Empresas iniciantes na Internet voltam a surgir

Michelle Kessler
Em Palo Alto, Califórnia

Você precisa de provas que outra expansão das ponto.com está acontecendo? Considere Jangle, Jaxtr e Jajah. Não são erros em um jogo de formar palavras, são nomes de empresas iniciantes de tecnologia do Vale do Silício. E não apenas soam parecido, mas oferecem um produto similar -uma espécie de serviço telefônico pela Internet- e têm cerca de um ano e meio.

Seria difícil se sobressair mesmo que não existissem uma dúzia de outras empresas no mesmo mercado. Ainda assim, Jangl, Jaxtr e Jajah coletivamente levantaram quase US$ 50 milhões (cerca de R$ 100 milhões) em capital de risco.

Isso não é tão incomum. A indústria de tecnologia -especialmente no Vale do Silício- está tentando fazer negócios como em 1999.

O investimento de capital de risco nos primeiros seis meses do ano pulou 9% em relação ao ano anterior, diz um estudo da VentureOne e Ernst & Young. A maior parte foi para a área de San Francisco, onde mais de 400 empresas fecharam acordos de em média US$ 10 milhões (aproximadamente R$ 20 milhões), diz o estudo.

Isso ajudou a tornar os empregos abundantes, as festas luxuosas e empreendedores novamente em alta. E o Norte da Califórnia parece um ponto zero, com capitalistas, advogados e veteranos das ponto.com.

"Não há ninguém que não tenha um projeto de empresa saindo do bolso. O Vale do Silício voltou a ser o que era", diz Matt Marshall, editor do blog VentureBeat.

Minando o ambiente otimista, porém, está uma enorme questão: quanto tempo pode durar?

A competição em alguns mercados de Internet -freqüentemente referido como empresas da Web 2.0 -é intensa. Marshall conta uma lista de 34 novas firmas que querem atender um pequeno nicho: permitir que empresas e outros grupos construam seus próprios sites de relacionamento.

Até mesmo os empreendedores dizem que essa bolha pode estourar. Eles esperam estar entre os sobreviventes, ou ganhar dinheiro antes do próximo estouro.

"Até o nosso agente imobiliário -que encontrou esse escritório para nós- está montando uma empresa", diz o diretor da Jangl, Michael Cerda. "As coisas precisam ser freadas."

O atual frenesi da Internet ainda não se compara com os picos que atingiu em 2000. Nos primeiros seis meses daquele ano, as empresas levantaram US$ 52,2 bilhões (em torno de R$ 104,4 bilhões) em capital de risco, comparados com US$ 14,5 bilhões (R$ 29 bilhões) nos primeiros seis meses de 2007, diz o estudo da VentureOne.

Relativamente poucas dessas firmas iniciantes foram vendidas em ofertas públicas iniciais (IPOs) desta vez. Apenas 152 empresas fizeram IPOs neste ano, comparadas com 406 em 2000, diz a IPOhome.com.

Isso, entretanto, pode mudar em breve, diz Jim Chapman, sócio da firma de advocacia do Vale do Silício Nixon Peabody. O interesse em IPOs de tecnologia começou a crescer há cerca de um ano, e muitos acordos estão a caminho, diz ele. Entre os recentemente anunciados: CreditCards.com; Classmates Media, que criou o site de reunião de pais Classmates.com; e o site de imóveis Iggys House.

O mercado de fusões e aquisições também está forte. Por exemplo, a Microsoft fez uma aquisição de US$ 6 bilhões da firma de propaganda aQuantive, em agosto. No último mês, só a Yahoo gastou US$ 350 milhões (em torno de R$ 700 milhões) no site de mensagens eletrônicas Zimbra e US$ 300 milhões (R$ 600 milhões) na firma de propaganda BlueLithium. A Intel gastou cerca de US$ 110 milhões (R$ 220 milhões) na compra da Havok, firma de programas de jogos.

