos 700 milhões de yuans alocados para proteção ambiental no último plano de cinco anos, por exemplo, acabou vazando para muitos projetos não relacionados, diz Elizabeth Economy, especialista em ambiente da China no Conselho de Relações Exteriores.

O governo americano tentou dar um empurrão nas firmas ambientais americanas. Os resultados, porém, demoraram para se materializar. O Departamento de Comércio levou 17 empresas para a China em uma missão de comércio, em abril. No início do mês, em um encontro como o presidente chinês, Hu Jintao, em uma reunião de cúpula com líderes asiáticos na Austrália, o presidente Bush reiterou os pedidos americanos para que a China elimine todas as tarifas sobre importações de produtos ambientais.

A China tem uma tarifa média de 8,5% sobre 160 produtos ambientais, como painéis solares, bombas de água, conversores catalíticos para automóveis e turbinas gigantes para fazendas de energia eólica. Essa média é mais alta que a americana de 1,5%. Entretanto, as taxas são permitidas sob as regras da Organização Mundial de Comércio e trazem ao governo chinês uma renda estimada em US$ 2 bilhões (em torno de R$ 4 bilhões), de acordo com Jennifer Prescott, assistente do representante comercial americano.

"Estamos tentando levar essas tarifas para zero", diz ela.

Até agora, os negociadores não tiveram muita sorte. De fato, a China recentemente informou a um fabricante americano de turbinas para usinas de energia solar que planejava aumentar as tarifas sobre essas importações de 2,5% para 10%, acrescentou.

A China usou essas tarifas para estimular fabricantes estrangeiras a apoiar a produção local, seja investindo em suas próprias fábricas ou unindo-se a fornecedores chineses. A energia eólica, um mercado no qual fabricantes estrangeiras como a GE e a Suzlon Energy da Índia lutam contra a Goldwind da China, é um bom exemplo: turbinas importadas têm tarifa de 8%, mas a China requer que 70% dos componentes usados nesses projetos sejam feitos internamente.

Em uma fábrica em Shenyang, inaugurada no ano passado, a GE espera produzir 150 de suas turbinas de 1,5 megawatts neste ano e talvez mais de 300 no ano que vem, diz Vic Abate, vice-presidente de renováveis. A empresa -que diz ter 20% do mercado de turbinas de vento no mundo- tem apenas 13% na China, diz Abate. Ou seja, a China está conseguindo promover as firmas domésticas.

A política energética de Pequim é menos eficaz em outras áreas. A insistência do governo em manter a tarifa de energia baixa, por exemplo, traduz-se em retornos menores sobre o investimento para empresas como a GE. Com a demanda para energia eólica forte em outras regiões, como nos EUA e na Europa, onde os preços (e os retornos financeiros) são maiores, a China termina com menos turbinas que precisa. "Posso fazer mais dinheiro em outros lugares", diz Abate.

A melhor oportunidade
Quaisquer que sejam as ambições de longo prazo da China de desenvolver sua indústria ambiental, as firmas estrangeiras ainda podem esperar uma demanda significativa. "No curto prazo, está claro que a pressão será grande o suficiente para obrigá-los a comprar produtos importados", diz Daniel Esty, de Yale, autor de "Green to Gold".

As políticas domésticas americanas talvez sejam ainda mais importantes. Exigências ambientais mais rígidas na Europa e no Japão promoveram o desenvolvimento de novas tecnologias e melhoraram a competitividade de suas fabricantes produtos ambientais, diz o consultor Trevor Houser da Consultoria Estratégica da China em Nova York.

Isso poderia mudar, se a preocupação pública com a mudança climática levasse a um novo ativismo ambiental nos EUA, diz Houser. "Ter incentivos aqui é necessário para as empresas americanas terem sucesso no exterior", diz Houser.

Um dos mercados em que empresas americanas prosperaram na China é o de tratamento de água. A ITT China, por exemplo, teve crescimento anual de 35% desde 1995, em seu setor de transporte e tratamento de água.

Em fábricas em Nanjing, Xangai e Shenyang, a empresa produz bombas e sistemas de tratamento para movimentar e purificar água. A ITT não revela seus resultados financeiros específicos na área, mas diz que a renda anual é de US$ 100 milhões a US$ 250 milhões (entre R$ 200 milhões e R$ 500 milhões).

Esse número pode crescer, se a ITT for escolhida para fornecer as instalações de tratamento de água para um projeto controverso, de US$ 62 bilhões (cerca de R$ 124 bilhões), para desviar água do Sul da China, que tende a ter mais enchentes, para suas cidades secas do Norte. O enorme empreendimento é somente um dos projetos de uma longa lista de "coisas a fazer".

"É a melhor oportunidade futura", diz Taylor da ITT. "Os mercados de hoje continuam na América do Norte e na Europa Ocidental. E os mercados de amanhã? A China está em primeiro". Deborah Weinberg

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