Será que 20 anos depois poderia haver um novo crash no mercado de ações?

John Waggoner e Adam Shell
Em Nova York

Wall Street adora os seus ditados. Compre barato e venda caro. Não vá contra a tendência das fitas de teleimpressão. Não tente pegar uma faca que está caindo.

Um ditado útil no momento poderia ser aquele que os historiadores gostam de proclamar com freqüência: Aqueles que esquecem o passado estão condenados a repetí-lo.

Hoje faz 20 anos que o mercado de ações dos Estados Unidos sofreu a sua pior queda ocorrida em um único dia: o Crash de 1987. O índice Dow Jones despencou 508 pontos, ou 22,6%, enquanto ondas frenéticas de vendas varriam a Bolsa de Valores de Nova York. Foi uma desarticulação de mercado tão intensa que alguns especialistas previram uma outra Grande Depressão.

AFP - Arquivo 
Foto tirada no dia 19 de outubro de 1987 na Bolsa de Valores de Nova York

As previsões sombrias revelaram-se erradas. Mas embora declínios de tal magnitude ocorridos em um único dia sejam extremamente raros - segundo um estudo a probabilidade de ocorrência de crashes é de uma vez a cada 75 anos -, o aniversário da Segunda-Feira Negra fez com que Wall Street se perguntasse: Será que tal perda rápida de riqueza pode ocorrer novamente?

Essa é uma questão legítima. Atualmente os mercados apresentam muitas similaridades com a situação que antecedeu a Segunda-Feira Negra. Preços do petróleo em disparada. Uma economia em desaceleração. Ações com valores próximos dos recordes em um mercado em alta. Volatilidade elevada.

Quando se trata de pânicos financeiros, nunca dá para dizer nunca. Mas a maioria dos especialistas de Wall Street enfatiza que os crashes são acontecimentos de baixa probabilidade. Segundo eles, um crash cataclísmico é geralmente o resultado de diversos estresses financeiros convergindo ao mesmo tempo - juntamente com uma grande dose de histeria em massa. Novas regulamentações, uma melhor tecnologia e autoridades de bancos centrais mais ativas fazem com que sejam menos prováveis as grandes desarticulações financeiras. Mesmo assim, é difícil prever se e quando o mercado irá descarrilar. E, tendo em vista a história de pânicos financeiros e a tendência da psicologia de mercado de mudar de um otimismo absurdo para um medo intenso da noite para o dia, pode ser que os crashes jamais sejam eliminados do vocabulário de Wall Street.

O grande crash
Não são muitas as pessoas que atualmente trabalham em Wall Street que estavam por lá em 1987. Mas para aqueles que presenciaram ao vivo a queda livre, as memórias são vívidas.

O crash tirou o fôlego devido à sua dimensão devastadora: um despencar equivalente nos dias de hoje provocaria uma queda do Dow de quase 3.200 pontos. Um número recorde de 604 milhões de ações foi negociado na Bolsa de Valores de Nova York naquele dia, sufocando o sistema desde o início.

Um terço dos papéis do Dow ficou inegociável na primeira hora, porque as ordens de venda superaram em muitas vezes as de compra. "Foi pior do que o inferno", diz Jim Rutledge, um corretor aposentado especialista na Bolsa de Valores de Nova York. As vendas em cascata ocorreram durante todo o dia. Os resultados nas fitas de teleimpressoras pareciam muito ruins, mas a situação era muito pior: os negócios eram executados e registrados até uma hora mais tarde. "As informações secaram", conta Rutledge. "Ainda vivíamos na época da fita, e a fita estava tão defasada que tornou-se inútil".

Programas computadorizados de investimentos continuaram jogando mais ações mo mercado à medida que este despencava. As perdas se intensificaram conforme os corretores, temendo que os reguladores fossem fechar o mercado, procuravam freneticamente se livrar dos seus papéis. Quase a metade da perda do Dow ocorreu na primeira hora das negociações.

"O mais surpreendente para muita gente foi a maneira como a liquidez desapareceu", afirma James Stack, editor da InvesTech Market Analyst, e um dos poucos corretores que tiraram os seus clientes do mercado antes do crash. "Se você desejasse vender uma ação, não haveria compradores".

A queda final de 508 pontos do Dow só foi contabilizada muito depois do fechamento do mercado. O gerenciador financeiro Frank Cappielo aguardou no seu escritório até as 19h para ver como o mercado fechara. Deprimido, foi para casa para ligar para Roy Neuberger, fundador do fundo Neuberger & Berman, e uma das poucas pessoas que ele sabia que trabalhara em Wall Street durante o crash de 1929. Cappielo calculou que se havia alguém que soubesse o que acontecera, essa pessoa era Neuberger. Mas Neuberger ligou para ele primeiro. "Frank!", Cappielo se lembra de ter ouvido Neuberger perguntando. "Você é um cara esperto. O que acha que vai acontecer amanhã?".

