Colômbia trabalha para escapar de seu passado

David J. Lynch
Em Medellín, Colômbia

Em uma cidade que, por muito tempo, foi sinônimo de homicídio e caos, o bairro de Santo Domingo Savio era um dos mais perigosos. Paramilitares fortemente armados e chefões do tráfico, inclusive o famoso Pablo Escobar, lutaram aqui com armas automáticas e explosões, em meio a casas de barro, habitadas por alguns dos mais pobres colombianos.

"Eles mataram meu filho, dois sobrinhos e um cunhado", diz a moradora Beatrice Bernal. "Era horrível, horrível. Você tinha que correr, por causa dos tiroteios".

Mas hoje, Escobar está mofando em seu túmulo há quase 14 anos, e seu bairro na colina não mais simboliza uma terra sem lei. Uma reviravolta impressionante, de fato, cortou o índice de homicídios de Medellín para menos de um décimo de 1991 e plantou esperanças onde o desespero medrava.

Fernando Vergara/AFP - 16.mai.2002 
Polícia faz patrulha em Medellín, Colômbia

Uma biblioteca pública modernista, que no início do ano recebeu a realeza espanhola, compartilha elogios com uma linha de bonde novinha, ligando a população pobre aos empregos na cidade. Pequenos cafés com mesas de madeira abrem-se para as calçadas, cheios de crianças uniformizadas rindo. "É maravilhoso!" entusiasma-se Bernal, 46, funcionária do sistema de transportes. "Mais do que tudo, porque parou aquela violência terrível."

O presidente colombiano Álvaro Uribe usa a redução da violência para tentar superar as dúvidas no Congresso americano sobre um acordo pendente entre os dois países. Apesar do comércio entre os EUA e a Colômbia ser relativamente modesto, com US$ 16 bilhões (em torno de R$ 32 bilhões) -cerca de um terço do volume com o Brasil-, multinacionais como Caterpillar, Procter & Gamble e UPS vêem o mercado como potencialmente lucrativo. O governo Bush também argumenta que o acordo beneficiaria os EUA, cimentando a estabilidade na Colômbia, uma aliada americana vizinha do presidente anti-americano Hugo Chávez, na Venezuela, e promovendo o comércio legítimo onde drogas ilícitas continuam sendo uma indústria importante.

Os democratas, porém, inclusive a presidente da Câmara, Nancy Pelosi, dizem que o pacto comercial não progredirá até que a Colômbia acabe com um tipo de crime que quase sempre permanece impune: o assassinato de sindicalistas. Desde 1986, 2.539 sindicalistas foram mortos no que as uniões da Colômbia descrevem como campanha sistemática antitrabalhistas por paramilitares alinhados com o governo. Uribe insiste que seu governo já reduziu o número anual de assassinatos de sindicalistas de 197, em 2001, para 23 até agora neste ano. Depois de anos de inação, o governo também está fornecendo a mais de 1.200 sindicalistas segurança e veículos blindados e formou uma unidade especial para investigar esses homicídios.

O governo Bush quer pressionar o Congresso a votar o assunto neste outono, depois deste fechar um acordo separado e menos controverso com o Peru. No entanto, pode demorar até 2008 ou até 2009 antes da Colômbia ter sua chance. Junto com preocupações sobre condições de trabalho na Colômbia, o acordo é prejudicado pelo amplo descontentamento americano com a globalização, assim como um acerto de pontos entre democratas que controlam o Congresso e o governo republicano que deu pouca atenção a eles durante as batalhas comerciais anteriores.

"No longo prazo, o debate sobre o acordo de comércio livre colombiano não é realmente sobre a Colômbia", diz Daniel Restrepo, diretor do projeto Américas no Centro para o Progresso Americano em Washington.

Violência contra sindicatos
O preço em vidas da violência contra os sindicatos pode ser sentido em uma pequena casa, no fim de uma rua estreita, a alguns quilômetros da transformação urbana tão falada de Santo Domingo. Dentro dela, a viúva de um sindicalista conhecido por seu senso de humor, lembra-se do assassinato na porta de sua casa.

