Privacidade? Isso é da escola antiga

Janet Kornblum

Criados com programas de realidade na televisão, paparazzi, câmeras de telefone celular e a fome insaciável da World Wide Web, não é de espantar que adolescentes e adultos de 20 e poucos anos pensem um pouco diferente sobre a privacidade.

"Constantemente, eu transmito quem sou", diz Indigo Rael, 22, de Lake Dallas, Texas. "A Internet é uma forma de eu alcançar mais pessoas. É a era da informação; estou acostumado a enviar e receber mensagens."

Para a geração da Internet, alcançar e tocar centenas de seus amigos mais próximos -especialmente por sites de redes sociais como MySpace e Facebook- é tão natural quanto escovar os dentes.

"Estão lidando com a privacidade de forma diferente de qualquer um de nós com mais de 35 anos", diz Steve Jones, professor de comunicações da Universidade de Illinois-Chicago.

Nas gerações de seus pais e avós, quando os adolescentes queriam se falar, pegavam o telefone. Algumas vezes, tinham que recorrer a conversa cara a cara.

Hoje é muito maior a probabilidade dos adolescentes e jovens adultos procurarem um teclado de computador para transmitir algo tão passageiro quanto um humor ou tão traumático quanto um rompimento -mesmo que seja apenas para uma lista de amigos leais.

"Eles estão crescendo em um ambiente, em uma cultura na qual você recebe constante opinião dos outros em formas que nunca tivemos", diz a psicóloga Linda R. Young, que ensina na Universidade de Seattle e escreve sobre adolescentes e tecnologia.

"O ser privado e o ser público tornam-se interligados de tal forma que nós (mais velhos) não conseguimos entender", diz Young. "Então, eles não têm vergonha sobre algumas coisas que achamos que deveriam ter, porque é uma extensão do ser que estão acostumados a mostrar."

A tendência para a auto-revelação online "realmente começou com a televisão de realidade e a natureza de confissão dessa forma de entretenimento", diz Anastasia Goodstein, autora de "Totally Wired: What Teens and Tweens Are Really Doing Online" (Totalmente ligados: o que adolescentes e pré-adolescentes estão realmente fazendo online). "E isso começou a permear nossa cultura."

Então, quando sites como MySpace, Facebook e Xanga, nos quais as pessoas podem divulgar de tudo, desde detalhes corriqueiros de suas rotinas até os pensamentos mais íntimos, começaram a ganhar popularidade, os adolescentes estavam prontos para entrar.

"Como eles cresceram com a Internet e com a capacidade de colocar essas coisas online, isso se tornou mais confortável para eles", diz Goodstein.

"Uma coisa da geração"
Tão confortável que alguns se preocupam que os adolescentes estão inadvertidamente transmitindo suas informações para um público maior do que pretendem.

Ellin Langford, 19, da Universidade Auburn, em Alabama, diz que protege sua privacidade sendo seletiva com as informações que compartilha online e que já viu outros mostrarem mais do que deveriam.

"Acho que minha geração realmente dá muito menos importância à privacidade", diz Langford. "Digo, um em cada dois casais de celebridades está deixando as câmeras de televisão entrarem em sua casa. E existem programas como 'The Hills' e 'Laguna Beach' (os dois da MTV), em que os personagens estão na escola, mas permitem as câmeras seguí-los e colocam suas vidas na televisão. Acho que é uma coisa da geração."

A questão é ampla o suficiente que algumas escolas, inclusive a Virginia Tech e a Universidade de Virginia, estão oferecendo seminários para estudantes, funcionários e a comunidade sobre as ramificações de uso desses sites.

A preferência pela privacidade pode estar crescendo. Um estudo em abril da Pew Internet e da American Life Project mostrou que 66% dos adolescentes que divulgaram perfis online mantiveram ao menos alguma parte deles escondida do público.

E sites sociais, inclusive o MySpace e o Facebook, estão acrescentando ferramentas para proteger -e talvez igualmente importante, controlar- a informação pessoal de seus usuários.

Kiyoshi Martinez, 23, assistente de Web de uma cadeia de jornais em Orland Park, Illinois, diz que as ferramentas de privacidade dão "às pessoas uma disposição de usar as redes de relacionamento e expor alguns elementos de suas vidas. Acho que todo mundo é uma espécie de editor de suas próprias vidas."