O grande temor - de que aquilo fosse uma repetição de 1929 - mostrou-se infundado. As ações despencaram no início da terça-feira, 20 de outubro, e começaram a se recuperar à tarde, graças em parte à notícia de que as companhias norte-americanas anunciaram planos para comprar de volta as suas próprias ações abaladas, e houve finalmente a sensação de que o mercado sobreviveria. Embora tenham havido dias conturbados após o crash, o mercado estabilizou-se e atingiu novos recordes de alta dentro de dois anos. O Dow demorou quase seis anos para recuperar-se das perdas resultantes da crise do mercado de 2000-2002.

Surgido do nada
Até hoje os economistas e os historiadores especializados no mercado de valores não chegaram a um consenso a respeito do que provocou o Crash de 1987, apesar de uma enorme investigação realizada por uma comissão presidencial, bem como numerosas iniciativas independentes de pesquisa do fenômeno.

Uma peculiaridade do crash - e de quase todos os declínios de 10% ou mais - foi o fato de nenhum acontecimento único ter provocado o surto de vendas. O mercado quase nunca entra em colapso durante um acontecimento marcante que é manchete mundial. Quando o presidente Kennedy foi assassinado, o Dow caiu 3%. O Dow caiu 3% no primeiro dia de negócios após o ataque japonês a Pearl Harbor, e 7% após os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001.

Mark Hulbert, editor da "Hulbert Financial Digest", aponta para um estudo que buscou novas causas para as 50 maiores quedas do mercado de valores. "Os pesquisadores não encontraram nada", diz Hulbert.

Mas o crash de 1987 de fato confirmou que os grandes e devastadores colapsos da bolsa têm vários pontos em comum:

- O mercado registra elevados ganhos pouco antes. O Dow subiu 44% do início de 1987 até atingir o seu ápice, em 25 de agosto de 1987. O índice Standard & Poor's 500 subiu 265% durante cinco anos até agosto de 1987. Já nos últimos cinco anos, o Standard & Poor 500 apresentou um ganho de cerca de 92%.

Os acontecimentos que antecederam o crash de 1929 foram ainda mais espetaculares: o Dow acusou uma alta de 345% em quase seis anos.

- Prevalece a euforia no mercado. A população geralmente não se concentra no mercado de valores - a menos que ele esteja subindo desenfreadamente. A atenção pública estava concentrada em Wall Street em 1987. O livro de Tom Wolfe, "A Fogueira das Vaidades", que narra os excessos de Wall Street, era um dos que faziam parte da lista dos mais vendidos. E "Wall Street, Poder e Cobiça" ("Wall Street", EUA, 1987), o filme de Oliver Stone no qual o personagem fictício Gordon Gekko imortaliza a frase, "Greed is good" ("A ganância é boa"), estava sendo produzido durante o crash e estreou em dezembro de 1987.

Muitos alegam que o que desencadeia os crashes é a oscilação entre euforia maciça e desespero. "As tendências do mercado se baseiam no humor da manada investidora, que negocia e volta atrás de acordo com a sua própria dinâmica interna", afirma Robert Prechter, presidente da Elliott Wave International, talvez a mais famosa corretora que tirou os investidores do mercado antes do crash.

- Reviravoltas drásticas precedem o crash. Vendas em cascata ocorrem por diversas razões, incluindo uma inabilidade para lidar com as perdas, observa o psiquiatra Ari Kiev. O medo é um fator desencadeante. "A situação fica assustadora quando o mercado começa a cair sem parar", diz Kiev, autor do livro que está para ser lançado, "Mastering Trading Stress" (algo como, "Controlando o Estresse dos Negócios"). Emoções descontroladas também amplificam a necessidade de escapar. "O estado de espírito simplesmente muda drasticamente. Pensamentos catastróficos passam pela cabeça da pessoa. As pessoas passam a esperar o pior", diz ele.

O mercado vinha caindo desde o final de agosto, mas ele apresentou uma queda total de 10% três dias antes do crash. O professor de finanças da Universidade da Califórnia em Berkeley, Mark Rubinstein, afirma: "Quando ocorreram aquelas quedas, muita gente começou a pensar sobre aquilo no final de semana e concluiu, 'Este não é o tipo de mercado no qual eu quero estar'".

- Inovações financeiras pioram a situação. Os investidores institucionais recomendaram o "seguro de carteira de títulos" como forma de proteção contra grandes perdas. Em tese, posições de compensação nos mercados futuros poderiam proteger a sua carteira de investimentos. Mas durante o caos do crash, muitos esquemas de seguro de carteiras não funcionaram como o esperado. Em vez disso, eles agiram como um disparador para a venda quando os preços entraram em queda livre, exacerbando as perdas.