"Ouvi dois barulhos, como quando você tira a rolha de uma garrafa de vinho. Aí, ouvi alguma coisa cair", disse Maria Durango, 64, chorando. "Ele não gritou. Fui até a porta, olhei para baixo e o vi caído. Quando (nossa filha) aproximou-se dele, uma corrente de sangue saia de sua cabeça."

A vítima, Factor Antonio Durango, 54, mudara-se para a cidade em 1996, depois de receber ameaças de morte por paramilitares em Uraba, no campo, por tentar organizar os trabalhadores de um plantação de bananas. Ele conseguiu emprego vendendo bilhetes de loteria em uma esquina, parte de um negócio crescente em Medellín, mas controlado por paramilitares. Em 2000, ele organizou um sindicato de vendedores de bilhetes de loteria. Logo, estava sendo seguido e recebendo telefonemas ameaçadores que, segundo disse para sua mulher, vinham dos paramilitares. Esses bandos armados emergiram nos anos 90 para lutar contra guerrilheiros de esquerda em nome dos poderosos proprietários de terra, empresas e barões de drogas.

O governo forneceu guarda-costas para Durango em 2003, mas retirou-os no ano seguinte, apesar de um atirador tê-lo acertado na mão nesse ínterim. Então, em agosto de 2005, enquanto se aproximava da porta da frente, ele foi baleado na cabeça e nas costas.

Sua família enrolou-o, colocou-o em um táxi e levou-o para uma clínica. "Ele disse: 'Minha cabeça dói muito; não me deixem morrer'", lembra-se a filha Patrícia, 26, assistente de enfermagem. Durango morreu dois dias depois, deixando três filhos e uma viúva, que sobrevive com pagamentos mensais do sindicato de US$ 75 (em torno de R$ 150).

A família diz que as autoridades rapidamente fecharam a investigação de sua morte sem acusar ninguém. No entanto, três meses atrás, com a Colômbia sob fogo por não prender mais assassinos de sindicalistas, o governo reabriu o caso.

Investigação de casos não resolvidos
Apesar de outras autoridades terem sugerido que muitos dos ativistas foram mortos por razões não relacionadas com o trabalho organizado, o promotor general Mario Iguaran -que dedicou 13 advogados e 77 investigadores para investigarem cerca de 200 homicídios de sindicalistas não resolvidos- diz: "Na maior parte dos casos, o homicídio ocorreu por causa das atividades no sindicato."

Até hoje, dos 2.539 casos, somente 80 foram resolvidos, de acordo com Jose Sanin, diretor geral da Escola Nacional Sindical. "Mais de 2.000 nem foram investigados".

Alguns líderes sindicais dizem que o fim da violência e das ameaças não faria nada para mudar sua forma de encarar o acordo comercial. Eles associam o clima de hostilidade ao trabalho organizado à fórmula econômica de mercado livre que Washington promoveu na América Latina por quase duas décadas. A partir do início dos anos 90, uma onda de privatizações varreu várias indústrias, gerando cortes de empregos, reduzindo benefícios e deixando os sindicatos com 4,8% da força de trabalho, contra 14% há duas décadas.

"O comércio livre está nos matando tanto quanto os tiros", disse Gustavo Triana, membro da maior federação trabalhista do país, a Central Única de Trabalhadores da Colômbia.

Por mais de quatro décadas, a Colômbia ficou presa a um conflito armado entre guerrilheiros de esquerda, paramilitares de direita e traficantes. A guerra teve um enorme preço humano e financeiro. De acordo com o Banco Mundial, se o país tivesse alcançado a paz há 20 anos, a renda do colombiano médio seria 50% mais alta do que os US$ 3.000 (em torno de R$ 6.000) de hoje.

Recuperação com Uribe
Nos anos 90, a Colômbia aproximou-se perigosamente de se tornar um Estado fracassado. Com o governo aparentemente impotente, os traficantes tinham um apelo popular perverso. Escobar, chefão do cartel de Medellín, foi até eleito ao parlamento. A violência permeou a sociedade enquanto candidatos presidenciais, policiais e juizes eram assassinados.

Os EUA gastaram mais de US$ 5 bilhões (R$ 10 bilhões) em ajuda externa na última década para estabilizar a Colômbia, que produz aproximadamente 90% da coca consumida pelos norte-americanos. Sob Uribe, o Estado contra-atacou. O governo, há muito impotente nas regiões mais remotas, pela primeira vez estabeleceu a presença da polícia em todas as 1.099 municipalidades. Em todo o país, os homicídios caíram 37%, e os seqüestros 78%.