Para começar
Grandes IPOs e aquisições fizeram de muitos empresários milionários no primeiro boom das ponto.com, e foi aí que muitas iniciantes de hoje começaram.

Cerda, da Jangl, por exemplo, trabalhou para várias jovens redes de relacionamento no final dos anos 90 e início de 2000. Depois da queda do mercado, Cerda administrou um estúdio de ioga. No entanto, a atração das ponto.com era grande demais. Ele voltou a mergulhar nesse mundo de empresas iniciantes, ajudando a fundar a Ooma, firma de telefone por Internet. Depois de discordar sobre a estratégia da empresa, ele deixou a Ooma e fundou a Jangl em 2005.

A Jangl é uma de muitas empresas que fornece serviços telefônicos que viajam pela Internet em vez das linhas tradicionais. Há várias formas de fazer isso. Empresas como a Skype permitem que as pessoas façam ligações pelo computador, usando fones de ouvido. Outras, como a Vonage, usam adaptadores de telefone que se conectam à Internet para completar a chamada.

A Jangl tem como alvo um nicho desse mercado e oferece serviços de chamada especiais que usam a tecnologia da Internet para unir telefones tradicionais. Um desses serviços dá aos clientes números de telefone temporários, para divulgarem a potenciais namoradas e outros estranhos. As chamadas são transferidas para o número verdadeiro do cliente por meio de tecnologia de chamada via Internet.

Cerda inicialmente levantou com dificuldade US$ 2 milhões para fundar a Jangl. Com o crescimento rápido do entusiasmo por novas empresas, ele conseguiu levantar outros US$ 7 milhões com relativa facilidade. A Jangl agora tem parcerias com os sites de namoro True e Match.com, 20 funcionários e uma sede em Pleasanton, Califórnia, com iluminação de ambiente especial e paredes laranjas vivas.

Ao mesmo tempo, enfrenta mais competição, pois um número crescente de empresas está surgindo. A Jajah, localizada a cerca de 50km, também oferece chamadas telefônicas anônimas e tem uma parceria com o site de namoro eHarmony. Ela vende serviços de telefone por Internet a empresas e também oferece outros serviços.

Em um prédio de escritórios de Palo Alto, a antiga firma de Cerda, Ooma, está produzindo um sistema de telefone via Internet que pode fazer chamadas de longa distância por US$ 399 (cerca de R$ 800). O diretor Andrew Frame, 27, levantou US$ 27 milhões (aproximadamente R$ 54 milhões) em fundos de capital de risco.

A Jaxtr, outra empresa no bairro, oferece chamadas de longa distância e um número falso que encaminha as chamadas a um telefone celular. A GrandCentral, uma empresa que deixa as pessoas administrarem vários telefones e caixas de correio de voz por meio de uma página da Web, foi adquirida pela Google em julho.

"Cerca de metade das idéias que tivemos (quando fundamos a Jangl) se tornaram empresas", diz Cerda.

Elas não só competem entre si. Todas têm que enfrentar, ao menos perifericamente, as grandes da telefonia via Internet como Skype (da eBay), Vonage, AT&T e Verizon. Apesar de o mercado ser potencialmente enorme, provavelmente não é grande o suficiente para sustentar muitas empresas, diz o analista de tecnologia Elroy Jopling, da firma de pesquisa Gartner. "Há (jogadores) demais", diz ele.

Já há alguns sinais de uma possível chacoalhada. A SunRocket, empresa que provê chamadas telefônicas baratas via computador, foi à falência em agosto, após três anos no ramo. As ações da Vonage, que está deficitária, caíram cerca de 95% desde seu IPO em 2006.

"Você verá 80% (das empresas de telefone via Internet) serem levadas", diz Frame, da Ooma.