Isso pode acontecer de novo?
"Um crash é um acontecimento muito raro", diz Richard Russel, editor da "Dow Theory Letters". "A probabilidade é sempre remota, mas eles de fato ocorrem". Segundo Hulbert, as chances de um colapso como a Segunda-Feira Negra são pequenas - mas não tão reduzidas como prevêem os modelos financeiros. Um trabalho de 2003 feito pelos professores Xavier Gabaix, H. Eugene Stanley, Parameswaran Gopikrishnan e Vasiliki Plerou determina que essa probabilidade é de uma vez a cada 75 anos.

Existem similaridades entre a situação atual e a de 1987? Certamente; 1987 também era um ano pré-eleitoral. À época os economistas se preocupavam com um desaquecimento da economia. Em 1987 o dólar sofria um enfraquecimento e os negócios corporativos estavam super-aquecidos.

Mas, de acordo com Russel, as diferenças são bem mais importantes. Em outubro de 1987, o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) acabara de concluir uma rodada de aumentos que fez com que a taxa de juros federal ficasse em 7,50%. Contrastando com 1987, o Fed reduziu os juros em meio ponto percentual no mês passado, fazendo com que o valor da taxa de juros ficasse em 4,75%.

E, além do mais, muitos dos problemas que alimentaram o pânico na Segunda-Feira Negra - sistemas de negócios sobrecarregados, comunicações deficientes e ausência de um interruptor de circuito para conter as negociações - foram resolvidos nos últimos 20 anos, afirma Richard Ketchum, diretor de regulamentação da Bolsa de Valores de Nova York, que era diretor de regulamentação de mercado da Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos em 1987. "A capacidade foi drasticamente aumentada, e temos melhor tecnologia e comunicação", diz ele.

Atualmente, o volume médio da Bolsa de Valores de Nova York é de 1,76 bilhão de ações, contra o então recorde de 604 milhões. Similarmente, 585 mil ordens foram emitidas durante o crash; atualmente 155 milhões de ordens são processadas diariamente. Até o final do ano, a Bolsa de Valores de Nova York deseja processar 64 mil ordens por segundo, contra 95 mensagens em 1987.

Além disso, há os interruptores de circuito. O mercado ficou aberto o dia inteiro em 19 de outubro de 1987. Atualmente, caso haja uma queda de 2.700 pontos, ou 20%, as negociações são interrompidas por duas horas se isso ocorrer antes das 13h, e por uma hora se a queda acontecer entre 13h e 14h. E se o mercado cair 20% após às 14 horas, o mercado é fechado.

"A beleza dos interruptores de circuito reside no fato de eles darem tempo aos investidores de respirar e entender melhor o que está se passando", diz Ketchum.

Mas os pânicos têm uma forma de causar curto-circuitos nas mais bem planejadas estruturas de defesa do mercado. Peter Schiff, presidente do Euro Pacific Capital, dá o exemplo de um cenário que poderia provocar um colapso: "Se você acorda de manhã e descobre que: durante a noite, o valor do dólar despencou de 15% a 20%; os preços dos títulos do Tesouro dos Estados Unidos caíram, provocando uma modificação de quatro a cinco pontos percentuais nas rendas; e as mercadorias, como ouro e o petróleo, dispararam de preço". Em suma, diz ele, os investidores devem temer qualquer coisa que indique um sério deslocamento na direção contrária aos bens vinculados ao dólar, ou algo grande que seja capaz de modificar a equação de investimento em uma questão de horas - como por exemplo, novas indicações de uma recessão grave.

Uma crise geopolítica, vendas forçadas por investidores endividados ou um colapso dos produtos criados por Wall Street, como derivativos, poderiam também causar um pânico.

Mesmo assim, hoje é improvável que uma queda de 22,6% ocorra em um único dia, afirma Schiff. "Talvez o Dow caia 1.000 pontos por dia durante uma semana. Bum. Bum. Bum".

Uma coisa está clara: não dá para planejar uma carteira de investimentos com base em um megacrash. "Isso poderia ocorrer? Claro. Eu apostaria a minha carteira de investimentos em um acontecimento tão raro? Não", afirma Liz Ann Sonders, estrategista de investimento da Charles Schwab. A maioria dos crashes ocorrem após excessos. Portanto, não seja ganancioso. Fortaleça a sua carteira de investimentos inserindo os grandes vencedores, sejam eles as ações chinesas, o petróleo ou os mercados emergentes, e arrume esses papéis antes que o mercado chegue ao ápice, diz ela. E também, o crash de 1987 acabou se revelando uma grande oportunidade de compra. Sonder aconselha: "Após a calamidade, comece a acrescentar, acrescentar, acrescentar". UOL

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