Contudo, a sensação de controle pode ser ilusória, diz Amanda Lenhart, do Pew Project.

"Como há essa sensação de privacidade, os adolescentes acreditam que, desde que possam controlar quem são seus amigos, não há problema."

Como descobriram recentemente, entretanto, existem áreas online que você talvez ache que são privadas, mas não são. O que vai ao MySpace ou Xanga, ou até em mensagens eletrônicas aparentemente privadas, freqüentemente não fica ali.

"Estamos descobrindo o que é socialmente correto e incorreto", diz Paul Saffo, que faz previsões de tecnologia e é professor consultor de engenharia na Universidade de Stanford em Palo Alto, Califónria.

"A diferença é que (os mais velhos) estão fazendo isso com tecnologia morta, velha, que os jovens não usam. Os mais jovens estão fazendo com a nova tecnologia."

Duras lições
Para a geração da Web, o que é correto socialmente é diferente do que era para os que cresceram antes de Google se tornar um verbo.

"Os membros da geração Internet" talvez não tenham as mesmas expectativas de privacidade que os mais velhos, mas eles dependem da confiança, diz Jones. "Eles esperam que seus pares tratem certas atividades como privadas."

Se eles forem a uma festa onde há menores bebendo, por exemplo, acreditam que seus amigos vão manter isso privado, diz Jones.

Entretanto, "as pessoas vão sair dessa festa e pensarão: 'Se eu compartilhar essas fotos com quem estava na festa, tudo bem.' Mas o que acabam fazendo é divulgar as fotos em um foro online que parece privado, mas não é."

Segundo Parry Aftab, consultor de segurança da Internet, "você tem essa desconexão entre saber que é arriscado e fazer de qualquer forma."

Algumas vezes, é preciso uma lição -como descobrir que alguém foi recusado em um emprego por causa de uma fotografia no Facebook em que estava bêbado - para os adolescentes entenderem as ramificações de suas ações, diz o especialista em segurança Lauren Weinstein.

Os adolescentes, em geral, tendem a relaxar sobre sua privacidade porque "não têm muita bagagem", diz Weinstein, co-fundador da People for Internet Responsability. Mas, diz ele, "eles estão tranqüilos, até a coisa morder eles".

Uma ferramenta de rede
A maior parte dos adolescentes entende a privacidade mais do que se imagina, diz Goodstein.

"Eles cresceram com a realidade de que coisas podem acontecer se você colocar as informações por aí", diz ela. "As pessoas descobrem, e então você pode desenvolver um modo de se proteger ou aprender como gerenciar sua identidade pública e se recuperar."

Martinez diz que pesou os riscos e decidiu que vale a pena divulgar muitas informações pessoais, inclusive sua experiência de trabalho -até seu endereço. Ele sabe que qualquer um pode encontrá-lo em qualquer lugar e que essas informações podem ser usadas com más intenções.

"Pessoalmente, não me preocupo com pessoas me seguindo", diz ele. "Tenho mais medo de usarem meu cartão de crédito do que de divulgar minhas fotos."

Ele diz que a questão raramente surge entre seus pares. Mas ele teve conversas com mais velhos "que se recusam a entrar no Facebook ou no MySpace ou não querem que nada apareça quando seu nome é digitado no Google."

Isso, para ele, é tolice. "Se as pessoas estão interessadas em você, e você pode usar isso como forma de criar uma rede, por que não divulgar isso e se anunciar?"

Martinez conseguiu entrevistas por meio de seu currículo na Web e soube de seu atual emprego por meio de um amigo no Facebook.

Colocar sua vida online também permite que mantenha mais facilmente o contato com seus amigos. "Talvez haja uma desconexão entre as gerações, entre aquela que vê a Internet como um fantasma contra aquela que diz: 'Realmente quero estar em contato com as pessoas que conheço.'"

"Talvez essa seja a principal diferença entre a atual geração e as mais antigas. Queremos estar em contato com as pessoas e ficar conectados pela Internet, enquanto segurança e privacidade talvez sejam preocupações secundárias para nós." Deborah Weinberg

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