Mercados cheios
A telefonia de Internet não é o único mercado competitivo da Web 2.0. Dezenas de empresas estão lutando para serem a próxima MySpace. Algumas são abertas a todos, como os sites Passado e o MyYearbook. Outras são para grupos específicos, incluindo a Sermo (médicos), a Infield Parking (fãs de Nascar) e MiGente.com (latinos).

O espaço do vídeo on-line também está lotado, com sites como Revver, Veoh, Dabble, Buzznet e Jumpcut, da Yahoo. Quer música on-line? tente Pandora, Last.fm, Odeo, Jamendo ou um de muitos outros sites.

Esses são apenas mercados para o consumidor. Foldera, TracBac e iFolder estão entre as firmas que oferecem compartilhamento de documentos e ferramentas de produtividade para indivíduos e empresas. Basecamp, Central Desktop e Invetion DB estão entre as que oferecem instrumentos para administração de projetos.

As listas são enormes -e devem ficar ainda mais longas. Jeff Clavier, investidor da SoftTech VC, diz que foi bombardeado com propostas. Empreendedores animados pressionaram-no na mercearia e na delicatessen local, diz ele.

Até as reuniões no escritório às vezes são intensas. Um empresário ficou tão irritado quando Clavier recusou-se a investir em sua companhia que parecia prestes a agredi-lo.

O frenesi ficou claro no início deste mês, na TechCrunch 40, uma nova conferência promovida para conectar empresas iniciantes com potenciais investidores e outros parceiros. Em um salão de hotel lotado em San Francisco, as multidões de futuros milionários das ponto.com voaram em torno de Clavier e de outros investidores, com seus cartões de visita.

O salão tinha paredes douradas e enormes candelabros, mas o traje era puro ponto.com: camisa pólo com o logotipo da empresa, calça cáqui ou jeans desbotado e muito cabelo em pé ou óculos de armação preta. Como aconteceu na grande expansão das ponto.com anterior, a grande maioria dos participantes era de jovens rapazes.

Hank Barry, advogado de uma firma de advocacia Howard Rice, era um dos investidores de risco que lutavam para passar pelas multidões entusiasmadas. "Você não viu os excessos que vimos (na primeira bolha)". A maior parte das iniciantes têm idéias sólidas e produtos de verdade, diz ele. (Barry deve saber: ele é famoso por ser o ex-diretor do site de download de música Napster.)

Empresas da Web 2.0 também estão sendo mais cuidadosas com seu dinheiro, diz Roelof Botha, sócio da Sequoia Capital. A Jaxtr, por exemplo, contém seus gastos com desenvolvimento e quase não tem orçamento para marketing, apesar de ter levantado US$ 10 milhões. "É a disciplina da iniciante", diz o diretor Konstantin Guericke.

Muitas boas idéias ainda serão descobertas, diz Sumant Mandal, diretor da Clearstone Venture Partners. Mas as ruins estão crescendo com a nova decolagem das ponto.com, diz ele. Isso talvez seja inevitável, dado o grande número de novas empresas. O índice de escritórios vazios no Vale do Silício foi de 8,6% no terceiro trimestre -o mais baixo em seis anos, diz a imobiliária CB Richard Ellis.

O capital de risco, em geral, assume que ao menos metade de seus investimentos fracassará, diz Clavier. Em menos de dois anos, porém, a Soft Tech VC vendeu cinco empresas nas quais investiu -Truveo, Userplane, MyBlogLog, Kaboodle e Maya's Mom- com lucros substanciais, diz ele.

Esse é um sinal que há grandes idéias tornando-se empresas sólidas, diz ele. Ao mesmo tempo, "não vai durar", diz.

Marshal, da VentureBeat, acredita que não haverá um único e grande colapso, porque as empresas e os investidores aprenderam com seus erros durante a explosão de 2000. No entanto, ele estima que as empresas serão levadas gradualmente, enquanto os mercados se saturam.

"Haverá muitos chuveiros gelados", diz ele. Deborah Weinberg

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