No bairro afluente de Poblado, a cena do shopping de Oviedo seria familiar para qualquer consumidor americano. Clientes do Café Le Gris bebem vinho gelado e saboreiam filé ao molho de ervas enquanto outros passeiam mexendo em seus iPods. A um quarteirão de distância, há evidências da explosão imobiliária local, com um prédio de escritórios inacabado de mais de uma dúzia de andares com vista para um segundo terreno que está sendo preparado para construção.

Apesar da luta entre militares e guerrilheiros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) continuar, o presidente conseguiu desmobilizar mais de 32.000 paramilitares.

A reviravolta é impressionante, mas não é completa. A credibilidade de Uribe foi prejudicada por um escândalo político, que revelou laços entre os paramilitares ilegais e os aliados mais próximos do presidente, inclusive seu diretor de inteligência e mais de uma dúzia de membros do Congresso Colombiano. Uribe negou as acusações de que está pessoalmente ligado a atiradores ilegais.

A melhoria na segurança foi chave para a expansão econômica, que está em seu oitavo ano. O total acumulado de investimento estrangeiro direto mais do que dobrou desde 2002, alcançando US$ 52,8 bilhões (em torno de R$ 105,6 bilhões) neste ano, de acordo com a Unidade de Inteligência da Economist.

Alguns analistas, como os do Grupo de Crise Internacional, questionam a durabilidade das conquistas recentes, argumentando que paramilitares se reagruparam em gangues criminosas no tráfico de drogas. Uribe diz que o desenvolvimento do país estará em risco se o Congresso não aprovar o acordo.

Acompanhando de perto os desdobramentos estão os executivos, como Guillermo Valencia, presidente de Indústrias e Inversiones CID, que faz ternos masculinos para revendedores americanos como Macy's, Dockers e J.C. Penney.

Sob um programa de tarifas reduzidas criado para reforçar as economias da Colômbia e seus vizinhos andinos, a maior parte dos produtos colombianos entram nos EUA sem tarifas. O acordo pendente tornaria permanente essa situação, que expira no final de fevereiro, e estenderia o tratamento para os bens americanos entrando na Colômbia, que atualmente são sujeitos a tarifas de mais de 11%.

Para exportadores colombianos como Valencia, um atraso na aprovação do acordo sujeitaria os produtos a taxas de 16 a 22%, efetivamente colocando-os fora do mercado americano. A incerteza sobre as tarifas futuras levou algumas empresas americanas a cortar as encomendas daqui. Uma fabricante de jeans local recentemente demitiu 400 trabalhadores após um importante cliente americano substituí-la por um fornecedor de outro país, diz Valencia. As importações americanas de roupas colombianas em julho foram de US$ 34,7 milhões (cerca de R$ 69,4 milhões), uma queda de mais de 28% em relação a julho de 2006.

Na fábrica da empresa aqui, fileiras de mulheres jovens usando macacões caqui fazem ternos para homens e meninos aos milhares. Se o Congresso aprovar o acordo, Valencia quer produzir 3.000 ternos diariamente, 50% acima dos níveis atuais, e contratar mais 500 funcionários. Ele teme que as exigências americanas contra a violência destruam os planos. "A comunidade empresarial não tem nada a ver com essa violência", diz ele.

Economistas como Alejandro Gaviria, da Universidade dos Andes, disse que a economia vai se sair bem sem o acordo. Sergio Fajardo, prefeito popular de Medellín que estudou nos EUA, concorda. Ele diz que o destino do acordo, por fim, vai ser mais uma indicação da capacidade da Colômbia de depender dos EUA para ajudar a reparar sua sociedade fraturada do que sobre sua prosperidade comercial futura.

"Se não assinarmos o acordo de comércio livre, não vamos morrer. (Mas) o problema vai piorar, com certeza", diz ele. "E para quê temos amigos? Para tornar os problemas piores? Nossos amigos deveriam nos ajudar a melhorar as coisas... precisamos de vocês para nos ajudar a resolver os problemas." Deborah Weinberg

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